A cultura e as raízes do Caribe Colombiano estavam impregnadas no garoto. Cresceu transitando por diferentes cidades, captando as particularidades de um povo. E uma das maiores paixões populares, justamente em seu momento mais fulgurante, não lhe seria alheia. Durante o famoso ‘El Dorado Colombiano’, o Atlético Junior, principal clube do norte do país, ganhou o torcedor mais ilustre que poderia imaginar: Gabriel García Márquez. O jornalista, que já trabalhava em publicações locais, deu uma pitada de seu mundo fantástico para traduzir a realidade vivida nos gramados de Barranquilla. A partir de uma vitória sobre o Millonarios, fez-se torcedor. Encantou-se com Heleno de Freitas. E, por alguns anos, frequentou as arquibancadas do Estádio Romelio Martínez.

O primeiro encontro de Gabo com o futebol, paixão à primeira vista, foi descrito na crônica ‘El Juramento’ – republicada aqui na Trivela há quase três anos, na ocasião da morte do gênio. Entretanto, em outros momentos o Nobel de Literatura dedicou sua pena a escrever sobre o esporte. Em maio de 1951, 11 meses depois daquela vitória definitiva, García Márquez voltou a tratar sobre o Junior em seus textos. Com a delicadeza natural de seu lirismo, detalhou as provações de um torcedor (no caso, ele mesmo) diante da má fase de seu time. E, mais uma vez, mirou Heleno. Mas não pelo deslumbre, e sim pela imagem de bode expiatório que o brasileiro acabou tomando.

Abaixo, reproduzimos ‘A Crônica Anual’, presente no livro ‘Textos Caribenhos: Obra Jornalística I (1948 – 1952)’. A transcrição do artigo foi gentileza do leitor Victor Faria. Singela maneira de homenagear García Márquez, que completaria 90 anos nesta segunda. Sua obra é eterna:

A crônica anual

Há mais ou menos um ano, presenciei pela primeira vez uma partida de futebol. Isso aconteceu quando do memorável encontro entre o Atlético Junior e o Milionários, no qual o primeiro ganhou duas coisas: a partida e um torcedor, mesmo levando-se em conta que esta última é um ganho que constitui uma perda, tendo em vista o caso particular de que o dito torcedor é precisamente o autor dessas linhas.

Entre todas, a decisão de tomar partido a favor do time que ganha é sem dúvida a mais cômoda. E eu, que se alguma coisa venho perseguindo neste mundo é a comodidade, não podia perder a oportunidade que se me oferecia de deixar o estádio, pela primeira vez em minha vida, com a alegria do triunfo. A vida, como se sabe, é um sopro!

O mau é que as coisas têm o seu avesso. E depois daquele espetacular triunfo, depois que o autor dessas linhas se declarou de público e por escrito partidário absoluto e por todos os séculos do Atlético Junior, os membros desta equipe passaram sistematicamente a dedicar-se à tarefa de demonstrar todos os domingos à tarde que não compartilham do entusiasmo de sua torcida. Tinha-se a impressão de que os piores adversários do Júnior eram os 11 homens que vestiam a camisa vermelha e branca. Por mais que a galera aplaudisse, por mais que a torcida gritasse até ficar rouca, os Monumentos mostravam-se dispostos a provar no gramado, todos os domingos, que não estavam de acordo com os seus torcedores.

Quando um torcedor tem a satisfação de ver seu time favorito frequentemente vitorioso, duas ou três derrotas, por mais lamentáveis que sejam, servem, até certo ponto, para estimular a fé e para provar até onde pode chegar a consistência do seu entusiasmo. Mas o caso é que quem escreve estas linhas é dono de uma notória capacidade de começar mal, e isso fica mais uma vez provado com o fato de que depois daquela primeira pública e acalorada profissão de fé esportiva deste cronista, o Atlético Júnior não voltou a erguer a cabeça. Trata-se de uma verdadeira conspiração contra um modesto torcedor, que não tem a menor ideia a respeito de futebol, mas que a cada dois domingos ia ao estádio municipal, arriscando-se, cabisbaixo e mudo, a ser testemunha das formidáveis surras que quinzenalmente levava seu time preferido. Continuar sendo juniorista, depois dessa amarga experiência, já era mais que um fanatismo, era uma obsessão.

Por sorte, o tempo encarregou-se de provar que também a obstinação tem sua recompensa. E aí temos novamente o Atlético Junior empunhando o porrete, castigando os grandes como em seus melhores tempos. É verdade que agora conta com caras novas. Mesmo que todos os que entendem de futebol – e até os que não entendem, que são os mais perigosos – insistam em dizer o contrário, parece-me que a figura de Heleno de Freitas continua fazendo falta à equipe. Não para que ela ganhe, mas para que se tenha a quem culpar no caso de que, amanhã ou depois, o Junior venha a sofrer um novo revés. Porque Heleno de Freitas, como jogador de futebol, poderia apresentar-se muito bem, muito mal, ou simplesmente mostrar-se apenas como um embuste brasileiro, mas a verdade é que o grande cigano, mais que centroavante do time, era uma espécie de permanente oportunidade para se falar mal de alguém; um réu oficial, preconcebido e contratado, pelo qual a direção do Junior pagava uma fortuna em troca da possibilidade de os seus membros conservarem a cor natural dos olhos.

As novas caras me deram oura vez a oportunidade de escrever sobre o Júnior. Contudo, lamento a ausência de Heleno de Freitas, mesmo que com esta crônica o Júnior comece a perder novamente e não haja mais ninguém em que se possa por a culpa, a não ser a minha soberba capacidade esportiva de viver sempre nas nuvens.

Gabriel García Márquez
Maio de 1951
Textos Caribenhos: Obra Jornalística I (1948 – 1952) – Ed. Record


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