Marcelo Gallardo envergava a camisa 10 do River Plate quando a Argentina viveu pela primeira vez um Superclássico na semifinal da Libertadores. Aos 28 anos, o meia sabia quais eram os caminhos ao topo da América, após conquistar a taça com os millonarios em 1996. No entanto, também tinha consciência da sombra azul e dourada que pairava sobre Núñez. De longe, em Mônaco, o craque viu o Boca Juniors se impor nas quartas de final de 2000 e se estabelecer como a grande força do continente com Bianchi, Riquelme e Palermo. Caberia ao Muñeco liderar a revanche em 2004, na luta por uma taça que também merecia ir ao Monumental naquela virada de século.

Ainda no primeiro jogo, Gallardo fracassou em sua missão. A referência técnica do River Plate permaneceu em campo durante míseros 32 minutos. O Boca Juniors abrira o placar pouco antes, com Rolando Schiavi. Na sequência, em uma disputa no meio-campo, Muñeco se estranhou com Alfredo Cascini e ambos receberam o cartão vermelho direto – no que foi uma decisão exagerada do árbitro. O craque, então, se descontrolou. Enfiou o dedo na cara do juiz e questionou a decisão. Pior, quando a confusão generalizada já estava formada, Gallardo puxou o rosto de Pato Abbondanzieri. Suspenso, o camisa 10 veria Carlos Tevez imitar a célebre galinha e os xeneizes conquistarem a classificação dentro do Monumental, nos pênaltis.

Gallardo nunca teve a chance de se reencontrar com o Boca Juniors dentro das quatro linhas pela Libertadores. Aquela derrota na semifinal marcava anos frustrantes ao River Plate, que colecionou grandes jogadores e não conseguiu recuperar a taça depois de 1996. Sim, os millonarios conquistariam outros tantos títulos no Campeonato Argentino desde então. Mas a reconstrução só começaria após a passagem pela segunda divisão. Teria a participação vital de velhos ídolos. De personagens que trilharam aquela última glória continental.

Matías Almeyda foi o primeiro veterano a resgatar os brios em Núñez. Logo após pendurar as chuteiras, o volante convertido em técnico se tornou o responsável por alcançar o acesso. Ramón Díaz se tornou o seu sucessor. O comandante da Libertadores 1996 recolocou o River Plate outra vez na primeira colocação do Campeonato Argentino, em breve passagem pela casamata. E o que poderia até parecer um regresso, com a despedida do histórico treinador, se provou uma verdadeira revolução aos millonarios. Há cinco anos, Gallardo assumiu a equipe. Não só redescobriu caminhos nas Américas, como também cumpriu sua vingança contra o Boca Juniors – repetidas vezes.

Se o Boca Juniors ainda possui a “paternidade” no Superclássico, com mais vitórias que o River Plate no confronto direto, os últimos anos pisotearam o orgulho dos xeneizes. O clube de La Boca, que antes se gabava de ter mais colhões nos grandes jogos e tirava sarro do “pecho frio” das galinhas nos momentos decisivos, precisou engolir a seco o domínio dos rivais nesta década. Os millonarios vivem uma fase inegavelmente mais vitoriosa. E quase sempre se tornando os responsáveis por desbancar os boquenses na luta pelas principais taças.

Pois se a hegemonia do Boca Juniors nos grandes clássicos muitas vezes foi associada à sua garra, o River Plate mostrou como é possível ser copeiro também bajulando a bola com um futebol técnico. Como dá para encantar sem negar o tal brio. Gallardo é o mentor desse processo. O treinador soube encontrar o equilíbrio entre uma equipe vencedora, de bom futebol e de muita vontade dentro das quatro linhas. Não é o time perfeito. Mas é o mais competitivo das Américas, há tempos. Os xeneizes sentem isso na pele.

O River Plate já superou times melhores que o atual do Boca Juniors, e com elencos inferiores ao seu atual. O primeiro capítulo veio sob um nível menor de pressão, na semifinal da Copa Sul-Americana de 2014. Logo em seus primeiros meses de trabalho, Gallardo fez os xeneizes sentirem como a história começaria a mudar. As oitavas de final da Libertadores de 2015 seria mais um capítulo, embora determinado pelos tribunais. Ainda assim, enquanto a bola rolou, os millonarios foram superiores. Já em 2018, uma prévia aconteceu na Supercopa Argentina. Até que a supremacia se tornasse irrefutável nos últimos 12 meses.

Afinal, mesmo com todos os tumultos, a decisão da Libertadores de 2018 concedeu ao River Plate uma razão maior. Não são mais os Superclássicos de 2000 ou de 2004 que se sobrepõem à consagração dos millonarios dentro do Santiago Bernabéu, por mais que o passado siga bastante representativo à construção do imaginário. Gallardo liderou a campanha que, em Núñez, pode ser considerada uma grande libertação. Registrou a história, ainda por cima, sobre Guillermo Barros Schelotto – um dos símbolos que vestiam azul y oro nas alegrias boquenses de outrora. Tevez seria mais um carrasco do passado humilhado na Espanha.

E que as semifinais de 2019 não pudessem superar a importância da decisão de 2018, num anticlímax ao próprio caos que o Superclássico havia experimentado, o reencontro serviu como uma confirmação a Gallardo – no que seria, no máximo, um desafogo aos rivais.

O Boca Juniors mudou completamente desde a derrota em Madri. Trocou de treinador, se desfez de seus protagonistas, contratou outros tantos jogadores. Voltou a agarrar-se na velha garra para tentar superar as “galinhas” do lado de lá. O que se viu, entretanto, foi um rival insuficiente. A mística da camisa, a pulsação da Bombonera e a insistência até o final não foram capazes de tombar o River Plate. Por mais que os millonarios tenham feito uma partida ruim nesta terça, os méritos na classificação seguiam inegáveis pelo todo. Quinze anos depois, a Bombonera guardou o maior júbilo a Muñeco, vingado.

Desta vez, Gallardo não precisou sair direto aos vestiários do estádio. Ele teve o gosto de entrar em campo, triunfante ao apito final, e comandar a festa de seus jogadores. De terno, sem mais a 10, mas como o adversário mais temível que o Boca Juniors poderia encontrar. A mentalidade vencedora que o treinador incutiu em Núñez é algo histórico. Mudaram os jogadores e as formações, mas não a maneira como este River Plate encara suas grandes partidas. A prova do sucesso vem com a terceira final da Libertadores em cinco edições, algo memorável. Uma marca que, neste século, apenas Bianchi havia conseguido, com quatro finais de 2000 a 2004. Não seria exagero comparar o River de Gallardo com o Boca do Virrey, ao menos em ambição e imposição. Os legados se aproximam.

O River Plate ainda tem uma final para jogar. Dá para ampliar esta história, embora a decisão se prometa duríssima contra Flamengo ou contra Grêmio. Fato é que, por aquilo que pratica e por aquilo que deseja, não se menospreza o time de Gallardo. As chances de erguer a Libertadores pela terceira vez em cinco edições são palpáveis. E, diante da possibilidade do quinto título continental em Núñez, o Boca Juniors sequer poderá contar tanta vantagem sobre sua grandeza além das fronteiras contra os rivais. Os millonarios deram um salto muito grande nesta década. Conseguiram justamente aquilo que parecia fugir entre os dedos. E de uma maneira que os xeneizes nunca poderão negar. Também como treinador, Muñeco gravou a ferro seu nome como uma lenda do Superclássico.