Existem partidas em que a única coisa a se prever é o imponderável. Não há algoritmo para determinar com precisão o que realmente vai acontecer ao final, em meio a um turbilhão de acontecimentos simultâneos. Mas, no fim das contas, quando as aleatoriedades se encaixam, o universo todo parece ter sido feito para aquele momento glorioso. Como nesta quarta, no pulsante Defensores del Chaco. Quem há de questionar o destino de Gatito Fernández? O herói improvável da noite de Libertadores, paradoxalmente, também surge como o único herói possível. O goleiro redimido, que entrou em campo por acaso e se consagrou dentro de sua própria terra natal, pegando três pênaltis. O Botafogo perdeu para o Olimpia, é verdade. Mas a derrota por 1 a 0 é mero detalhe quando o que importa mesmo é a classificação. Os alvinegros estarão na fase de grupos. E com uma caminhada já fabulosa até lá.

O Botafogo tinha uma missão difícil, mas largava um passo à frente. A vitória por 1 a 0 no Estádio Nilton Santos garantiu certa vantagem aos cariocas. E a recepção em Assunção já escancarava o tamanho da pedreira que o time de Jair Ventura encararia. O êxtase tomou conta das arquibancadas durante o recebimento ao Olimpia, com bandeirão gigante, trapos e fogos de artifício. Uma maneira de tentar incendiar o time da casa, necessitando da vitória a todo custo, e sem poder sofrer gols para não se complicar.

Ainda assim, se há um grande mérito do Botafogo neste início de Libertadores é o caráter. Os alvinegros adotaram uma postura exemplar em todos os jogos, especialmente no primeiro tempo de cada um deles. Não foi diferente na visita ao Defensores del Chaco. O Olimpia tinha mais posse de bola e pressionava. Contudo, tinha dificuldades para se aproximar da área dos cariocas. Com o retorno de Joel Carli ao miolo da zaga, Marcelo continuava como um leão, agora na lateral. A proteção na cabeça de área também era muito bem feita. Enquanto isso, Rodrigo Pimpão e Camilo vez por outra apareciam no ataque.

A dupla de frente do Botafogo por vezes ficava muito isolada. Mas incomodou, se combinando muito bem quando conseguia receber a bola. Os alvinegros até arremataram mais durante a etapa inicial, ameaçando a meta de Librado Azcona. Já do outro lado, investindo no jogo aéreo, o Olimpia obrigava o goleiro Helton Leite a trabalhar nas saídas pelo alto. Sua primeira defesa difícil só aconteceu aos 44, buscando finalização de Richard Ortíz.

Para o segundo tempo, Jair Ventura mexeu. Colocou o later Gilson em campo, na tentativa de liberar Victor Luis aos contra-ataques. Em contrapartida, a pressão do Olimpia se intensificava. O técnico Pablo Repetto não demorou a lançar mão de Roque Santa Cruz, mais uma vez começando no banco. Os franjeados passaram a encontrar espaços, por mais que o repertório de jogadas não fosse tão extenso. E até chegaram a balançar as redes, em chute indefensável de Fernando Giménez, em lance que a arbitragem anulou por impedimento no início da jogada.

O tento invalidado mudaria a história do jogo, mas de um jeito que ninguém imaginava. Logo na sequência, Helton Leite ficou caído, sentindo a coxa. Deixou o campo de maca, para a entrada de Gatito Fernández. Titular contra o Colo-Colo, o paraguaio sofreu uma lesão leve também na coxa e perdeu o primeiro encontro com o Olimpia. Todavia, suas atuações ruins no estadual pesaram contra e Jair Ventura optou por deixá-lo no banco. Caminhos tortuosos que determinariam sua sorte. Pisou em campo já vaiado pela torcida do Olimpia, por ter defendido o rival Cerro Porteño e ser filho de um dos maiores ídolos do Ciclón, o também goleiro Gato Fernández.

gatito

Antes de se tornar herói, Gatito precisou passar por provações. O Olimpia conta com boas opções no ataque e colocou o Botafogo contra a parede. A partir dos 25 minutos, o que se viu foi um bombardeio à área alvinegra. Exceção feita a um lance de Pimpão, os cariocas permaneceram quase sempre acuados. Gatito fez duas boas defesas. Mas, aos 34, ficou vendido. Os franjeados armaram bela trama coletiva, trocando passes. Roque Santa Cruz abriu um clarão a partir de um toque de calcanhar e, sem que Marcelo tirasse, a bola sobrou limpa para Brian Montenegro fuzilar. Assim como aconteceu em ocasiões anteriores nesta Libertadores, os botafoguenses caíram de nível na etapa complementar. Mas, desta vez, mais por méritos dos adversários do que necessariamente por queda física.

Ainda tentando, mas menos perigoso, o Olimpia viu o tempo se esvair em suas mãos até o apito final. Nem a atmosfera inflamada do Defensores del Chaco ajudou. Precisaria decidir a classificação nos pênaltis. Péssimo negócio, diante do gigante que se colocou a sua frente. Gatito demonstrou que estudou seus oponentes. Começou voando no canto para rebater a cobrança forte de Richard Ortíz. Depois, esperou no centro da meta a bomba desferida por Jorge Mendoza. Enquanto isso, os botafoguenses iam fazendo sua parte, convertendo. Camilo, Pimpão e Victor Luis balançaram as redes, até que Rodi Ferreira descontou. E, quando o placar marcava 3 a 1, a última defesa do arqueiro, negando Julián Benítez. O penal que definiu a classificação.

Na comemoração, pela classificação, Gatito Fernández não saiu para comemorar com os outros companheiros reunidos no centro do campo. Correu em direção ao banco de reservas, onde pôde celebrar com Helton Leite. Cumplicidade evidente, apesar de todas as reviravoltas no enredo da noite de Libertadores. O paraguaio fez de sua própria casa também a casa do Botafogo, se redimindo com a torcida alvinegra da melhor maneira possível. Mais do que isso, estabeleceu uma dívida de gratidão – que não o exime de errar nas partidas, mas o garante já como responsável por um dos grandes feitos do clube na Libertadores.

O Botafogo entra na fase de grupos com um cartel de respeito. Deixou para trás duas camisas pesadíssimas e quatro títulos continentais, ao eliminar Colo-Colo e Olimpia. Logicamente, chilenos e paraguaios não vivem seus melhores dias no torneio, mas investiram em suas participações, montando elencos qualificados e cheios de medalhões. Que, agora, ficarão restritos apenas às competições nacionais. Na fase de grupos, os cariocas seguem encarando uma concorrência duríssima, diante de mais seis taças do torneio (e dez finais): pegará Atlético Nacional, Estudiantes e Barcelona. Em uma chave dessas, os botafoguenses ainda não são favoritos. Mas possuem uma trajetória que os deixa um passo à frente de todos os outros, ao menos em respeito.