Quando assinou com a Internazionale, Gabriel Barbosa parecia pronto para dar o salto à Europa. Embora muito jovem, havia sido campeão pelo Santos, conquistado a medalha de ouro olímpica e defendido a seleção brasileira principal um punhado de vezes. Chegaria a um clube gigante em má fase, precisando garimpar talentos. Talentos como o que ele indubitavelmente possui. Não deu certo. Emprestado ao Benfica, também não deu certo. Gabigol retornou à Vila Belmiro e conseguiu reparar parte do seu prestígio no último Campeonato Brasileiro. Agora, no Flamengo, encara um momento de definição na sua carreira: será apenas um bom atacante para o futebol brasileiro ou voltará a ser considerado em grandes clubes europeus?

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Por mais cruel que possa soar, atualmente, são dois patamares diferentes na carreira de um jogador. Gabigol tentou pular para o de cima, escorregou e voltou. Marcou uma vez em dez partidas pela Internazionale. Somou um total de 183 minutos em campo, equivalente a dois jogos completos. Emprestado ao Benfica, não foi muito melhor. Atuou cinco vezes, com um tento na Taça de Portugal. Retornou ao Brasil, em janeiro do ano passado, e teve um bom ano no Santos, com 18 gols em 35 partidas do Campeonato Brasileiro. Sagrou-se artilheiro do torneio, recuperou sua grife e se transferiu para um clube que, na teoria, tem ambições maiores para 2019.

Gabigol provou um primeiro ponto: não esqueceu como se joga futebol. Não foi brilhante o tempo inteiro, talvez não tenha revivido seus melhores momentos, mas colocou uma bola na rede a cada duas rodadas, excelente média para o Brasileirão. Agora, tem mais alguns desafios. Porque o ambiente é tão importante para a confiança e o bem-estar do atacante, um deles é mostrar que pode ser um bom jogador longe da Vila Belmiro. Em um lugar onde não é tão paparicado, onde ainda não tem história, onde a paciência é curta e diante de uma torcida ávida pelo cumprimento da promessa de que seria campeã em série, assim que as contas fossem colocadas em dia. A cobrança é grande: Gabigol precisa ajudar o Flamengo a conquistar títulos em 2019.

Superando esse, outro ressurge. Gabigol ainda tem 22 anos. A preocupação imediata tem que ser o Flamengo. Nesta temporada e na próxima. Eventualmente, porém, um retorno ao futebol europeu deve ser contemplado. Precisará jogar bem com frequência e mostrar um comportamento que apague a má impressão que deixou na Itália e em Portugal. E, então, decidir se deseja tentar mais uma vez ser um jogador de elite do futebol europeu, atingindo as expectativas estabelecidas no seu início de carreira, ou se manter como um atacante de primeira linha do futebol brasileiro.

Um paralelo interessante pode ser traçado com Adriano Imperador. Ele não se reapresentou à Internazionale, depois de defender a seleção brasileira nas Eliminatórias para a Copa do Mundo da África do Sul. Com problemas pessoais, rescindiu seu contrato com os italianos e vislumbrava um tempo afastado do futebol para “repensar a carreira”. Em um mês, acertou seu retorno ao Flamengo e foi um dos craques do título brasileiro de 2009. Em vez de ficar no time que amava e no qual era amado, tentou mais uma vez a sorte na Itália, com a Roma. Nunca mais conseguiu atuar consistentemente em alto nível. Ainda teve passagens por Flamengo e Atlético Paranaense antes de parar de vez – embora vira e mexe esboce um retorno ao futebol.

A comparação serve mais como curiosidade porque há diferenças essenciais entre os dois casos. A idade é a principal: Adriano tinha 28 anos quando tentou pela última vez triunfar na Europa, e Gabriel ainda tem apenas 22. O novo atacante do Flamengo não tem os problemas pessoais de saúde que abreviaram a carreira do Imperador. De qualquer maneira, a segunda passagem pela Gávea acabou sendo um momento de definição para Adriano, o canto do cisne de sua carreira. E pode servir da mesma maneira para Gabigol. Não que ele estará acabado caso vá mal ao Flamengo, provavelmente terá outras chances, mas um fracasso pode prejudicar voos mais altos na sua carreira.

Gabriel tentará resolver a falta de gols do ataque do Flamengo. O artilheiro do último Brasileirão foi o meia Lucas Paquetá, com dez tentos anotados. Os primeiros atacantes da lista são Uribe e Henrique Dourado, ambos com seis. Eles se mantiveram no elenco e dão opções para Abel Braga montar a equipe de maneiras diferentes. Pode ter Gabigol no comando de ataque, com o apoio de Arrascaeta, Éverton Ribeiro e Vitinho, por exemplo. Ou ocupar algumas das posições da linha criativa, pelos lados ou como segundo atacante, dando suporte a outro camisa 9. A certeza é que o elenco do Flamengo está mais forte e oferece a Gabigol uma oportunidade que ele não pode deixar escapar.