O domingo me fez lembrar muito de um dos dias mais emocionantes da minha vida. Sol com um vento gelado e Santiago, no Chile, com um clima diferente em um 11 de setembro de 2018. O golpe militar feito comprovadamente com a ajuda dos Estados Unidos completava 45 anos. Num mesmo 11 de setembro, o país entrou em um período sombrio e devastador. O governo de Salvador Allende deu lugar a uma ditadura sangrenta, que prendeu e torturou quase 39 mil pessoas, matou mais de 3.200 e acabou com a liberdade.

Logo neste dia fui ao Estadio Nacional. No caminho, até hoje não sei explicar o motivo, já sentia algo diferente. Chegando perto do estádio, a atmosfera já era confusa. Uma mistura de alegria e paixão com uma dor muito forte. Caminhando até a cancha me lembrei daquele “jogo” famoso, em que o Chile venceu a União Soviética por 1 a 0 ao marcar um gol na “partida” em que não teve adversário, já que a URSS se recusou a jogar num campo onde ainda estavam presos políticos. Sim, para quem não sabe, o Estadio Nacional em Santiago foi um campo de prisioneiros políticos, onde sete mil pessoas foram presas, milhares torturadas e fuziladas no campo de futebol que se tornou um campo de morte.

Quando entrei no estádio e vi o espaço destinado para que os chilenos e o mundo nunca se esqueçam do que aconteceu ali, eu desabei. “Um povo sem memória é um povo sem futuro” escrito de todo tamanho. Naquela época, o Brasil vivia campanha presidencial com um candidato que defendia e continua defendendo abertamente a ditadura militar e exalta torturadores.

No Chile, Londres 38, outro centro de detenção, tortura e morte, virou um museu para, assim como o Estadio Nacional, nunca deixar o período e seus crimes serem esquecidos. Naquela semana, vi incontáveis homenagens por Santiago e pelas outras cidades que visitei. Meses depois, o Chile protagonizou vários protestos contra as políticas neoliberais de Piñera e a população obteve várias conquistas. No Brasil, acabamos elegendo Bolsonaro e estamos vendo no que deu.

“Um povo sem memória é um povo sem futuro”.

As lágrimas que derramei no Estadio Nacional chegaram a doer. A alma sente um impacto inexplicável em um lugar com tamanha e única carga histórica e emocional. Andar por aquele estádio, seu gramado e suas arquibancadas foi das experiências mais fortes que já vivi.

Me lembrei muito desse dia ontem porque, no Brasil, depois de várias manifestações pedindo um novo AI-5, a volta da ditadura, fechamento do Congresso e do STF, todas com apoio de Bolsonaro e algumas com presença dele, tivemos uma manifestação em que apoiadores do presidente fizeram uma manifestação com claras inspirações na Ku Klux Klan. Horas depois, diversas bandeiras neonazistas estavam em mais manifestações a favor de Jair.

Isso tudo na semana em que o mundo chora a morte de George Floyd e a luta antirracista ganha ainda mais força e conta com vários protestos nos Estados Unidos. Essas manifestações com tons fascistas e racistas no Brasil, por mais bizarro que possa parecer, aconteceram livremente, algumas com escoltas da polícia.

As pessoas estão podendo, livremente, ser racistas, fascistas e pedir o retorno de um período em que, além da censura, do fim da liberdade, da prisão, da tortura e da morte de milhares de pessoas, do sofrimento de milhares de famílias e de direitos políticos cassados, fez a economia brasileira entrar em um completo buraco. Foi o “milagre econômico” de uma hiperinflação que era de 92,12% antes da ditadura, explodir para 242,62% no fim do regime e a dívida externa explodir de 3,4 bilhões de dólares para US$ 9,1 bilhões no fim do sombrio período. Muitos motivos para comemorar, certo? O que deveria ser completamente repudiado, é motivo de exaltação para alguns tolos.

“Um povo sem memória é um povo sem futuro”.

Felizmente, porém, tivemos uma resposta necessária. E com a participação do futebol. E ainda existem alguns tolos que dizem que futebol e política não se misturam… Em São Paulo, a maior organizada do Corinthians, a Gaviões da Fiel, convocou um ato pela democracia, contra o fascismo e contra Bolsonaro na Avenida Paulista. A Democracia Corinthiana viva. Sócrates certamente ficou orgulhoso. Além dos alvinegros, a torcida antifascista do Palmeiras também esteve presente, assim como torcedores de Santos e São Paulo. Camisas diferentes, mas juntas por uma causa comum e acima de todas elas.

No Rio de Janeiro, a torcida do Flamengo comandou o protesto contra Bolsonaro, contra o fascismo, e levou faixas pró-democracia. Torcedores antifascistas de Vasco, Fluminense e Botafogo também participaram. Já em Belo Horizonte, a manifestação foi liderada pela Galo Antifa, com fanáticos por América Mineiro e Cruzeiro também pedindo democracia e lutando nas ruas. Ídolo do Atlético Mineiro e símbolo na luta contra a ditadura, Reinaldo deve ter erguido seu punho orgulhoso em casa.

Por todo o Brasil, atos em resposta as manifestações antidemocráticas e fascistas apoiadas e até com participação do presidente. Todas elas com presença vital ou comandadas por torcidas organizadas de clubes de futebol. A polícia que nada fez na manifestação inspirada na KKK, porém, atacou as manifestações pró-democracia. Manifestações contra Bolsonaro foram agredidas, enquanto manifestações a favor do presidente, que tiveram bandeiras neonazistas, receberam escolta policial.

Em São Paulo, suspeita-se que a confusão começou porque manifestantes a favor de Bolsonaro colocaram bandeiras fascistas e provocaram manifestantes pró-democracia. Foram bombas de efeito moral, gás de pimenta e agressões para manifestações dos antifascistas. Já no Rio de Janeiro, além disso, o deputado Daniel Silveira (PSL) conversou com um policial que confessou ter mandado queimar uma bandeira pró-democracia. As manifestações pró-democracia foram reprimidas pelas forças policiais, assim como também aconteceu em Belo Horizonte e outras cidades brasileiras.

A mesma polícia que matou George Floyd, João Pedro e Agatha, o genocídio dos 80 tiros, é a polícia que ontem agrediu quem defendeu a democracia, escoltou quem defende a volta da ditadura militar, o fechamento do Congresso e do STF e carregou bandeiras neonazistas e nada fez contra quem imitou a Ku Klux Klan. Enquanto o mundo luta contra o racismo e os Estados Unidos estão pegando fogo na luta pelo fim do genocídio, uma manifestação inspirada na KKK aconteceu tranquilamente em Brasília. Não assusta se você se lembrar que, antes da eleição em 2018, David Duke, ex-líder da KKK, elogiou Bolsonaro, dizendo que “ele soa como nós”.

O neonazismo, o fascismo e o racismo tiveram liberdade neste domingo. A democracia, nem tanto. Que tempos são esses? A democracia corre perigo e quem não se posiciona em um momento desses e contra o fascismo é conivente.

“Um povo sem memória é um povo sem futuro”.