O Paraguai encerrou a Copa América, mais uma vez, com uma campanha além de sua qualidade. A Albirroja atravessa anos de escassez técnica e depende basicamente do sistema defensivo. Que surja um Miguel Almirón ao ataque, é pouco para um time que permanece carente de talentos em outros setores e passou a competição continental apostando na retranca. E se agarrando a Gatito Fernández. O arqueiro entrou nos mata-matas como o melhor de sua posição na competição continental e ampliou os elogios, com uma baita atuação contra o Brasil. Seguro e atento, realizou milagres para garantir a igualdade no tempo normal. Por fim, quando parecia possível se consagrar em sua especialidade, os pênaltis, não conseguiu deter as boas cobranças dos brasileiros. Mas terminou o torneio como a grande figura da Albirroja.

Considerando suas virtudes, Gatito demorou a se firmar na seleção do Paraguai. A lentidão, entretanto, também refletiu a progressão de sua carreira. O novato que despontou no Cerro Porteño não emplacou de imediato. Passou por Racing, Estudiantes e Utrecht, sem grande destaque. Voltaria ao Ciclón e seria campeão pelo clube, onde seu pai havia sido ídolo. Contudo, a verdadeira evolução aconteceu a partir de sua transferência ao Brasil. O sucesso no Vitória não foi instantâneo, diante das lesões e da concorrência, mas ajudaria o clube a subir na Série B. No Figueirense, as atuações impressionantes colocaram Junior entre os melhores arqueiros do país. Algo referendado no Botafogo, onde não sentiu o fardo de tomar a posição de um ídolo como Jefferson. Não se cansa de brilhar, transmitindo muita segurança e regularidade.

Gatito começou a ser chamado à seleção principal do Paraguai em 2011 e era o reserva de Justo Villar na Copa América daquele ano, quando o veterano carregou os guaranis à decisão. Faria alguns amistosos em 2013, embora só tenha emendado uma sequência de convocações a partir de 2016. A fama no Brasil contribuiu para retornar à Albirroja. Mesmo assim, permaneceu como segunda opção em relação a Antony Silva, que compensava a confiança com boas atuações nas Eliminatórias para a Copa de 2018. O ídolo do Botafogo precisava esperar.

O momento de Gatito chegou em 2018. Foi quando voltou a pleitear seu lugar como titular, respaldado também pelas campanhas internacionais do Botafogo. Uma fratura no punho direito freou sua confirmação. De qualquer maneira, Eduardo Berizzo seria essencial para a ascensão do novo camisa 1. Ele participou de amistosos preparatórios à Copa América, agradou o treinador e venceu sua disputa com Silva. Antes da competição, Junior falava sobre sua ótima fase técnica. O que se notou repetidamente no torneio continental.

Gatito ganhou o prêmio de melhor em campo nos três jogos da fase de grupos. Sim, por ajuda da torcida do Botafogo. Mas também por sua competência, merecendo o reconhecimento sobretudo contra a Argentina. Junior passou muita tranquilidade ao time e realizou seu milagre no segundo tempo, em lance que culminou na marcação do pênalti. Já contra a Colômbia, mesmo que tenha falhado no tento de Gustavo Cuéllar, acabou evitando uma derrota mais elástica com novas defesaças durante o segundo tempo, especialmente numa cabeçada contra Jefferson Lerma. Até que viesse o encontro com o Brasil.

Se Gatito precisou lidar por tanto tempo em sua carreira com o rótulo de ser o filho de Gato Fernández, desta vez ele poderia experimentar um momento parecido ao ápice de seu pai com a seleção do Paraguai. Em 1979, o jovem de 25 anos era o arqueiro da Albirroja que eliminou o Brasil nas semifinais da Copa América e garantiu a taça na decisão contra o Chile. Virou lenda a partir de então. Quarenta anos depois, Junior encararia os brasileiros em outra ocasião de peso. E certamente encheu de orgulho seu grande exemplo. Durante o primeiro tempo, muita firmeza do camisa 1. Já na segunda etapa, algumas defesas fantásticas, quando seu time ficou com dez jogadores. Espalmou a cabeçada à queima-roupa de Alex Sandro e desviou com a pontinha do dedo o chute certeiro de Willian, que ainda tocou a trave. Foi o que ampliou o sofrimento da Canarinho e permitiu a sobrevida dos guaranis até os pênaltis.

De números excepcionais nos 11 metros, Gatito não pôde barrar os oponentes desta vez. Chegou a se aproximar das cobranças de Arthur e Coutinho, sem defender. Viu o seu colega de ofício, Alisson, terminar a noite como verdadeiro herói. Apesar disso, o paraguaio caía em pé. Sem questionamentos, deverá ser o titular da Albirroja na sequência do trabalho de Eduardo Berizzo. E pode até mesmo descolar um lugar na seleção ideal desta Copa América.

Aos 31 anos, Gatito Fernández não é nenhum novato. Os 11 jogos que disputou até hoje pela seleção paraguaia mostram como seu talento não é correspondido com uma longa história na equipe nacional. Mas ela pode se ampliar ainda mais. Pela frieza, pelo bom posicionamento e pela maneira como aproveita a envergadura, Junior é um goleiro que tende a manter o alto nível mesmo com a idade pesando sobre às costas. Quem sabe, para construir uma trajetória digna na Albirroja. Dificilmente alcançará os 78 jogos, as quatro Copas América e a Copa do Mundo de Gato Fernández. A grandeza do pai, no entanto, já deixou de ser uma sombra. Na realidade, é uma herança que Gatito honra nesta sua afirmação pelos guaranis.