Há pouco mais de uma semana, Pedro Gallese poderia sair da Copa América como vilão da eliminação peruana. O goleiro falhou feio e engoliu a goleada contra o Brasil, que deixou a Blanquirroja por um fio. Se houve um momento de honra, ele veio nos minutos finais, quando o arqueiro defendeu o pênalti cobrado por Gabriel Jesus. E o breve alívio, na verdade, guardou uma nova história ao camisa 1. O Peru se classificou aos mata-matas graças aos deslizes dos concorrentes nos outros grupos. Gallese virou herói contra o Uruguai, com boas defesas no tempo normal, antes de pegar o pênalti de Luis Suárez. Ainda assim, a verdadeira redenção estava guardada para a semifinal, justamente no clássico contra o Chile. Que o placar de 3 a 0 faça jus à ótima atuação dos Incas, ele também dependeu de uma noite inspiradíssima de Gallese. Pegou tudo e encaminhou os peruanos ao reencontro com o Brasil na decisão.

Gallese não é um goleiro infalível. Sua própria carreira indica a irregularidade, limitado a clubes sem tanta projeção. O maior voto de confiança veio mesmo em sua chegada ao Alianza Lima, neste ano, para defender um dos maiores campeões de seu país. No entanto, o goleiro se engrandece na seleção. Raras vezes nas últimas décadas a Blanquirroja contou com um arqueiro tão decisivo, apesar de suas oscilações. Titular a partir de 2014, participou da boa campanha na Copa América de 2015 e se colocou entre os protagonistas na classificação à Copa do Mundo de 2018. É um nome importante na ascensão recente dos Incas.

A maior virtude de Gallese sob os paus está em sua explosão. É um goleiro capaz de fazer defesas espetaculares, por seu ótimo tempo de reação e por sua elasticidade. Contra o Uruguai, conseguiu fechar o ângulo dos atacantes adversários e intuiu a penalidade de Luis Suárez para encaminhar a classificação peruana. Mesmo assim, não se compara à noite excepcional que viveu em Porto Alegre. Salvou o time em diferentes momentos, mantendo o placar confortável.

No primeiro tempo estrelado por Paolo Guerrero, Gallese já apareceu para evitar a reação do Chile. Pouco antes do intervalo, a Roja não descontou porque o camisa 1 estava atento, em bomba de José Pedro Fuenzalida espalmada para fora. Era só uma prévia do segundo tempo espetacular do arqueiro. Quando Jean Beausejour tentou encobri-lo, Gallese se esticou todo para realizar o maior milagre da noite. Depois, no momento em que Eduardo Vargas saía livre diante da meta, o peruano soube fechar o ângulo do atacante perfeitamente. Pegou firme uma cabeçada de Arturo Vidal e também um chute de Alexis Sánchez que ia no cantinho. Até que o lance realmente lembrado viesse nos acréscimos.

Àquela altura, Guerrero acabara de marcar o dele e abrir 3 a 0 no placar. O Chile ganhou um pênalti a seu favor. Poderia marcar o gol de honra, que ao menos diminuiria a chacoalhada. O lance, contudo, teria o efeito reverso. Em vez de fazer o simples, Vargas quis inventar. Bateu com cavadinha, como se tivesse algum motivo para desmoralizar os rivais. Quem jogou seu moral no chão foi mesmo Gallese. Esperto, o goleiro esperou o chute. Parou com uma só mão, antes de agarrar a bola. Quando o chileno passou ao seu lado, o arqueiro direcionou apenas um olhar de desdém. Este lance será obrigatório nas lembranças dos peruanos sobre a noite histórica.

Contra o Brasil, Gallese terá um reencontro com sua própria participação na Copa América. Será a grande oportunidade de deixar outra impressão, após a atuação ruim na fase de grupos. Desta vez, em condições maiores de pressão, mas chances maiores de se consagrar. Pela maneira como carregou a seleção peruana até esta final, e especialmente pelo que jogou no clássico, já merece um lugar especial entre os grandes arqueiros da Blanquirroja. Aos 29 anos, esta Copa América pode ser a confirmação de uma trajetória maior. O moral do camisa 1 vai às alturas.