Adriano Galliani deixou a sua marca no tempo que foi dirigente do Milan. O ex-diretor ficou no clube de 1986 a 2017, todo o período que Silvio Berlusconi foi dono dos rubro-negros de Milão. No seu tempo por ali, conquistou cinco títulos europeus, tornando o clube um dos mais vencedores do continente. Fez grandes contratações que entraram para a história do futebol e, por isso, é muito lembrado pelos acertos. Só que o dirigente confessou que alguns jogadores escaparam e dois, em particular, o incomodam. Não por acaso.

“O Milan tinha problemas financeiros na época da nossa chegada, mas o time já tinha boas fundações”, afirmou o dirigente à Sky Sport Italia. “Nós contratamos Gullit e Van Basten logo de cara e, no ano seguinte, Rijkaard também chegou. Nós já sabíamos que nós tínhamos uma grande defesa e adicionamos mais campeões ao elenco”.

Galliani ressalta um dos negócios mais lucrativos para o Milan, tanto do ponto de vista esportivo quanto financeiro: a chegada de Kaká, em 2003. Mas há outros que o dirigente elogia. “Kaká sempre permanecerá no meu coração. Shevchenko foi imenso, mas o mesmo vale para Ronaldinho, Weah, Boban, Savicevic… Há tantos que eu ainda tenho afinidade”, disse o antigo diretor do Milan.

Embora seja conhecido mais pelos sucessos no Milan, Galliani conta sobre arrependimentos e frustrações que teve no período, com algumas surpreendentes. “Tevez era para ter chegado, mas ele nunca apareceu. Nós já tínhamos um acordo com Roberto Baggio cinco anos antes da sua chegada ao Milan”, contou o dirigente.

Baggio surgiu no Vicenza em 1982, foi para a Fiorentina em 1985 e foi por lá que explodiu. Se tornou um jogador absolutamente desejado e, em 1990, foi para a Juventus. Só iria para o Milan em 1995. Ou seja: segundo Galliani, ele chegou a fazer um acordo para levar o atacante para Milão antes mesmo da sua ida para a Juventus. Não aconteceu, mas aconteceria depois, especialmente com os problemas de Baggio com a diretoria e o surgimento de um garoto que ganhava espaço: Alessandro Del Piero. E Galliani tem uma história sobre este último também.

“Nós tentamos contratar Del Piero antes que ele fosse para a Juventus, e ele é um dos dois jogadores que eu mais me arrependo de não contratar”, contou. Del Piero surgiu no Padova, em 1991, e acabou contratado pela Juventus em 1993 por 5 bilhões de liras (algo como € 4 milhões com correção monetária para o dinheiro atual).

Só que antes de ir para a Juventus, ele foi oferecido ao Milan, segundo Galliani. “O Padova o ofereceu para nós, mas queria cinco bilhões de libras, um valor muito alto por um rapaz tão jovem, não estávamos convencidos”, contou o dirigente. Na época, Del Piero tinha 18 anos, ainda uma promessa. O Milan não aceitou pagar, mas a Juventus aceitou. O resto é história.

Um arrependimento semelhante veio alguns anos depois. “O mesmo aconteceu com Cristiano Ronaldo. Ele tinha 16 anos e o Sporting nos pedindo algo como 16 ou 17 bilhões de liras [nota do editor: na moeda atual, com correção monetária, entre € 11,2 milhões e € 11,9 milhões]”, contou Galliani. Dois anos depois, com 18 anos, ele foi vendido ao Manchester United por € 19 milhões (€ 25 milhões, com correção monetária).

Entre os arrependimentos, algo que ele não pode ter: Gallini tentou contratar Francesco Totti, sem sucesso, mas não faltou esforço dos rossoneri. “Nós tentamos contratar Totti por um longo tempo, mas ele nunca quis deixar a Roma”, confessou.

Galliani contou também sobre um episódio que causou rusgas: a venda de Thiago Silva e Zlatan Ibrahimovic ao PSG, em 2012. E foi um capítulo triste na história do sueco com os rossoneri, que demorou a acontecer e teve idas e vindas.

“Nós já tínhamos visto ele ainda no Ajax, mas naquela época ele não fazia muitos gols. Ele melhorou muito com [Fabio] Capello e [Italo] Galbiati (então assistente de Capello) e, em 2006, nós chegamos a um acordo com ele”, revelou Galliani. “Contudo, nós estávamos lidando com o Calciopoli e, assim, o acordo fracassou”.

Ibrahimovic só chegaria ao Milan em 2010. Naquele ano de 2006, deixou a Juventus, mas foi para a rival de cidade do Milan, a Inter. Em 2009, deixaria a Itália para jogar pelo Barcelona de Pep Guardiola e Lionel Messi. Só que a experiência não deu tão certo quando o esperado. Um ano depois, voltou à Itália para defender o Milan, onde conquistaria o título italiano de 2010/11. Só que no ano seguinte, 2012, o PSG chegou com tudo para levar jogadores do Milan, que estava em péssima situação financeira. Ibrahimovic foi vendido ao clube de Paris, assim como Thiago Silva, mesmo contra a vontade inicial do sueco.

“Eu o vendi em 2012 e ele não falou comigo por muito tempo, em parte porque eu prometi que nunca o venderia. Foi tudo por razões orçamentárias, pelas mesmas razões que tivemos que vender Thiago Silva”, explicou Galliani. O Milan sentiu falta e não voltou a conquistar o scudetto até hoje, em meio a um turbilhão que fez inclusive o antigo dono do clube, Silvio Berlusconi, vender o clube, o que levou também à saída de Galliani, em 2017.

Ibrahimovic ainda voltou ao Milan em 2020, fez poucos jogos e, com contrato até o fim da temporada, em junho, indicou que pode se aposentar, desistindo assim de continuar com o Milan. Aos 38 anos, o jogador foi para a Suécia e por lá ficou com a família desde o início da crise do coronavírus.