Texto publicado originalmente em 6 de fevereiro de 2015

“Futebol é uma arte completa em si. É todo um universo. Eu amo futebol porque é preciso ser um artista para praticá-lo. Quando nós jogamos futebol, também fazemos música. Eu preciso disso. Liberdade! Futebol é liberdade”.

Estas palavras poderiam ser muito bem atribuídas a qualquer grande craque da história do futebol. Mas vieram de um dos nomes mais emblemáticos da história da música. Poucos representam a um gênero musical o que Bob Marley simboliza ao reggae – e também à Jamaica, bem como à filosofia de vida em que acreditava. Se estivesse vivo, o garoto de Trenchtown completaria 75 anos nesta quinta. Certamente, cultivando sua paixão pelo futebol, tão grande quanto a que tinha pela canção.

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“Se você quiser me conhecer, você precisa jogar futebol contra mim e contra os Wailers”, disse Bob Marley certa vez a um jornalista, quando queria escapar de uma entrevista apenas para não perder a sua pelada. O futebol estava em seu cotidiano. Filho de um britânico que o abandonou ainda bebê, o músico dizia que sua paixão por futebol “devia ser genética” e passou a praticar o esporte de maneira mais intensa durante a adolescência, no colégio e nas ruas de Trenchtown, o bairro da periferia onde cresceu. Quando tinha 15 anos, inclusive, chegou a apanhar de cinta de sua mãe por ter destruído um tênis jogando bola. Quem nunca?

Porém, qualquer intenção de ir além como jogador acabou quando o jovem passou a se dedicar integralmente à música. O que não o fez abandonar o seu jogo favorito. Pelo contrário, o futebol se tornou uma maneira de relaxar antes dos shows com os Wailers. “Eu amo a música antes do futebol. Se eu amasse o futebol primeiro, talvez fosse perigoso”, afirmou, em entrevista dada em 1980. “Jogar futebol e cantar junto pode não ser muito bom, porque o futebol às vezes é violento. Eu canto sobre paz e amor, e algo pode acontecer, sabe. Se alguém der um carrinho em mim, me daria sentimentos de guerra”, complementou, em tom de brincadeira.

E quem conheceu Bob Marley dentro de campo afirma que o cantor era um verdadeiro craque. “Se você tentasse pegar a bola dele, podia ficar sem esperanças. Bob gostava de ter a bola sempre com ele. Era muito rápido e criativo. Geralmente jogava no meio-campo, e o chamavam de ‘Capitão’. Ele era muito bom. Era como enfrentar um jogador da seleção brasileira”, descreve Trevor Wyatt, chefe da Island Records, que distribuía os discos dos Wailers no Reino Unido e costumava atuar ao lado do jamaicano, em entrevista ao Telegraph.

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Além de praticante, Bob Marley também era devoto do futebol. Torcia para o Boys’ Town, o clube fundado pela comunidade cristã em Trenchtown. Mas também tinha outras paixões fora da ilha. Na Europa, uma de suas equipes preferidas era o Celtic, especialmente após a vitória na Champions de 1967, com os chamados Leões de Lisboa.

Certa vez, em viagem à Austrália, Marley chegou a conhecer Dixie Dean – antiga lenda do Everton. “Eu fiquei impressionado sobre como ele conhecia o futebol. E, quando fomos treinar, também com suas habilidades. Ele me disse: ‘Eu sou fã do Celtic. Eu adoraria ir à Escócia vê-los jogar e talvez bater uma bola. Eu sei tudo sobre Jock Stein. O Celtic sempre foi meu time e também é de meu filho Rohan. Ele só tem seis anos, mas ama o clube’”, descreve Dean, em sua autobiografia.

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O Santos era outro clube adorado por Bob Marley. É possível ver fotos do músico vestindo a camisa alvinegra que ganhou na vinda ao Brasil em 1980. Tamanha a popularidade do Peixe durante a sua juventude que, em 1964, um time chamado Santos Football Club foi fundado em Kingston – e conquistou as quatro primeiras edições do Campeonato Jamaicano.

Mas, acima de torcer pela equipe da Vila Belmiro, Marley era um admirador profundo de Pelé. Aos 28 anos, o jamaicano pôde acompanhar e torcer pela Seleção na Copa de 1970. Foi quando se encantou ainda mais com o país. “Sou fã de seu futebol. Rivellino, Jairzinho, Pelé. O Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil”, confessou o gênio do reggae, em conversa com Paulo César Caju, anos depois.

Além disso, Bob Marley fez amizade com vários jogadores da seleção jamaicana. Carl Brown, ídolo da equipe nacional e técnico na Copa Ouro de 1993, chegou a conhecer o músico ainda na adolescência. “Bob jogava futebol com frequência nas ruas. Eu lembro que ele ia jogar no Boys’ Town, que era o desejo de qualquer garoto de Trenchtown. Para te falar a verdade, não sei o que ele amava mais, música ou futebol. Em 1971, o apresentei aos jogadores da seleção e nós permitimos que ele cumprisse um de seus maiores sonhos, o convidando para jogar no Estádio Nacional. Ele estava muito empolgado. Nunca o vi tão feliz”, contou, em entrevista de 2009 à Bob Marley Magazine. Anos depois, o músico ganhou uma estátua em frente ao estádio.

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Seu maior companheiro no futebol era Allan ‘Skill’ Cole, que também se tornou seu amigo nas peladas de Trenchtown. Considerado o melhor jogador da Jamaica na década de 1970, o atacante passou pelo Atlanta Chiefs, dos Estados Unidos, e até mesmo pelo Náutico em 1972. Capaz de dribles desconcertantes, dividiu o campo com Marinho Chagas no Timbu, mas ficou pouco tempo, após se desentender com a diretoria. Depois disso, Cole voltou ao Santos de Kingston, ajudando na vitória sobre o Cosmos de Pelé em 1975 – com Bob Marley entre os 45 mil que lotaram as arquibancadas do Estádio Nacional. Não era a primeira vez que Cole se deu bem contra o Rei, aliás: em amistoso contra os santistas, um ano antes, o jamaicano teria dado um drible da vaca no camisa 10.

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Ao se aposentar, Cole viajou em turnê com os Wailers. Alguns dos grandes clássicos da banda, aliás, possuem a sua participação na composição: Natty Dread, Revolution e War. A última foi escrita nos tempos em que o ex-jogador treinava um clube na Etiópia, e Bob Marley viajou ao país para visitar o Imperador Haile Selassie, o messias rastafári e também um amante do futebol – inclusive, sendo um dos maiores incentivadores nas primeiras edições da Copa Africana de Nações, em meio ao pan-africanismo. Entre altos e baixos na relação, Cole voltou a trabalhar com o amigo a partir de 1980.

Em Kingston, Bob Marley costumava jogar nos campinhos próximos da sede da Tuff Gong, a gravadora dos Wailers, onde organizava pequenos campeonatos durante quase todas as tardes. Após sofrer um atentado em dezembro de 1976, mudou-se para a Inglaterra, passando a jogar em um parque próximo a Craven Cottage, o estádio do Fulham. Chegou a compartilhar a pelada até mesmo com Osvaldo Ardiles, outro grande ídolo do cantor, que havia se transferido ao Tottenham após a Copa de 1978. Durante aquele Mundial, o jamaicano exigiu que os seus ônibus tivessem televisões transmitindo as partidas na Argentina. A turnê do disco Kaya ainda teve o seu design inspirado naquela Copa.

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Em 1980, meses antes de sua morte, Marley visitou o Brasil. E o momento mais célebre aconteceu justamente quando aproveitou para bater uma bola com Chico Buarque, Toquinho, Alceu Valença e outros craques da MPB também fãs de futebol. Na ocasião, aliás, é que conheceu Paulo César Caju, de quem se tornou amigo, passando uma semana ao seu lado no Rio de Janeiro. O time do jamaicano venceu a pelada por 3 a 0, com gols dele, de Chico e do ídolo da Seleção. “Bom, eu amo o futebol brasileiro, e nós ouvimos falar muito da Seleção durante a Copa. O Brasil é sempre o primeiro time a ser mencionado na TV e nos jornais. Paulo César é o meu jogador favorito”, disse, em coletiva de imprensa durante a visita.

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Também naquele ano, Bob Marley e os Wailers fizeram o seu maior show justamente em San Siro, levando 100 mil pessoas ao estádio de Milão. Na mesma turnê, o músico passou pela França, onde treinou com os jogadores do Nantes, então campeões da Ligue 1. Naquele momento, contudo, já se agravava o câncer que o matou – desenvolvido, segundo seus biógrafos, a partir de um jogo de futebol. Em 1977, o jamaicano lesionou seriamente o dedão do pé durante um bate-bola com jornalistas. A ferida não tratada do jeito correto, por causa das crenças do músico, teria se transformado em um melanoma, que se espalhou por outros órgãos. Em 11 de maio de 1981, acabou vencido pela doença, aos 36 anos.

Em seus últimos dias, Marley também teria dito a amigos que queria se dedicar à criação de uma escola de futebol para crianças carentes em Kingston. “Eu não conhecia a Jamaica e ele queria que eu fosse para lá dar aula para as crianças jamaicanas, que eram loucas pelo futebol brasileiro. Seis meses depois ele morreu de câncer”, conta Paulo César Caju, em sua autobiografia. O músico ainda queria incluir Pelé e Ardiles no projeto. Não deu tempo. Sua paixão ao futebol terminou resumida apenas ao próprio sonho de criança.