“Eu me vejo como um soldado. Entretanto, um soldado da paz”. Desde 2007, a ONU estabeleceu 2 de outubro como o Dia Internacional da Não Violência. Escolha óbvia, diante da representatividade da data: em 1869, Mahatma Gandhi nasceu neste dia. O líder indiano sempre é lembrado pelas atitudes no movimento pacífico que conquistou a independência de seu país, em 1947. No entanto, os métodos do advogado para pregar a paz foram muito além da desobediência civil, do amor universal e da pluralidade religiosa. Gandhi se tornou um dos primeiros a ver o poder do futebol sobre a sociedade. E também utilizou como um instrumento para fazer valer o seu discurso.

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Gandhi entrou em contato com o futebol ainda em sua juventude, quando completava os seus estudos em direito na Inglaterra. Viveu justamente um momento de transição do esporte no país, quando a popularização se espalhava entre as massas de trabalhadores. Já na década de 1890, o indiano se mudou para a África do Sul, onde começou a exercer a profissão. E também por lá o futebol fincava suas raízes, diante da forte colonização inglesa. Não à toa, a federação local é uma das mais antigas do mundo, fundada ainda em 1892 – mas exclusiva aos brancos.

Gandhi se estabeleceu na região de Durban, em um país de forte colonização indiana. E sentiu na pele a segregação promovida pelo Apartheid. Um episódio primordial em sua trajetória aconteceu durante uma viagem de trem na primeira classe, entre os brancos. O indiano se recusou a deixar o vagão, sendo agredido pelo condutor. Além disso, várias outras vezes foi barrado em hotéis e recebeu ordens de um magistrado para tirar seu turbante em uma audiência. Gandhi se recusava. A partir daquele momento, passou a amadurecer suas ideias sobre a resistência sem violência. Pensamento primordial por sua luta pela libertação da Índia.

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Nesta época, Gandhi também percebeu a força que o futebol possuía na África do Sul, incluindo a comunidade indiana. Um elemento para pregar a solidariedade. “Ele nunca jogou seriamente, mas entendeu o coração do jogo, mesmo preferindo críquete e ciclismo. Naquele momento, o futebol era o esporte preferido das classes mais pobres. Então, Gandhi entendeu rapidamente que essa popularidade entre os segregados tornava o jogo particularmente efetivo sobre as pessoas a quem ele mais queria sensibilizar politicamente”, afirma Bongani Sithole, guia de um assentamento estabelecido por Gandhi na África do Sul, em entrevista ao site da Fifa em 2010.

Cabe lembrar que, ainda naquele momento, o futebol tinha outras conotações. Valorizava a nobreza e o cavalheirismo, aplicadas pelo senso de grupo das equipes. E estes princípios eram vistos como fundamentais a Gandhi. “Ele acreditava que o jogo tinha um enorme potencial de promover o trabalho em equipe. Certamente apreciava a capacidade de atrair grande público, mas seria um erro pensar que o futebol era apenas uma plataforma de comunicação para Gandhi. Era muito mais”, afirma Poobalan Govindasamy, presidente da Associação Sul-Africana de Futebol Indoor. A partir dos livros de Leon Tolstoy e Henry David Thoreau, Gandhi começou a formular sua campanha de desobediência civil contra as leis segregacionistas sul-africanas. Já as partidas de futebol eram utilizadas pelo pacifista para promover a integração da comunidade indiana em um evento social.

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Assim, Gandhi ajudou a criar a federação de futebol que cuidava do esporte entre os indianos, em tempos nos quais apenas os brancos faziam parte da entidade nacional. “Sua habilidade de organização e condução ajudaram a estabelecer os fundamentos das estruturas não-raciais do futebol sul-africano atual. Porque Gandhi e seus contemporâneos fizeram mais do que qualquer um no período para envolver os não-brancos, e particularmente a população indiana, nas atividades esportivas. Ainda houve um longo caminho até o ideal de um país unificado, mas ao menos essas ideias pavimentaram o caminho”, analisa Govindasamy.

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Gandhi também fundou três times em Durban, Pretória e Johanesburgo – as cidades mais populosas da África do Sul. Os Passive Resisters Soccer Club, como todos eram chamados, realizavam amistosos entre seus próprios quadros à comunidade indiana. Então, o pacifista aproveitava para fazer discursos à torcida na beira do campo e também distribuir panfletos sobre os seus princípios de resistência sem violência. Gandhi não chegou a entrar em campo, mas participava diretamente da organização dos times. Ajudava a realizar os jogos, que também serviam para levantar fundos aos rebeldes de sua casa. O dinheiro era destinado para pagar fianças de outros indianos presos por desobedecerem as leis segregacionistas.

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Gandhi retornou à Índia em 1915, já reconhecido pela força de seu discurso, para buscar a independência do Império Britânico. Entretanto, por mais que fosse popular em algumas regiões do país, sobretudo em Calcutá, o futebol não permaneceu como uma de suas ferramentas para atingir as massas. Em 1921, ele ajudou a organizar a excursão de um time sul-africano formado por hindus, disputando 14 jogos pela Índia. Só que, naquele contexto, o líder percebeu que a realidade local era outra. Os esportes lhe pareciam supérfluos na rotina de trabalho da população local, limitados como recreação às elites.

Enquanto isso, as sementes plantadas por ele no futebol sul-africano e na luta contra o Apartheid permaneceram. O Passive Resisters não permaneceu ativo por muito tempo, mas originou outros clubes, como o Moonlighters FC e o Manning Rangers – que, curiosamente, se tornou o primeiro campeão da Premier Soccer League, em 1996. Durante a primeira metade do século XX, as ligas locais seguiram segregadas. Todavia, a partir de 1951, negros e indianos se juntaram no esporte. E nos anos 1980 as barreiras raciais começaram a ser quebradas no futebol. Anteciparam um movimento que tomaria os outros setores do país. Sob a liderança de um advogado e pacifista que se inspirou em muitas ideias de Gandhi, inclusive sobre a influência do esporte: Nelson Mandela. A Copa do Mundo de Rúgbi de 1995 e a Copa das Nações Africanas de 1996 serviram para Madiba contagiar os sul-africanos em torno das seleções recém-unificadas.

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