O técnico Gian Piero Gasperini é o comandante de um dos times mais empolgantes da temporada, antes da parada pela pandemia do coronavírus: a Atalanta. A equipe tinha feito uma campanha mágica na Serie A anterior, classificando-se para a Champions League. Já na competição continental, chegou às quartas de final, quando tudo parou. Mas o trabalho de Gasperini merece uma olhada com atenção.

O treinador já é experiente, com 62 anos, e teve uma carreira com alguns altos e baixos. Foi um jogador de destaque, atuando na base da Juventus, mas com seu melhor momento pelo Pescara, com 59 jogos na Serie A. Depois, na trajetória como técnico, começou na base da Juventus, fez sucesso pelo Genoa e ganhou uma chance na Inter de Milão, em 2011. Foi quando as coisas deram tremendamente errado.

Gasperini durou menos de três meses na Inter, com derrotas na Champions League e no Campeonato Italiano, e sequer conseguiu uma vitória com os nerazzurri. A gota d’água veio em uma derrota para o recém-promovido Novara. Foi demitido e acabou desperdiçando a sua chance no maior time que dirigiu até ali. Mas houve quem visse no trabalho do técnico algo interessante.

“Eu havia sido demitido da Inter porque eu não tinha a mesma visão da gestão. Então recebi uma bonita mensagem: Pep Guardiola queria me encontrar e me convidou para assistir aos seus treinamentos no Barcelona. Foi um momento muito duro na minha carreira e ver como um técnico extraordinário como Guardiola ficou perto de mim naquele momento diz muito sobre a pessoa que ele é. Ele me fez muito feliz”, contou Gasperini, em entrevista ao Guardian.

As coisas estavam complicadas também no começo da sua trajetória pela Atalanta, na temporada 2016/17. Nos primeiros cinco jogos, foram quatro derrotas e a ameaça de demissão novamente rondava o treinador. Contra o Napoli, um dos melhores times da liga, decidiu ir para um tudo ou nada: colocou diversos jogadores jovens, fruto da boa base do time. Venceu o jogo por 1 a 0. Daí em diante, as coisas melhoraram.

Início turbulento e aposta em jovens

“Eu decidi seguir por este caminho. Eu irei até o fim com as minhas ideias, estou pronto a arriscar tudo porque eu acredito nisso. Nós começamos com Mattia Caldara, Roberto Gagliardini, Andrea Petagna e Andrea Conti e outros jogadores jovens com apenas poucos jogos de Serie A entre eles. Ganhamos com um desempenho fantástico que ninguém esquece, já que foi o início do crescimento. O início do histórico modo da Atalanta”, continuou.

“Eu tinha a ideia de colocar jovens logo de cara. Na Itália, Bérgamo é considerado um lugar muito importante para trabalho, indústria e produtividade. Eu queria ter um projeto ligado a jovens jogadores, preferencialmente crescidos na base da Atalanta, que é excepcional. Por muito tempo, a base do time era muito velha e eu tentei evitar o rebaixamento com um método diferente: ter confiança total nos jovens jogadores, desenvolvê-los e priorizar a qualidade do futebol”, contou ainda Gasperini.

O time joga em um 3-4-3, eventualmente transformado em um 3-5-2. E ele deu uma dica curiosa aos seus jogadores para dar movimentação à equipe, algo que o seu capitão Papu Gómez abraçou inteiramente. “Encontrar espaço é fundamental para um jogador, então eu disse a eles: ‘Olhe para o árbitro, ele nunca está marcado, ele sempre está em uma posição ideal para ver o jogo’. Papu, em particular, adotou esse conselho e isso realmente o ajudou”, contou.

A Atalanta tem o melhor ataque da Serie A, com 70 gols em 25 jogos. Três vezes na temporada o time fez sete gols, contra Udinese, Torino e Lecce. Dois desses jogos foram fora de casa. Ainda venceram Milan e Parma por 5 a 0. Placares altos para uma equipe que não tinha pretensões no alto da tabela. Como fazer o grupo render tanto assim?

“Para dar uma ideia a você, irei usar um provérbio chinês [do livro “A Arte da Guerra”]: ‘Defender te faz invencível, mas se você quer vencer, você tem que atacar’. Isso se soma ao espírito e mentalidade que eu quero que o meu time tenha. Mas há outra coisa que é importante também: a identidade que você cria em um a equipe precisa sempre ser reforçada. Você tem que crescer e melhorar, dia a dia, porque se você não melhora, você está perdido. Aqueles que param, eles estão perdidos”.

Treinamentos pesados

Gasperini é conhecido por ser alguém que promove treinamentos muito duros. O ex-atacante Christian Vieri disse uma vez que ele “irá te destruir no treino” e o treinador confirma que não facilita as coisas. “Durante o treinamento, meus jogadores precisam fazer um grande esforço; aqueles que não estão acostumados a trabalhar duro se assustam. Mas do esforço nascem as vitórias. Se você não corre no treino, então você não corre durante o jogo. Então, é claro que é importante se divertir no treinamento também porque disso vem o estilo de jogo e a qualidade”, explicou o técnico.

Um dos pontos mais destacados do trabalho de Gasperini é fazer com que bons jogadores passassem a render ainda mais, subindo ao nível de alguns dos melhores da liga – e até da Europa. Um deles é o capitão do time, Papu Gómez, de 32 anos. O jogador foi contratado em 2014, vindo do Metalist Kharkiv por € 4,4 milhões. Outro que se tornou fundamental, Josip Ilicic, veio da Fiorentina por quantia similar, € 5,75 milhões. Além dos dois, o time tem vários outros destaques, como Pierluigi Gollini, Marten de Roon, Mario Pasalic, Robin Gosens e Mattia Caldara, de volta ao clube depois de breves passagens sem sucesso por Juventus e Milan.

“Há um segredo. Quando você chega à maturidade necessária para entender que trabalho duro leva a resultados, você não se sente mais cansado. Não vamos esquecer o fato que os jogadores de futebol não treinam tão duro quanto atletas de outras modalidades, em que o treino é pesado e intenso. Meus jogadores precisam pensar nisso e treinar ainda mais duro”, explicou o treinador.

“Nós nunca tivemos os meios para grandes investimentos, então tivemos que encontrar jogadores jovens na Europa com a mesma filosofia: capazes de se adaptar ao nosso estilo de jogo, mentalidade vencedora, mentalidade ofensiva e dispostos a trabalharem duro. Aqueles que acreditam nisso são um de nós, aqueles que têm medo saem”, contou o treinador.

“Com Papu, nós estamos falando sobre um jogador extraordinário que não atingiu seu potencial porque nunca treinou bem. Quando ele começou a treinar melhor, ele aumentou o seu nível para se tornar um dos melhores da Europa. Ele perdeu tempo porque o treino te faz um campeão: ele sempre teve tudo para se tornar um”, analisou Gasperini a respeito do seu capitão e camisa 10.

“Ilicic é outro. Nós costumávamos chamá-lo de ‘Josip, a vovó’, porque ele ficava só sendo legal com todo mundo. Nós tivemos que convencê-lo a aumentar os seus esforços no treinamento. Estava faltando a ele aquele passo mental, mas uma vez que ele mudou a sua forma de pensar, nós paramos de o chamar de vovó, agora nós o chamamos de ‘O Professor’. Ele percebeu que todo treino é divertido e desta decisão ele renasceu. Cinco gols na Champions League nesta temporada é um tremendo esforço”, afirmou o treinador sobre o esloveno.

A aposta nos três zagueiros

Segundo sua esposa, Gasperini sempre tem o computador por perto quando dorme, porque às vezes acorda e já quer tomar notas. “Sim”, ela diz, rindo. “Com meu computador à noite, ou na minha lousa, eu sempre estou estudando por soluções para o próximo jogo e apenas quando eu acredito que vai funcionar que começamos a treinar”, conta.

Um dos pontos que ele ressalta é que o uso de três zagueiros foi algo sempre taxado como retranqueiro e ele é um defensor antigo desse tipo de sistema. “Eu estou orgulhoso disso, porque sempre sugeri uma defesa de três jogadores muitos anos atrás, quando treinava na base da Juventus. Lá, me diziam que eu era muito defensivo. Eu provei que era o oposto: os três defensores participam da construção da jogada, eles estão treinando para se envolverem ofensivamente”, disse ainda Gasperini.

“A formação não importa, mas sim com quantos jogadores você ataca ou defende. Se eu tivesse que resumir a minha filosofia defensiva em uma frase, seria que eu não acredito e nunca irei acreditar no conceito de esperar que seu adversário cometa um erro: eu acho que temos que tentar roubar a bola no ataque”, explicou.

Guardiola enfrentou o time de Gasperini na Champions League e o seu Manchester City sofreu. Ele descreveu o jogo contra os italianos como “ir ao dentista”. “O meu objetivo é esse: criar um time que faça qualquer adversário sofrer. Aqueles que jogam contra nós devem correr muito e ficar incomodados. Eu acho que a metáfora do dentista é perfeita”, comentou Gasperini.

A pandemia que parou tudo

Antes de tudo parar, a Atalanta primeiro recebeu o Valencia, no dia 19 de fevereiro, um jogo que foi considerado por muitos como um vetor da transmissão do coronavírus. O jogo de volta, na Espanha, já foi com portões fechados e a situação bastante grave nos dois países, no dia 10 de março. “Eu senti que estávamos em um país afetado pela guerra. Tudo aconteceu muito rápido: apenas alguns dias antes, não havia qualquer sentimento do que iria acontecer. Eu lembro quando chegamos em Valencia, nós encontramos uma cidade cheia de pessoas comemorando nas ruas e fora do estádio, enquanto em Bérgamo já havia as primeiras indicações que a situação era crítica. Quando nós voltamos para Bérgamo, nós percebemos como a situação mudou em apenas dois dias. Nós fomos da euforia ao medo em 48 horas”, contou o treinador.

Bergamo é a cidade italiana mais afetada pela pandemia do coronavírus. “Tem sido algo extraordinário, inexplicável em palavras. Bérgamo tem sido o centro deste terrível coronavírus. Atingiu a nossa cidade profundamente e causou tantas mortes… Eu nunca irei me esquecer das sirenes que nós ouvimos no centro de Bérgamo pelo resto da minha vida”.

Quando os jogos finalmente forem retomados, o técnico já sabe o que irá falar com o grupo. “Eu irei colocar o aspecto emocional certo, à frente e no centro. Estes jogadores têm uma grande ligação com Bérgamo, com a cidade e os torcedores. Eu irei falar emocionalmente e meu sentimento será este: Bergamo sofreu muito, este é nosso momento de fazê-los sorrir de novo”.

Quando o futebol voltar a Atalanta vai retomar aquela que era a sua melhor temporada na história na Serie A e também terá as quartas de final da Champions League pela frente. Isso, claro, se for possível retomar os jogos e se a temporada for de fato terminada, algo que ainda é uma incógnita, apesar de todas as vontades.