Futebol, acima daquele que se joga, é o que se sonha – e valeu, Gabriel Jesus, por nos lembrar

Uma foto que nos faz pensar longe, por aquilo que está tão perto da gente

Um dia bastou para a imagem se espalhar pelos quatro cantos do mundo. Sobretudo, pelos quatro cantos do Brasil, onde a realidade é tão vizinha – é a nossa. Gabriel Jesus postou em suas redes sociais uma fotografia de três anos atrás. Ele, de bermudão e chinelo, camisa de time de várzea no peito, em uma das ladeiras do seu Jardim Peri. Pintava a rua nas cores da bandeira, no embalo da Copa do Mundo. Uma Copa que a gente recebeu de peito cheio, e carregou ainda mais a tinta daquela tradição que se repete de quatro em quatro anos, das vielas das periferias aos condomínios. Não é Copa sem verde e amarelo, sem calçada canarinho, sem asfalto desejando aquela fé à Seleção. A Seleção que foi de Mané e de Pelé, de Romário e de Ronaldo. E no próximo ano tem tudo para ser também de Jesus, ao lado de outros 22 meninos.

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O futebol é tão rico por ser múltiplo. Por ser um jogo, que consegue extrapolar o mero jogo. Que é milhões, e que por isso alguns tentam limitá-lo a poucos. Mas que ainda é de milhões, e que por isso faz muito com tão pouco. Gabriel Jesus era um desses milhões. Hoje, ganha milhões, e nem assim deixou de ser um deles. E o seu pouco do passado vale muito mais do que todo o resto. O menino, que a gente poderia trombar na rua e se sujaria de tinta do nosso lado, estará na Rússia quatro anos depois. Não mais com a camisa da várzea, e sim envergando a amarelinha.

A bola rolando no gramado, no fim das contas, é um mero pretexto. Não menos importante por isso, lógico. Mas muitas das nossas relações pessoais são construídas a partir disso. Já parou para pensar? Quantos momentos felizes você passou com sua família ou com seus amigos? Como a paixão ajuda a tornar o cotidiano mais leve? Como o futebol te faz emergir dos próprios problemas e, por outra via, te mergulha num universo que agrega outros tantos conhecimentos, das áreas mais diversas? De como se aprende com o futebol, especialmente sobre a vida?

E a Copa do Mundo, pela erupção que se vive em poucas semanas, ajuda a potencializar tudo isso. Esqueça um pouco suas lembranças do campo, mas provavelmente algumas das melhores memórias da sua vida se concentram naquele período mágico de quatro em quatro anos. Desde as vésperas, quando estava com o balde de tinta ao lado dos seus vizinhos pintando a rua.

A fotografia de Gabriel Jesus serve de elo entre tudo isso. É a identificação imediata. A gente experimentando aquela alegria pueril e desinteressada, tão real quanto o cheiro da tinta. E que, de repente, se materializa do outro lado da tela, na pele daquele em que se depositam parte das esperanças em um novo ciclo quadrienal de euforias. O garoto nos lembra que o jogo que sucessivamente é esterilizado continua sendo intrinsecamente carnal. Que se sonha, da ladeira do subúrbio ao centro do gramado perfeito da arena ultramoderna. Continuamos todos os milhões lá, por mais que o concreto se transforme em cadeiras, que as câmeras tentem transmitir uma perfeição mecânica daquilo que em sua essência é errante. E, assim, humano. E, assim, tão capaz de criar histórias perfeitas em sua superação.

O nosso futebol, como torcedores, não é o futebol que se joga. É o futebol que se sonha. Muitas vezes, jogamos para poder sonhar. Torcemos para que o jogo nos permita sonhar. E o sonho se torna muito mais verossímil quando outro sonhador faz o papel de jogador. Quando sabemos que ele é mais um de nós por lá. Que, assim, em diferentes sentidos, os nossos sonhos podem se tornar reais. O momento em que o pretexto se transforma em assunto principal e, depois, fica guardado para sempre nas lembranças.

Vai sonhar, Gabriel. E leva a gente junto.