Ganhou a LC? Pede para sair!

A incrível adulação que Joel Santana tem recebido nos últimos dias mostra que uma das maiores habilidades que um técnico de futebol deve ter é saber o momento certo de deixar seu emprego. Joel ganhou o Estadual do Rio e levou o Flamengo até as oitavas-de-final da Libertadores. Foi embora do clube agora e é tratado como gênio, até chamado de “insubstituível” por um jornalista. Se ele tivesse permanecido na Gávea até o fim do ano, será que a despedida seria a mesma? O Flamengo talvez fosse eliminado nas semifinais da Libertadores e acabasse o Brasileirão em oitavo, fazendo com que Joel, sem moral, tivesse que trocar o rubro-negro por um Vasco ou um Fluminense na próxima temporada.

Essa história do ‘mestre da prancheta’ vem à mente porque tem um paralelo importante com a situação que vivem os técnicos dos dois finalistas da Liga dos Campeões: Alex Ferguson e Avram Grant. Por motivos diferentes, os dois deveriam deixar o cargo – se forem campeões.

Alex Ferguson já tem o status de mito e briga pelo posto de maior técnico britânico de todos os tempos. Está há 22 anos no Manchester United, onde já ganhou todos os títulos possíveis e bateu diversos recordes. Com 66 anos de idade, sabe-se que não está longe da aposentadoria. E por que não agora?

Ferguson chegou a anunciar que se aposentaria ao final da temporada 2001/2. Foi um desastre. Sabendo da iminente saída, o Manchester United desandou, fez péssimo campeonato e acabou a temporada sem nenhum título. Vendo que ia se aposentar ‘em baixa’, mudou de idéia e postergou a aposentadoria imediatamente.

Não dá para saber o que Ferguson considera uma aposentadoria ideal. Mas é difícil pensar em algo melhor do que o técnico chegar na coletiva de imprensa após a final da Liga dos Campeões e, com a taça na mão, anunciar que está encerrando sua carreira no futebol. Isso sim é que seria sair por cima – tanto que é difícil lembrar outro técnico que tenha parado em meio a tamanha glória.

Avram Grant, por sua vez, deveria sair pelo motivo oposto. Desde que assumiu o Chelsea, imprensa, torcida e, dizem, até os jogadores torcem o nariz para o técnico, já que está claro que o israelense ganhou essa boiada não por seus méritos, mas sim por ser amigo de Roman Abramovich. Mas, de um jeito ou de outro, é inegável que algo certo Grant fez – mesmo que tenha sido simplesmente não atraplhar e deixar os atletas jogarem seu futebol. O retrospecto do Chelsea sobre seu comando é excelente (36 vitórias, 11 empates, 5 derrotas). Com isso, time conseguiu o improvável feito de alcançar o Manchester United no Inglês e chegou à primeira final de Liga dos Campeões de sua história.

Se o Chelsea conseguir dar o último passo e levar a LC, Grant teria uma oportunidade única. Poderia se assumir o papel de injustiçado e abandonar o posto em alta, deixando seus críticos sem argumentos.

Além da dramaticidade do ato, seria inteligente para Grant pedir demissão por um motivo simples: melhor do que isso não fica. Já faz 18 anos que um time não consegue ser bicampeão na LC, e a pressão sobre o Chelsea na próxima temporada seria enorme. Se ficar no cargo e não repetir o sucesso (o que é muito provável, independentemente de sua real competiência), perderia o moral e daria argumentos para a imprensa dizer que o sucesso desta temporada foi apenas sorte.

Por outro lado, se for embora agora, não faltariam ofertas de times de médio a grande porte. Afinal, um Benfica, um Deportivo La Coruña ou um Borussia Dortmund adorariam contar com um técnico que acabou de ser campeão europeu – com o mesmo time que o ótimo José Mourinho não conseguiu levar além das semifinais. Em um ambiente novo, Grant teria tempo para montar o time de seu jeito, com menos pressão, e aí sim mostrar se é bom ou não.

Ou seja, a final da Liga dos Campeões poderia – ou melhor, deveria – ser a última partida do técnico vencedor no seu cargo. Se tiver a coragem de parar, Ferguson tem a chance de reinar absoluto no Olimpo dos ‘managers’ britânicos. Para Grant, seria a chance de sair por cima e entrar para a história como mais que um Vicente del Bosque à inglesa.