Racismo é um assunto muito sério. Aqui na Trivela, temos falado constantemente sobre os casos que assolam a Europa há anos, como recentemente o caso do zagueiro que sofreu ofensas racistas e ainda pode ser punido por reagir. Falamos bastante sobre o que tem acontecido aqui na América do Sul e no Brasil, com casos como o de Tinga na Bolívia e do goleiro Aranha no jogo contra o Grêmio. Racismo é uma realidade na sociedade e no mundo, e por isso precisamos lidar com ele, combatê-lo e discuti-lo, porque assim que avançamos. E é justamente nesse espírito que queremos dar luz a um trabalho espetacular do jornalista Caetano Manenti, que fez uma excelente reportagem sobre as origens do racismo no futebol do Rio Grande do Sul.Um racismo que não é gremista, nem colorada: é de ambas, e de outras também. Futebol a Cores, uma história de racismo no Rio Grande do Sul é uma reportagem do projeto Jornalismo em Pé escrita por Caetano Manenti que trata com profundida e cuidado um tema bastante delicado e enraizado profundamente na nossa sociedade.

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A reportagem é um primor de pesquisa e mostra diversos momentos importantes da história, como o momento que o Grêmio revoga a proibição de negros no time, em 1952, que é exatamente como começa a matéria. O presidente do Grêmio de então, Saturnino Vanzelotti, abriu o clube para negros naquele momento, mas a coisa não foi tão simples. Havia todo um histórico que precisou ser trabalhado depois da decisão do presidente para que isso funcionasse. A reportagem traz diversos recortes de jornal mostrando como foi, naquela época, o comunicado e a repercussão.

O próprio Caetano Manenti, em seu Facebook, colocou uma linha do tempo com um resumo do que trata a reportagem:

1900: A intenção de trazer o futebol da Europa para o Brasil — e para Porto Alegre — não era a de abrasileirar o futebol. Era, sim, de europeizar o Brasil das elites. O negro, assim, está completamente fora deste projeto.

1930: Por que ir tão longe para qualificar seu elenco? Se a competitividade da Liga das Canelas Pretas, aliada a notória destreza dos negros para o futebol, já forçava ótimos jogadores nos arrabaldes pobres de Porto Alegre, não seria melhor pagar (pouco) para esses craques e assistir a seu time campeão?

1952: O Maracanazo deve ter influenciado Vanzelotti, sábio político. Ele concluíra que trazer um negro que desapontasse em campo seria um prato cheio para as duras críticas das alas mais conservadores do Grêmio. Para acertar a cartada, precisava contratar um bom jogador, o melhor à disposição. E esse homem era Tesourinha.

1970: —O Inter desenvolveu um racismo tipicamente à brasileira, que é: conviver com os negros, desde que eles se mantenham na senzala. Você tinha negros no estádio, mas você não os encontrava na cadeira cativa, no conselho deliberativo, na diretoria. Mas, na Coreia, sim; lá na parte menos nobre do estádio, não havia problema.

1998: Enquanto isso, um novo jovem negro porto-alegrense — assim como foram os grandes Tesourinha, Adãozinho, Aírton, Ortunho, Everaldo, Escurinho, e Claudiomiro — espanta o estado e o Brasil, vestindo as cores do Grêmio. Ronaldinho, que ainda carrega consigo o gentílico Gaúcho, logo deixa a zona sul de Porto Alegre para se consagrar como o melhor jogador do mundo no novo milênio.

2014: Já era possível imaginar aonde tudo isso iria desaguar. Com a explosão do discurso antirracista em todo o mundo do futebol — com o apoio da FIFA e até mesmo da imprensa conservadora — haveria de chegar a hora que um jogador adversário do Grêmio iria enfrentar, na cara de todo mundo, tantos anos de racismo escancarado.

Como dissemos, a reportagem é longa, mas vale o clique. Guarde o link se não puder ler imediatamente e aprecie sem moderação. O texto é excelente, mas também é trabalho excelente de recuperação histórica de documentos.

LEIA: Futebol a Cores, uma história de racismo no Rio Grande do Sul, no Medium.

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