A redenção de Gabigol está completa, independentemente do que o futuro lhe reserve. Existem poucos lugares mais altos no futebol do que o que o atacante do Flamengo alcançou na tarde deste sábado (23). Em um intervalo de três minutos, o marrento goleador transformou sua passagem fracassada pela Europa, por Internazionale e Benfica, em um simples parêntese para o épico que escreveu com sua perna esquerda no Estádio Monumental de Lima, no Peru. Um tropeço necessário para que estivesse neste estrelado grupo liderado por Jorge Jesus, campeão da Copa Libertadores 2019 após a virada por 2 a 1 sobre o River Plate, com dois gols do artilheiro do torneio.

Ao longo de basicamente toda a decisão, Gabigol não foi capaz de mostrar o que tanto o marcara nesta temporada para além dos gols. A boa movimentação no ataque que costuma desempenhar em conjunto com Bruno Henrique foi neutralizada por um River Plate espetacularmente eficaz em sua marcação. Nenhum jogador do Flamengo tinha espaço, e Gabigol não era exceção à regra.

A demora do Flamengo no retorno ao vestiário indicava uma conversa pesada de Jorge Jesus, uma tentativa de redirecionar os rumos do jogo. Isso trouxe algum resultado em termos de aplicação no início da segunda etapa, mas o Flamengo seguia perdido ao tentar jogar seu jogo de sempre. Gabigol, na frente, estava isolado. Ainda assim, foi em seus pés que veio a primeira grande chance do Rubro-Negro no jogo.

Se tem uma coisa que o atacante justificou neste ano foi o seu apelido, mas a partida parecia querer tomar outro rumo. Em um lance que parecia basicamente definido, aos 12 minutos do segundo tempo, Bruno Henrique fez boa jogada individual pela esquerda, cruzou para o meio da área, e Gabigol, sozinho na pequena área, com Armani já batido, finalizou. Porém, a zaga do River ocupava toda sua linha de frente, e o chute bateu em De La Cruz, que correra com toda a velocidade para chegar à defesa e diminuir as chances de gol do rubro-negro.

Este lance já indicava que as coisas não corriam como o normal para o Flamengo – ou para Gabigol. O mais supersticioso apontaria o dedo para o gesto do atacante antes do início da partida. Na entrada em campo, o camisa 9, ao passar pela taça, a tocara de leve, um clássico do azar que todo jogador deveria evitar. É preciso muita confiança para fazer isso, e é impressionante como o atacante manteve toda essa confiança intacta mesmo atravessando tal tarde desafortunada. Só com ela Gabigol seria capaz de fazer o que reservara para os minutos finais do duelo.

Aos 44 do segundo tempo, com a inteligência de posicionamento que lhe é característica, apareceu quase na linha para completar passe de Arrascaeta e empatar para colocar o Flamengo no jogo.

O sofrimento dos 90 minutos havia sido demais, e Gabigol não quis estender o drama. Três minutos depois, depois de chutão para frente da zaga, aproveitou o desespero da defesa do River, o vacilo de Pinola e finalizou com força, sem dó, para matar Armani e definir o épico em 2 a 1.

Em uma demonstração de quantos minutos são necessários para se escrever um épico pitoresco, ainda foi expulso por reclamação antes do apito final, pintando outra cena como protagonista de uma final para a história.

Durante entrevista à imprensa espanhola antes da final, Gabigol falara que seu tempo em Portugal havia sido muito breve, mas que, mesmo com a decepção no Flamengo, havia sido positivo pois o havia feito perceber que “precisava sorrir de novo, fazer o que mais gostava e sempre com a cabeça erguida. Nunca desmoronei”.

Mais do que isso, os percalços em Milão e Lisboa ganharam significado completamente novo neste sábado. Foram os passos necessários para que Gabigol eternizasse seu nome na história de um clube com 40 milhões de torcedores e contando. A garantia de que muitas gerações ouviriam sobre seus feitos em Lima.

O abraço chegado em Júnior e Petkovic após o jogo, para as câmeras da Globo, acaba como um momento simbólico. Gabigol pede passagem no grupo, faz parte agora do panteão de figuras históricas do Flamengo. Poderá estar em bandeiras da torcida ao lado dos ídolos sobre cujos ombros se apoiou.

Na mesma entrevista citada acima, o atacante vendia seu peixe para um possível retorno à Europa. Fortaleceu muito seu argumento com os gols deste sábado. Os vários anos que ainda têm na carreira poderão correr de incontáveis maneiras possíveis. Na melhor das hipóteses, esse terá sido apenas um capítulo entre vários vitoriosos. Na pior, ainda terá se imortalizado. O jogo só acaba quando termina, e Gabigol é a prova viva disso.