O ‘The Players’ Tribune’ é um site em que atletas do mundo inteiro, de todos os esportes, costumam abrir seus corações e transcrever seus sentimentos. Todos os textos são assinados por esportistas, mas nem todos são escritos por quem os rubrica. Mas isso não importa, e sim o conteúdo das mensagens que os atletas tentam passar por meio de seus tocantes artigos. Em abril do ano passado, Claudio Ranieri usou o espaço para falar o que vinha do fundo da alma sobre o enorme feito do Leicester na Premier League. Desta vez, quem deixou sua marca e suas palavras no site foi Christian Fuchs, lateral esquerdo dos Foxes. E para dissertar sobre o que foi o cerne de toda o julgamento e a polêmica envolvendo o atual campeão inglês antes e depois de Ranieri ter sido demitido do clube.

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“Vamos conversar sobre sacaneadores por um minuto. Eles são tão inteligentes, não são? Agora, eu sei que você deve estar pensando: ‘Christian, até você foi sacaneado? Mas você é apenas o lateral esquerdo do pequeno Leicester City – campeão da Inglaterra – com o sobrenome que soa engraçado. Por que eles não foram sacanear outra pessoa?’. Oh, sim. É verdade. Eu fui sacaneado. Mas me deixe contar uma história sobre essas pessoas”.

Foi assim que Fuchs abriu seu texto intitulado “Apenas não nos envergonhe”. Texto este que, por coincidência, veio logo em seguida à quebra do silêncio promovida pelo técnico que levou os Foxes ao título inédito. O jogador prossegue o artigo contando sobre um episódio relacionado à sua aposentadoria da seleção austríaca. Segundo ele, quando ele fez o anúncio que não mais jogaria pela seleção nacional através de um vídeo publicado em uma de suas redes sociais, um dos comentários negativos era de uma pessoa que havia observado o quadro que estava posicionado atrás do jogador, pintado por seu enteado, e feito um comentário maldoso sobre ele. De acordo com o sacaneador, aquela era uma obra de arte de um artista que cobra milhões por seus trabalhos, insinuando algo relacionado a dinheiro sobre Fuchs que não era verdade.

Essa situação específica usada pelo lateral no começo do texto foi para fazer um paralelo à ideia de como as pessoas têm ideias errôneas sobre uma realidade que elas desconhecem. Para pegar o gancho de falar sobre as críticas e os julgamentos que os jogadores do Leicester vêm recebendo nesta temporada. E, principalmente, sobre a pressão que eles vêm sentido desde o início da campanha pós-título. Por isso o nome do artigo. Como diz Fuchs no texto, “apenas não nos envergonhe” é o que a mídia inglesa diz para e sobre eles desde que 2016/17 começou.

E aí ele entra no assunto da sequência de péssimos resultados obtida nesta temporada. Resultados que, ele reforça, fizeram muitas pessoas – as quais, segundo o jogador deixa bem claro, não são os verdadeiros fãs do Leicester – massacrarem os atletas. Depois, ele entra justamente no assunto dos torcedores dos Foxes, que foram essenciais para eles se reerguerem. Outra questão que ele fala, a mais importante de todas, é sobre a relação dos jogadores com Ranieri. A verdadeira relação e o que falavam sobre isso, sobre o elenco ter derrubado o italiano e ter se mostrado ingrato. Por fim, ele fala sobre a volta dos resultados satisfatórios no campeonato nacional e a virada na Champions.

“A questão é que quando você não está obtendo resultados, você na verdade começa a trabalhar duro duas vezes mais. Quando você está ganhando, tudo é divertido. Você nunca fica cansado. Quando você está perdendo, tudo parece trabalhoso. Seu corpo fica mais dolorido. Você fica mais desgastado mentalmente. Tudo é composto, e você perde um pouco de confiança. Eu acordava de manhã com meu corpo inteiro doendo e ainda tinha que ler essas manchetes sobre nós estarmos sendo complacentes, e querendo boicotar o técnico. Isso me deixava maluco”.

A sensação de jogar a Champions

“Como um jogador, é incrivelmente difícil jogar a Champions em uma quarta à noite tendo toda a adrenalina correndo pelas suas veias enquanto você joga no maior estágio do futebol, e depois ter que voltar para casa e tentar dormir para se recuperar e continuar seu cotidiano de treinamentos para as partidas da Premier League. Depois de um jogo da Champions League, eu geralmente não consigo dormir até que dê quatro da manhã. É impossível. Especialmente quando você vence. Nós ainda somos um time relativamente pequeno. A maioria das equipes nos jogos da Champions League estavam jogando no fim de semana anterior à partida da competição”.

Sobre os jogadores e Ranieri

“Preciso retomar o episódio do sacaneador na minha rede social. Após 14 jogos, a narrativa era que o Leicester City estava uma bagunça e que os jogadores tinham desistido de tentar, mesmo que estivéssemos indo bem na Europa. As expectativas podem mudar tudo. Quando perdemos em Sevilha no primeiro jogo das oitavas de final da Champions e Claudio foi demitido, parecia que o mundo inteiro havia se virado contra nós por um minuto”.

Não conseguia acreditar nas coisas que eu lia sobre nós. Completas mentiras. Nós líamos que os jogadores que tinham feito Ranieri ser sacado. Eu comecei a receber como resposta aqueles doces emojis de cobrinha toda vez que postava algo no Twitter. Parei de contar na 200.000 vez ou mais. Na realidade, Claudio e eu tínhamos um ótimo relacionamento. Logo que eu ouvi que ele tinha sido demitido, eu mandei uma mensagem para ele o agradecendo pela temporada de nossas vidas e o desejando tudo de bom”.

Como os torcedores ajudaram o time

“Tudo mudou durante o jogo contra o Liverpool no King Power Stadium. Antes de entrar em campo, eu estava muito nervoso em relação à recepção que teríamos. Estávamos lendo tantas coisas ruins que era impossível saber como os torcedores reagiriam. Então nós entramos, e o estádio inteiro estava atrás de nós. Foi quando eu percebi que nenhum dos comentários e desejos negativos que vinhamos recebendo vinham dos verdadeiros fãs do Leicester. Vinham dos sacaneadores. Os torcedores estavam conosco durante todo o caminho. E nesse jogo eu me arrepiei duas vezes. Eu me arrepiei nessa partida sendo que já joguei contra o Real Madrid na Champions, ganhei uma Premier League e fui rebaixado”.

Eu sou como um paraquedista que já pulou de um avião 1000 vezes. É difícil eu me arrepiar em campo. A primeira vez que aconteceu no jogo contra o Liverpool foi no primeiro tempo, quando eu fiz um desarme perto da torcida. Não sei o que aconteceu comigo. Nem foi nada demais a jogada. Mas eu me virei para os torcedores e, meu deus. Eu só deixei escapar um rugido. E eles rugiram de volta. Eles foram à loucura”.

“Depois de ler tanta negatividade e mentiras por tantas semanas, eu só queria que eles soubessem o quanto nos importávamos. Então um dos momentos que eu nunca vou esquecer da minha carreira é ter ganhado uma disputa por bola. O outro momento foi no minuto 65, quando a torcida inteira acendeu as lanternas de seus celulares e começou a cantar ‘Ranieriiiiiiii Whooooaaa-oooo-oooaaaa’, em homenagem a Claudio”.

A virada na Europa e a volta por cima

“Nossa temporada mudou naquele momento [contra o Liverpool]. Apesar de tudo o que aconteceu, a atmosfera no King Power nunca foi negativa. Então, quando jogamos o segundo jogo contra o Sevilla duas semanas depois, eu acreditei completamente que íamos ganhar. Todos acreditávamos nisso. Craig Shakespeare, o novo técnico, esteve conosco o caminho todo. Ele viu como ganhamos o título na temporada passada, e ele tinha uma mensagem simples. Ele nos disse para ir para cima e jogar o nosso jogo – que é agressivo,urgente e rápido – e não se preocupar com o que o Sevilla estava fazendo”.

Então nós simplesmente fomos para cima. Todo mundo pergunta: ‘como vocês fizeram isso? O que mudou? Quais eram as táticas?’. A resposta é simples: nada mudou. Nós apenas jogamos sem medo, e o jogo seguiu nosso estilo. Não poderia ter sido mais perfeito, porque o nosso primeiro gol foi como tudo o que tínhamos perdido na primeira metade da temporada. ‘Só não nos envergonhe’. E agora somos a única equipe inglesa que restou nas quartas de final da Champions League [emoji de cobrinha]”.

Fuchs encerra seu texto deixando em pé a possibilidade do Leicester ir ainda mais longe na Champions League. “Por que não?”, ele questiona. “Nada está fora de alcance agora. Podemos ganhar tudo?”. Por último, o jogador recorda quando bateu o Real Madrid na Champions enquanto jogador do Schalke 04. Ele também relembra outros momentos de sua carreira quando ainda não defendia o Leicester. Tudo isso para salientar que ele e o time são aquilo que são. Que os Foxes não mudaram sua essência da temporada passada para cá. E para finalizar lembrando que dia 3 de junho acontecerá a grande decisão da Champions. E por que não mesmo?