Um técnico inglês no futebol espanhol é algo que não vemos com frequência. David Moyes, escocês, foi o último britânico a atuar em uma grande liga fora do país, justamente a Espanha, na Real Sociedad, mas esse não é o comum. A Premier League, com seu prestígio atual, que se tornou um atrativo para os técnicos estrangeiros. Não é comum vermos ingleses, ou britânicos como um todo, atravessarem o oceano rumo ao continente para assumirem times de outras ligas. Gary Neville assumir o Valencia, portanto, causa uma certa estranheza por isso. Ainda mais sendo uma figura tão conhecida e atuante na imprensa inglesa recentemente. Ao mesmo tempo, será um desafio curioso por ser um jogador inglês que demonstrou, em sua recente carreira como comentarista, ter uma visão de futebol que vai além dos clichês.

LEIA TAMBÉM: Koeman está cansado de ser celeiro para a Premier League e quer Southampton comprador

Desde que pendurou as chuteiras, em 2011, Gary Neville tornou-se assistente técnico na seleção inglesa. Esteve na Eurocopa de 2012 com a seleção e também na Copa do Mundo de 2014. Será mantido no cargo para a Eurocopa de 2016, que será na França e do qual faz parte da comissão técnica. Tem as qualificações da Uefa para ser treinador, o que o permite assumir um clube como treinador principal. A oportunidade já parecia estar perto de surgir, com seu nome sendo especulado em times da segunda divisão inglesa. Veio agora com o Valencia. Mas seu trabalho como técnico não foi o que o tornou mais conhecido pela sua atuação fora das quatro linhas.

O que mais deu reconhecimento a Gary Neville desde a aposentadoria foi o trabalho como comentarista da Sky Sports, canal que transmite a Premier League no Reino Unido. Foi reconhecido duas vezes como melhor apresentador ou comentarista da TV inglesa, com prêmios em 2014 e 2015. Ganhou força com seus comentários sinceros, sem medo de criticar jogadores, mesmo tendo um cargo na seleção inglesa e eventualmente trabalhando com esses mesmos jogadores, além de boa compreensão tática do jogo.

“Eu estou empolgado e orgulhoso em ter recebido esta oportunidade no Valencia. É um clube enorme, com imenso prestígio e eu lembro bem dos meus tempos de jogador da paixão e lealdade dos seus torcedores”, disse Gary Neville, em comunicado. “Eu estou ansioso para trabalhar com eles, eu sei que é um grupo muito talentoso de jogadores. Eu estou muito empolgado com o desafio que está à minha frente”, comentou ainda o ex-jogador do Manchester United.

O técnico da seleção inglesa, Roy Hodgson, ficou feliz com a decisão de Gary Neville. “Estou muito satisfeito que Gary decidiu aproveitar esta excelente oportunidade. É o momento certo para ele e eu o apoio 100% nesta decisão de ir para o Valencia como novo técnico”, afirmou o treinador, que tem muita experiência fora do país, algo que não é comum entre treinadores ingleses. Hodgson trabalhou na Suécia, Suíça, Dinamarca e Itália, dirigindo equipes importantes como a seleção suíça que foi à Copa do Mundo de 1994 e a Internazionale, por duas temporadas. Talvez venha daí a influência para Gary Neville seguir também esta trajetória.

Um detalhe chama a atenção. Peter Lim, principal acionista do Valencia, é também o principal acionista de outro clube, o Salford City, time da região metropolitana de Manchester, do qual  também são sócios Phil Neville, Gary Neville, Paul Scholes e Ryan Giggs. Cada ez-jogador tem 10% das ações, enquanto Lim tem 50%.

Antes de Gary Neville, outros três ingleses dirigiram o Valencia. Entre 1927 e 1929, James Herriot, que levou o time à semifinal da Copa do Rei. Depois dele, veio Rodolph Galloway, entre 1931 e 1933, que também levou o time a uma semifinal de Copa do Rei, em 1933. Por fim, Jack Greenwell, em 1933/34, que já tinha um histórico no futebol espanhol por ter jogado pelo Barcelona e dirigido o time por sete temporadas. Em 1934, levou o time à final da Copa do Rei.

Aos 40 anos, será o primeiro clube que Gary Neville assumirá como treinador principal. Ele irá assistir ao jogo contra o Barcelona no sábado, mas só assumirá de fato a equipe após a partida, já pensando no jogo com o Lyon pela Champions League, na quarta-feira. Certamente um desafio que será interessante de ver.