O futebol de alto nível em Paris está aquém do tamanho da cidade e de sua representatividade. A capital francesa possui 2,2 milhões de habitantes, além de mais de 12 milhões de pessoas na região metropolitana. Ainda assim, o Paris Saint-Germain é o único clube local na elite do Campeonato Francês, uma agremiação que surgiu nos anos 1970 justamente tentando aumentar a projeção da modalidade na Cidade Luz. A partir da década de 1980, o PSG conquistou títulos importantes e cativou sua base de torcedores, mas os principais sucessos dependeram dos ciclos abastados graças ao dinheiro de grandes mecenas. No mais, pouca relevância com o Paris FC e o Red Star, que possuem históricos interessantes, mas tendem a ser apenas figurantes na segundona durante a próxima temporada; ou outros tantos pequenos, como Racing, L’Entente e Créteil-Lusitanos.

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O futebol em Paris, no entanto, não se resume apenas ao que acontece no Parc des Princes ou nos outros estádios da região metropolitana. Não foi a falta de representatividade que afastou muita gente da paixão pela bola, pelo contrário. Mesmo limitada na primeira divisão, a Cidade Luz é um enorme celeiro de talentos à seleção francesa. E isso se percebe claramente no elenco que disputará a final da Copa do Mundo. A maioria dos jogadores não despontou profissionalmente no futebol da capital, mas ganhou as primeiras oportunidades por lá e ascendeu rumo a outros cantos do país. Assim, há um lado fundamental do futebol parisiense que a Ligue 1 não reflete diretamente: as muitas academias e agremiações voltadas à formação – algo aproveitado pela própria federação federação, através do centro de treinamentos de Clairefontaine.

Dos 23 convocados por Didier Deschamps à Copa do Mundo, sete nasceram na Île-de-France (a região administrativa onde fica Paris) e Matuidi cresceu por lá. Não coincidentemente, sete deles são descendentes de imigrantes africanos, todos com ao menos uma raiz na África Subsaariana, e a única exceção neste grupo, Alphonse Areola, possui ascendentes filipinos. Origens que indicam (e, a bem da verdade, até exageram) o perfil da sociedade local, com sua concentração de trabalhadores estrangeiros em busca de uma oportunidade. Segundo o censo de 2006, cerca de 40% dos imigrantes vivendo na França se concentravam na Île-de-France. O recenseamento de 2011 apontava que 17,9% da população da região (2,1 milhões de pessoas) nasceu em outros países. Além desses, um estudo de 2008 apontou que mais de 2 milhões de habitantes na zona fazem parte da segunda geração de imigração – ou seja, os filhos de imigrantes.

A enorme quantidade de filhos de imigrantes, cerca de 33% da população abaixo dos 18 anos da Île-de-France em 2008, não garante que surgirão novos jogadores de futebol. Contudo, indica que há material humano, especialmente àqueles que podem ver no esporte uma maneira de integração social ou mesmo uma oportunidade de ascensão. Assim, se os clubes profissionais da capital não conseguem atender a demanda, nada mais natural que muitos desses jogadores façam suas formações em outras agremiações menores – amadoras ou mesmo voltadas apenas à base. Equipes que, independentemente da falta de projeção, conseguem realizar o trabalho de maneira competente e preparar os jovens talentos a saltos maiores.

Dos oito nascidos ou crescidos na Île-de-France, Presnel Kimpembe e Alphonse Areola são os únicos formados nas categorias de base do Paris Saint-Germain. Filho de um congolês e de uma haitiana, o zagueiro jogou até os 10 anos, pelo AS Eragny, um clube amador do norte da região metropolitana. Então, seria descoberto pelos olheiros do PSG. Já o goleiro deu seus primeiros passos no Petits Anges, um projeto voltado a crianças no 7.º arrondissement de Paris – zona central da capital, onde está localizada a Torre Eiffel. O prodígio permaneceu por lá até os 13 anos, seguindo ao PSG depois disso.

Já Steven N’Zonzi teve uma rápida passagem pela potência, mas não eclodiria por lá. Filho de pai congolês e mãe francesa, nasceu em La Garenne-Colombes e começou no tradicionalíssimo Racing, da própria localidade. Chegou ao PSG aos dez anos e ficou por lá até os 13, dispensado por não se desenvolver fisicamente. Depois disso, sairia da região metropolitana, passando por diferentes times do país (Lisieux, Caen e Beauvais) até ganhar sequência e se profissionalizar com a camisa do Amiens.

Os demais jogadores dos Bleus nascidos e crescidos na Île-de-France seguiram por caminhos diferentes, mas parecidos em certo sentido. Paul Pogba, filho de guineenses recém-chegados à França, nasceu em Seine-et-Marne. Passou boa parte de sua infância atuando pelo nanico Roissy-en-Brie, de sua comuna, um pequeno clube com forte presença de imigrantes, inclusive em cargos diretivos. Mudou-se ao vizinho Torcy, mas ficou por pouco tempo. Afinal, aos 14 anos, foi pinçado pelo Le Havre, dono de uma das melhores bases da França. Quando fala sobre si, não deixa de citar com orgulho Roissy-en-Brie.

Le Havre, aliás, também seria o destino de Benjamin Mendy. O descendente de senegaleses cresceu na região de Essonne e atuava pelo Palaiseau, renomada equipe na formação de talentos. Antes do lateral, passaram pela base do clube nomes como Thierry Henry, Jonathan Zebina e Jean-Alain Boumsong. As transferências dos antigos pratas da casa, graças aos mecanismos de solidariedade da Fifa, permitiram aos pequenos investirem em suas estruturas e na capacitação de seus profissionais. Continuaram fazendo a roda girar, e Mendy nada mais é do que um reflexo disso. Quando trocou o Monaco pelo Manchester City, a bolada que garantiu ao Palaiseau pode ser chave para que outros jovens como ele ganhem oportunidades parecidas.

Já N’Golo Kanté precisou negar os prognósticos. O filho de malineses nasceu em Paris e a partir dos oito anos de idade se juntou ao JS Suresnes, de uma das comunas da Île-de-France. O clube amador costumava ser acompanhado por equipes maiores do país, que procuravam novos talentos. O meio-campista chamava atenção por sua inteligência, mas acabava reprovado pela falta de um porte físico avantajado, longe de se enquadrar no biótipo imaginado a volantes de contenção. Desta maneira, funcionários de PSG, Rennes, Lorient e Sochaux o ignoraram os seus predicados.

“Os olheiros claramente não viam o quão excepcional ele era. Ignoravam por ser um cara pequeno, que não dava espetáculo. Mas ele não jogava por si, jogava pelo time”, declarou Pierre Ville, dirigente do Suresnes, em entrevista à BBC. O volante permaneceu no clube da Île-de-France até os 19 anos, estourando a idade nas categorias de base. Encontrou um novo destino graças à ajuda do presidente da agremiação formadora, que tinha bons contatos no Boulogne e o levou ao nordeste do país. O jovem ainda passou mais algum tempo na base dos rubro-negros, até se profissionalizar e firmar-se como um volante fora de série.

Kanté é o clássico exemplo de jogadores que fogem do padrão que se imagina e acabam ignorados por olheiros. Por isso, para diminuir este “desperdício de talento” na Île-de-France, a Federação Francesa de Futebol administra Clairefontaine. O centro de formação é o ponto de partida de um projeto gerido pela entidade, que inclui outras 11 academias de elite espalhadas pelo país. Criada em 1988, Clairefontaine é a matriz deste planejamento e serve para captar prodígios ao redor da região metropolitana de Paris, submetendo-os a períodos de treinamentos qualificados a partir dos 13 anos. Assim, o QG permite que saiam das equipes menores da Île-de-France rumo a clubes profissionais. É o caminho que fizeram Thierry Henry, William Gallas, Nicolas Anelka, Louis Saha, entre outros – inclusive muitos descendentes de imigrantes que defendem seleções distintas, como Mehdi Benatia, Yacine Brahimi e Raphaël Guerreiro.

No elenco atual da França, há três produtos de Clairefontaine. Alphonse Areola passou pela academia enquanto conciliava seu trabalho no Paris Saint-Germain. Já os outros dois usaram a oportunidade como trampolim. Nascido em Toulouse, filho de pai angolano e mãe congolesa, Blaise Matuidi cresceu nos subúrbios de Paris. Defendeu o Fontenay-sous-Bois e o Vincennois, onde conheceu Brahimi. Já em 2000, aos 13 anos, começou sua etapa de aprimoramento em Clairefontaine. Durante três temporadas, treinava durante a semana na base da federação, enquanto jogava por seu clube amador nas competições locais no sábado e no domingo. Neste intervalo, ele rumou a uma equipe maior, o Créteil-Lusitanos, ligado à comunidade portuguesa nos subúrbios da Île-de-France – companheiro de Benatia por lá. O meio-campista permaneceu em Clairefontaine até 2003, quando recebeu propostas de outros clubes do país. Apesar da oferta do Lyon, optou pelo Troyes em 2004.

Já a pérola mais recente de Clairefontaine é Kylian Mbappé. O garoto cresceu rodeado pelo esporte. Seu pai, camaronês, era treinador no pequeno Bondy – equipe amadora local voltada principalmente à base. Já a mãe, argelina, foi jogadora profissional de handebol. Ambos criavam Jirès Kembo Ekoko. Nascido no então chamado Zaire, o congolês foi enviado pelos pais à França quando tinha seis anos de idade, em busca de melhores condições de vida. Morou com um tio e com a irmã mais velha durante certo período, até começar a ser criado por Wilfried Mbappé, que era seu treinador no Bondy. Dez anos mais velho, Ekoko virou um exemplo para Kylian, inclusive no futebol. Quando o filho biológico da família tinha três anos, o adotivo foi aceito por Clairefontaine e passou a treinar na base da seleção, antes de se profissionalizar pelo Rennes.

Wilfried Mbappé começou a preparar Kylian já no Bondy, integrado aos treinamentos desde os seis anos de idade. Naquele momento, outros técnicos perceberam o talento do menino, pela maneira como fazia coisas diferentes em relação às outras crianças da mesma idade. “Você pode dizer que Kylian nasceu no clube. Ele estava aqui ainda bebê, quando seu pai jogava e treinava. Ele sempre estava aprendendo sobre futebol. Tinha dois anos, mas andava com uma bola e sentava para ouvir as preleções. Kylian nasceu dentro do futebol e do esporte. Seu pai era um líder da juventude, trabalhando com as crianças da região, que ele trazia ao Bondy. Wilfried sempre será importante para nós, dedicou 25 anos de sua vida pelo clube. E a mãe também é uma grande influência, uma ótima profissional de handebol”, relata Atmane Airouche, presidente do Bondy, em entrevista à BBC.

Diante da qualidade que demonstrava, a escolha de Mbappé para Clairefontaine soava natural. Assim aconteceu em 2011, passando pelo processo de treinamentos na base da federação. Neste momento, passou a atrair o interesse até mesmo de clubes estrangeiros, como o Real Madrid e o Chelsea. Apesar do princípio de acordo com o Caen, se transferiria ao Monaco em 2013. Um ano mais tarde, começaria a ser convocado às seleções de base, caminho curto até estourar com os Bleus no nível principal. A educação esportiva que recebeu, maduro desde cedo e disciplinado, foram importantíssimas no desenvolvimento do prodígio. E foi recebendo a mais cuidadosa atenção em um desses clubes formadores parisienses que sua carreira se iniciou.

Às vésperas da final da Copa do Mundo, Mbappé pode ser visto não apenas como a esperança francesa, mas também como o filho querido dos subúrbios de Paris. É o modelo de jogador que soube aproveitar as oportunidades e tomou o papel de protagonista na seleção. Sua transferência ao Paris Saint-Germain, aliás, é emblemática. Apesar das cifras envolvidas, o jovem apontou a vontade de defender o clube de infância e ter sucesso por lá. Vê a chance de ser a nova face do PSG nestes novos tempos, também na reconstrução de seus laços com a capital, e de motivar novos prodígios a deslancharem na Île-de-France.


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