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A prioridade máxima de qualquer país no momento, obviamente, deve ser a saúde pública. A pandemia de coronavírus já deixou claríssima a situação limítrofe que se vive e como postergar medidas enérgicas pode trazer consequências devastadoras. Ainda assim, há outras questões importantes a se trabalhar paralelamente. Existem outros colapsos em vias de acontecer. E o futebol, como uma indústria que não representa exatamente uma necessidade básica, deverá sofrer um impacto em suas finanças.

A lógica dentro do futebol não foge muito daquilo que se nota em outras áreas da economia, sobretudo aos pequenos clubes. Sem público nas arquibancadas, as contas não fecham. Funcionários precisam ser pagos e, sem dinheiro em caixa, as possibilidades de uma bancarrota se tornam muito maiores. No caso do esporte, as equipes possuem as federações para se escorar. Na Alemanha, as iniciativas se desenrolam. Federação, clubes e até mesmo torcedores adotam medidas para tentar preservar a estrutura. Ao todo, 56 mil pessoas têm seus empregos ligados ao futebol no país.

Enquanto as duas primeiras divisões da Bundesliga correspondem à DFL, a liga alemã, a DFB (a federação) cuida da terceira divisão para baixo, com os níveis regionais integrando suas respectivas associações locais. E o primeiro posicionamento da federação junto aos clubes foi bastante claro: sem torcedores, não há futebol. Não era apenas uma questão de valorizar a importância do público no ambiente dos estádios. O primordial era a sobrevivência: o dinheiro das bilheterias representa a maior parte do faturamento dessas agremiações – sem grandes patrocínios e fora da TV. Sem gente nas tribunas, os campeonatos se tornam inviáveis.

Ante a situação calamitosa, para proteger a saúde de todos aqueles envolvidos direta ou indiretamente com o futebol, a suspensão das competições era a escolha óbvia à DFB. Cerca de 80 mil partidas foram canceladas no final de semana de 7-8 de março. As divisões de acesso, os torneios de base e as competições femininas pararam antes mesmo que os dois primeiros níveis da Bundesliga. E, com a medida mais básica tomada, a entidade também precisaria pensar em planos amplos para evitar a quebra de seus membros.

A maior preocupação direta da federação se concentra na terceirona, único nível completamente profissional sob as ordens da DFB. De qualquer maneira, esse foco não abranda outros tipos de problemas, também com as equipes semiprofissionais e o futebol feminino. O primeiro passo da federação foi criar um programa para manter a liquidez dos clubes enquanto os campeonatos estão suspensos. O projeto garantirá empréstimos para que os times necessitados contornem suas dívidas e mantenham seus pagamentos em dia. As condições dos empréstimos ainda estão sendo determinadas, mas a lógica (mínima) é a de que não existam juros.

Por serem ligados diretamente à DFL, os clubes das duas primeiras divisões não podem ter acesso a este benefício. Enquanto isso, nota-se uma postura diferente da liga neste momento de pandemia – e de forma bastante contestável. Nesta semana, o chefe-executivo da entidade defendeu que os jogos sejam realizados com portões fechados. “Nenhuma liga tem seguro contra pandemias. Sem receita de televisão, patrocínios e bilheteria, nós podemos apenas sobreviver por um período curto de tempo. Os jogos fantasmas [sem torcida] serão a única forma para sobreviver a curto prazo”, declarou Christian Seifert.

O prejuízo estimado das duas primeiras divisões da Bundesliga, caso não possam encerrar sua temporada, é de €750 milhões. O dinheiro da televisão representa a maior parcela, num total de €370 milhões. O acordo com a Uefa para adiar a Eurocopa e encerrar as competições em junho, caso as autoridades sanitárias assim permitam, até representa uma perspectiva positiva que atenuará o rombo. Ainda assim, caberia até mesmo à DFB rever os seus planos e estudar um apoio também nos níveis mais altos de suas competições, incluindo equipes de médio porte.

Nem mesmo a ação em relação aos clubes da terceirona foi recebida com unanimidade, afinal. Muitos questionam a maneira como o empréstimo será oferecido pela DFB. A uma entidade que possui encargos menores e lucros altíssimos, como a federação, parte dos clubes defende que as ofertas financeiras não deveriam render uma contrapartida futura. Com os empréstimos, as finanças podem estar comprometidas de qualquer forma dentro de algumas temporadas – principalmente ante as incertezas de como a situação se restabelecerá ao fim da pandemia, com a evidente recessão econômica.

O intuito de DFB e DFL deveria ser a proteção de todos os seus clubes e dos funcionários ligados a eles, oferecendo fundos de emergência sem qualquer exigência além. Também poderiam propor um plano de divisão das despesas e redução de danos, com a própria participação dos times mais abastados. Considerando as caras licenças cobradas pelas duas entidades e o dinheiro gerado pela seleção alemã à federação, há condições de ajudar mais – pensando também além do futebol, nas próprias necessidades básicas da população.

Alguns times já apertam o sinal de alerta. Clubes como o Zwickau e o Carl Zeiss Jena acionaram as autoridades públicas locais para aplicar regimes de expediente reduzido aos seus funcionários. Para eles, é uma questão de “evitar a falência”. Mesmo na terceira divisão, algumas dessas equipes estimam perdas na casa dos sete dígitos. A renegociação de contratos acaba sendo um caminho adotado, mas a DFB deveria ser incisiva para evitar essas “soluções” que jogam a bomba em outros colos – no caso, dos empregados.

Há outros clubes, ao menos, que preferem preservar sua situação antes de qualquer medida mais drástica e tentar contornar o impacto sobre os funcionários. O Unterhaching é um exemplo, segurando suas contas antes de agir. “Não quero falar sobre questões econômicas, porque isso não é a prioridade. Agora precisamos ver como o quadro médico se desenvolve. Outras coisas sempre foram regulamentadas no passado e devem ser regulamentadas agora. Não são prioridade. Não podemos falar sempre sobre assuntos econômicos. É sobre a saúde de toda a sociedade”, pontuou Manfred Schwabl.

Em diferentes âmbitos, a palavra de ordem é cooperação, e isso não muda no futebol. A DFB pode até mesmo rever sua medida inicial de garantir empréstimos, conforme a situação dos clubes se mostrar mais clara. Por mais que a “indústria” esteja parada, o compromisso com os trabalhadores também é vital para que tudo não se torne uma bola de neve. E os próprios clubes de elite, por iniciativa própria, começam a estudar caminhos para que as bases da pirâmide não sejam prejudicadas.

O Hoffenheim lançou seu projeto. O time do vilanizado Dietmar Hopp criou um fundo de auxílio para clubes e pequenos negócios da região onde está situado. O Hoffe disponibilizará recursos para que estas instituições menores se mantenham. Parte do dinheiro virá das próprias contas da agremiação, enquanto os jogadores e os patrocinadores também participarão com doações. O Hoffenheim ainda promete encabeçar outras ações, principalmente para apoiar as instalações médicas sobrecarregadas com o atendimento aos pacientes na região.

O presidente Dietmar Hopp, em particular, contribuiu com “um valor significativo” – segundo a nota oficial do Hoffenheim. Conforme a revista Kicker, no momento, o fundo possui seis dígitos em seu saldo. O magnata, entre outras ações, também é o acionista majoritário de uma companhia farmacêutica que desponta no desenvolvimento de uma vacina ao coronavírus. Inclusive, o alemão negou uma oferta do governo americano para importar a pesquisa aos Estados Unidos – uma tentativa de capitalizar com a pandemia.

Sobre o fundo de apoio, Hopp enfatizou sua visão: “É natural que eu ajude as pessoas que, de repente, são expostas a esta emergência e têm sua existência ameaçada. Nós sempre deixamos claro desde o início de nossa ascensão ao futebol profissional que somos um clube de toda a região. Agora, é nosso trabalho provar isso em outro nível. É hora da solidariedade. Os mais fortes ajudam os fracos. Espero que essa ideia óbvia de solidariedade seja um consenso entre os protagonistas da Bundesliga. Para o futebol profissional, isso significa encontrarmos uma solução aos mais afetados”.

Pode até ser que Hopp aproveite o momento para beneficiar sua imagem e que, mesmo assim, isso não abrande as críticas dos torcedores quanto ao 50+1. Independentemente disso, não dá para negar a postura louvável ante a crise. “Essa pausa no futebol é absolutamente necessária, porque a saúde das pessoas deve estar em primeiro plano. Não se pode e não se deve ter duas opiniões: o futebol não se desconecta da sociedade e não pode reivindicar um papel excepcional nesta crise absoluta. Depois de várias conversas com especialistas, me parece que precisaremos de paciência. É uma virtude que nem todos têm”, declarou o presidente, à revista Kicker.

E se a maioria dos torcedores não conta como uma fortuna no nível de Hopp para atuar em diferentes frentes, há outros tipos de campanha acontecendo na Alemanha. Os grupos de ultras estão, sobretudo, comprometidos em ajudar os mais afetados pelo vírus. Torcidas como as de Borussia Dortmund, Augsburg e Stuttgart lançaram serviços voluntários para que seus membros façam compras a idosos, a pessoas pertencentes a grupos de risco ou àqueles que cumprem quarentena. Torcedores como os do Schalke 04 organizam doações coletivas de itens básicos. Ainda assim, há aqueles que seguem no apoio à sobrevivência de seus clubes, em especial nas divisões de acesso.

A torcida do Alemannia Aachen, tradicional clube atualmente na quarta divisão, propõe o seu mutirão e oferece seus serviços voluntários para realizar compras aos grupos de risco. Além disso, em parceria com a agremiação, os ultras aurinegros lançaram os chamados “ingressos dourados”. Serão 60 ingressos simbólicos, vendidos para tentar compensar o time de suas perdas financeiras por conta dos portões fechados. Os torcedores também são orientados a não pedir a devolução dos valores já pagos nos carnês de temporada, após a suspensão dos torneios.

Já a Unsere Kurve, entidade que representa as torcidas na Alemanha, trouxe propostas mais incisivas. Conforme a visão do grupo, em carta enviada à DFL, jogadores dos clubes mais ricos podem abrir mão parcial ou totalmente de seus salários, diante da bolha existente no futebol. A solidariedade em ajudar os mais necessitados pesa no momento e o futebol tem condições de agir, não só para manter agremiações menores, como também para combater a pandemia. Além do mais, a união dos ultras é expressamente contra o apoio aos clubes com dinheiro público.

“O futebol profissional deve ajudar a si mesmo e não usar os auxílios estatais. Isso pode ser alcançado através da criação de seu próprio fundo. Dirigentes, treinadores e jogadores – sem que isso tenha qualquer consequência existencial para eles – podem renunciar aos seus salários por certo período de tempo, dependendo dos ganhos. Você pode beneficiar aqueles que realmente precisam. Antes da suspensão das competições, os discursos inflacionados sobre humanidade e solidariedade surgiram em conexão com os protestos das torcidas. Agora, eles precisam mostrar que não eram só frases vazias ou um artifício para proteger seus interesses econômicos”, comentou a Unsere Kurve.

Fica claro que, em meio ao caos geral, algum lado terá que arcar com as consequências. E ter consciência de que as receitas exorbitantes não se repetirão nos próximos meses é o primeiro passo aos grandes clubes e entidades, o mais óbvio. A proteção das pessoas em risco, seja na questão sanitária ou mesmo na econômica, precisa ser mantida em primeiro plano. Como pontua ainda a Unsere Kurve: “O futebol alemão é convocado a lidar com a situação social real. Por um futebol em prol das pessoas, e não do máximo lucro”.

Quem fala em solidariedade precisa agir com solidariedade. Ao menos na Alemanha, alguns lados do futebol não ficam só no discurso. Seria importante que tal postura se ampliasse – e não só lá, não apenas dentro do esporte.