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O golaço após boa trama com Verratti e o pênalti convertido deram ao PSG a vitória por 2 a 0 sobre o Lille no último final de semana, pela Ligue 1, e a Neymar, uma marca impressionante. Com os dois tentos, chegou a 47 gols nas primeiras 50 partidas pela competição. O número iguala o recorde histórico de Gunnar Andersson, alcançado entre 1950 e 1952. Mas não é preciso recorrer a uma perspectiva histórica para se dar conta do desempenho espantoso do craque. Seus números impressionam também num período de apenas dois meses. Tempo esse em que Neymar abaixou a cabeça, pensou melhor suas palavras, refinou seu foco e abriu caminho para começar a contar uma nova história pessoal no Paris Saint-Germain.

Do fim de novembro de 2019 para cá, o brasileiro vive fase espetacular. Nos últimos dez jogos, teve participação direta em 19 gols, marcando 11 deles e dando assistências para os companheiros em outros oito. Números admiráveis contornados por performances superiores mesmo às suas melhores pelo Barcelona. Seu posicionamento em campo, como um articulador de jogadas que vai buscar a bola lá atrás para construir o jogo ofensivo parisiense, potencializou uma faceta que o camisa 10 foi aos poucos construindo ao longo de sua carreira na Europa – a melhor das facetas que vimos até agora.

O tipo de desempenho que Neymar tem mostrado nesta temporada é exatamente aquele que seria necessário para que o jogador desfizesse a ruptura que parecia irreparável no começo da temporada – e aquele do qual poucos são capazes em todo o mundo.

Mais do que isso, no entanto, era preciso que o brasileiro, talvez pela primeira vez em sua carreira, transparecesse ao mundo que sua maior prioridade era a bola. Neymar e sua entourage parecem que entenderam isso, e o próprio atleta tem simbolizado essa passagem em uma comemoração: abaixando a cabeça, silenciando os ruídos e buscando o equilíbrio.

Entre a Copa do Mundo de 2018 e o mercado de transferências em agosto de 2019, a imagem do brasileiro havia atingido o fundo do poço. Caricaturado como um jogador simulador e chorão em campo no Mundial, lesionou-se pela segunda temporada seguida no momento em que o PSG mais precisava dele, no mata-mata da Champions League, foi acusado (e depois inocentado) de ter estuprado uma moça em Paris, agrediu um torcedor rival na final da Copa da França e, por fim, caiu em desgraça com sua torcida ao querer deixar o clube. No dia da reapresentação do PSG na temporada, se ausentou, rompendo relação com Leonardo logo no início do trabalho do brasileiro como diretor de futebol do clube.

Em retrospecto, a sucessão de capítulos negativos e a impossibilidade de deixar o clube acabaram sendo catalisadores da transformação que temos visto. Não lhe restavam opções, afinal. Ao jornal L’Équipe, uma das pessoas próximas do jogador revelou que, ao perceber que não teria escolha senão permanecer na França, Neymar virou a chave: era jogador do PSG e iria em busca de algo grandioso na temporada.

Entre o desejo e a realidade, no entanto, havia uma montanha de obstáculos que o jogador apenas poderia superar com futebol. Porém, a resposta iria levar algum tempo, já que o atleta ainda se recuperava da lesão que o havia tirado da Copa América. Nesse meio tempo, na estreia da Ligue 1, os ultras do PSG levaram uma faixa com insultos ao jogador. Em setembro, em seu primeiro jogo na temporada, foi vaiado cada vez que tocava a bola. Este era o momento de manter a cabeça baixa. “Agora, sei que jogarei cada partida como se estivesse fora de casa. (…) Todos sabiam que eu queria partir. Eu tinha motivações pessoais, não era nada contra o PSG.”

Nos primeiros jogos, entre setembro e outubro, Neymar claramente não estava em seu melhor. Não tinha a mesma explosão ou brilho de costume, mas começava a dar os primeiros passos, anotando gols importantes em vitórias por 1 a 0, contra Strasbourg, Lyon e Bordeaux. Uma outra lesão, desta vez na coxa, freou a retomada, afastando-o dos campos por seis jogos. Depois de pouco mais de um mês como desfalque, retornou no fim de novembro e iniciou a série fantástica.

Paralelamente a isso, adotava cada vez mais um tom reconciliador em suas entrevistas. Capa da France Football de dezembro, disse ao semanário que já havia “falado bastante no passado” e que agora era jogador do PSG. Não tentou contornar sua vontade passada de ir para o Barcelona, mas disse que não quis machucar ninguém, na torcida ou no clube. “Por que sair daqui?”, complementou, dizendo ter dois anos de contrato.

O essencial, é claro, seria o que ele fizesse em campo, e Neymar acrescentou à sua nova postura gols, assistências e protagonismo exatamente no momento em que o PSG passava a parecer mais sólido na temporada.

Não só os números individuais melhoraram. Com sua aceleração recuperada, os dribles novamente apurados e uma visão de jogo cristalina, o brasileiro teve sua redenção marcada no 4 a 1 sobre o Amiens, no Parque dos Príncipes. Comemorando um dos gols do jogo com a torcida, foi aclamado por quase todo o estádio, incluindo uma parcela significativa dos ultras atrás de uma das metas. Um cenário quase que completamente oposto ao de agosto.

O torcedor do PSG teve todo motivo do mundo para se zangar com Neymar no começo da temporada, mas não é tolo e sabe que conquistar a sonhada Champions League a curto prazo passa pela participação de Neymar. Pelo nível que ele tem demonstrado, as chances do clube aumentam substancialmente do que seriam sem ele. E, depois de preparar todo o terreno com as atuações dos últimos meses, é este o grande desafio do brasileiro.

Uma fonte próxima ao jogador revelou ao L’Équipe que Neymar está mais focado no lado esportivo do que jamais esteve em Barcelona. Por mais que isso possa ser uma tentativa de seu entorno de controlar a narrativa na imprensa, o jogador tem corroborado isso com suas atitudes – a mais elogiada delas a de supostamente cancelar sua tradicional festança de aniversário.

A mudança de mentalidade recente, aliada ao desempenho irrepreensível, entregou a Neymar uma página em branco para escrever sua história no clube. O relacionamento conturbado nos primeiros dois anos é agora apenas um volume da coleção, e cabe ao jogador determinar qual será seu legado em Paris. O mesmo L’Équipe diz que Neymar estaria mesmo cogitando uma continuidade no PSG para além da atual temporada, dependendo do quão longe o clube conseguirá chegar na Champions League.

A cerca de três semanas do início dos confrontos de oitavas de final contra o Borussia Dortmund, Neymar vive o melhor momento possível para ter a chance de transformar os fracassos das campanhas continentais passadas em redenção. Apesar de ser apenas uma enquete boba, a simples pergunta da revista France Football nos últimos dias, sobre o brasileiro ser ou não o maior jogador da história da Ligue 1, reforça a mudança de ares. Com a disputa empatada em 50% para cada lado, o voto de minerva cabe a Neymar.