O São Paulo perdeu Calleri, Ganso e Alan Kardec em poucos dias. Foi desesperado às compras atrás de reposição, trouxe alguns jogadores, mas o técnico Edgardo Bauza ainda precisa de outro centroavante. Onde buscará?

LEIA MAIS: “Miller & Fried” é um delicioso passeio pela origem do futebol paulista

O Corinthians, enfim, vendeu Alexandre Pato, para o Villarreal, da Espanha. Manhã de Natal para boa parte da torcida, uma pequena dor de cabeça para o técnico Cristóvão Borges, que manifestava o interesse de utilizá-lo. Busca um atacante para disputar posição com André. Tem poucas opções à disposição.

O Grêmio recebeu R$ 25 milhões por Giuliano e abriu quase R$ 800 mil mensais na sua folha salarial com a saída do jogador para o Zenit, da Rússia, mas, nos próximos meses, terá que gastar esse dinheiro com comida chinesa e Netflix, porque o mercado está restrito demais.

A segunda janela para transferências internacionais fechou, em 19 de julho. Repete-se o período dos últimos anos, com exceção de 2014, quando o mercado dos outros países ficou inacessível apenas em 13 de agosto. Em 2011 e 2012, a janela brasileira seria cerrada apenas no fim de agosto, junto com a europeia, mas os clubes pediram que o prazo fosse antecipado. Problema de calendário. Queriam contar com seus reforços já nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro.

Isso até faz sentido, mas a adoção desse período junho-julho para a janela internacional cria outro problema, potencialmente maior: os clubes brasileiros ficarão 43 dias expostos às investidas da Europa, sem poder se defender. Podem ter seus principais jogadores à disposição na quarta-feira e se despedir deles antes do jogo de domingo, como sempre acontece. Sem poder trazer jogadores de fora e com a regra das seis partidas, serão obrigados a repor um craque com um jogador de Série B ou encostado; a outra opção é aceitar o golpe, torcer pelo melhor e deixar para investir a partir de janeiro.

Isso não é nenhuma novidade, mas o problema parece maior nesta temporada. O estrago começa com propostas irreais da China e é completado pela Europa, que já levou jogadores decisivos e importantes e tem interesse em outros. Além disso, os clubes brasileiros passaram a prestar mais atenção no mercado sul-americano e, embora ainda tenham um olhar superficial, trazem dele alguns dos seus principais reforços.

Já existe um grande desequilíbrio financeiro entre clubes europeus e brasileiros, e não há a necessidade de criar outro: o primeiro negocia com calma, o segundo, com pressa. Se algum time da Europa quiser desovar um jogador acessível aos brasileiros, por que vendê-lo barato no começo da janela de transferências? Pode esperar por uma proposta melhor até 31 de agosto e, apenas no dia do fechamento do mercado, abrir a liquidação.

Chega certo momento da temporada, motivados por um desempenho abaixo do esperado, por uma proposta surpresa ou por puro e simples mau planejamento, em que os clubes brasileiros vão às compras desesperados, e não há maneira pior de fazer negócio. A saída de Calleri era esperada pelo São Paulo, mas não a de Alan Kardec. Por sorte – leia-se: problemas físicos -, há dois atacantes de alto nível que ainda não fizeram sete partidas no Brasileiro. Mas tanto Lucas Barrios quanto Lucas Pratto, ambos apontados como alvos por Bauza em entrevista à imprensa argentina, já são jogadores caros e de difícil contratação, que custarão ainda mais dinheiro se a diretoria tricolor concluir que precisa de qualquer jeito de outra opção ofensiva, sob o risco de ter que depender dos gols de Gilberto para se classificar à próxima Libertadores.

O Corinthians pensa em gastar o dinheiro que acabou de receber por Alexandre Pato no centroavante Gustavo, do Criciúma, artilheiro da Série B. Até pode ser uma boa opção, mas, neste momento, é mais do que isso: é quase a única opção. O clube está de braços amarrados para fazer uma prospecção ampla por um atacante e se vê obrigado a arriscar. Se não der certo, daqui a seis meses estará novamente atrás de um fazedor de gols. E assim como Palmeiras e Atlético Mineiro no caso são-paulino, o Criciúma pode fazer jogo duro para aumentar o valor da transferência, diante da necessidade corintiana.

Há duas possíveis medidas que poderiam ser tomadas para minimizar o problema. Na impossibilidade de adequar o calendário brasileiro ao europeu, que não seria necessariamente uma boa ideia e levanta questões até mesmo culturais, pelo menos os períodos de contratações poderiam ser coordenados: um mês em janeiro e dois entre julho e agosto.

Faz sentido para os clubes europeus que haja mais tempo de janela no começo da temporada porque as principais competições têm seus pontapés iniciais mais ou menos ao mesmo tempo. Em janeiro, são feitos apenas alguns ajustes. Mas o calendário brasileiro tem muitas peculiaridades. Há a Libertadores para alguns, no primeiro semestre, mas o grande torneio nacional começa em maio. É plausível que tenham mais tempo para se preparar para ele. Em contato com a Trivela, a CBF afirmou que poderia adotar outro método, “se for o desejo dos clubes”. Mas, até o momento, segundo ela, “não houve algo nesse sentido”.

A outra é acabar com essa estranha regra dos seis jogos, que cria algumas situações bizarras. Sem Giuliano, o Grêmio ficou interessado em Gabriel, do Flamengo, que perdeu espaço com a chegada de Diego. Começou as tratativas, mas o jogador entrou em campo contra o América Mineiro e completou sua sétima partida. De repente, precisa olhar para outro alvo, e o atleta, para outro destino.

O jogador que está em negociação para sair de um clube brasileiro não necessariamente está encostado. Ainda pode ser útil, como José Ricardo julgou que Gabriel poderia ser ao Flamengo, enquanto são desenvolvidas as conversas sobre o seu futuro. Mas, se ele já tiver feito seis partidas, entra em um limbo, no qual poderia estar atuando por alguns minutos (ou muitos), mas não pode, para não estragar sua potencial transferência.

Por que não acabar com esta regra dos seis minutos e introduzir também uma janela de transferências para negócios nacionais? Todos já estão sujeitos a perder jogadores para o exterior de qualquer maneira, mas pelo menos terão mais espaço de manobra, sem precisar contar o número de partidas dos seus alvos prediletos e aguardar a escalação do adversário com a ansiedade de quem participa de um fantasy.

A reportagem questionou qual a opinião da CBF sobre uma janela de transferências nacional e ela respondeu que a regra dos seis jogos “é uma norma aprovada por todos os clubes e está no Regulamento Específico da Competição (REC) do Brasileirão”. Ou seja, não há nada nesse sentido. Até porque, a possibilidade de contratar jogador de clube brasileiro a qualquer hora, mesmo que não haja opções de qualidade disponíveis, serve de muleta para o dirigente que planejou mal ou que precisa de uma cortina de fumaça para acalmar a torcida durante uma fase ruim.

Enquanto isso, os clubes brasileiros estão vulneráveis. Podem fazer planejamento para já ter substitutos engatilhados para todos os jogadores mais assediados, mas este não é um cenário real, nem é possível sempre ter reservas à altura dos titulares.

O Santos faz uma grande campanha e pode ser campeão brasileiro, mas seu sonho seria seriamente prejudicado se Gabriel e Lucas Lima forem embora. Ele seria obrigado a gastar mais dinheiro por jogadores menos talentosos para tentar manter o bom momento a qualquer custo ou esperar até janeiro para investir com cuidado, quase abrindo mão de um objetivo que até outro dia era palpável. A mesma coisa com o Palmeiras e Gabriel Jesus, com Grêmio e Luan e com qualquer clube que tenha aspirações e jogadores importantes.