O esperado duelo entre Lyon e Olympique de Marseille caiu como uma dádiva para o Paris Saint-Germain. O encontro serviria para definir qual dos dois sairia fortalecido como perseguidor do clube da capital, mas ambos morreram abraçados na praia. O 0 a 0 decepcionou quem esperava uma partida acirrada entre dois pretendentes ao título, que agora entregaram a taça de mão beijada para o PSG, vencedor do jogo contra o Nancy por 2 a 1 e agora quatro pontos à frente do OL.

Os oito últimos encontros entre lioneses e marselheses deixavam no ar a possibilidade de muitos gols e um espetáculo emocionante. Os números mostravam uma media de 4,4 gols de média nesta série, com direito a um surreal 5 a 5 em 2009. O duelo do primeiro turno também entrou para a história com a goleada de 4 a 1 imposta pelo OL em pleno Vélodrome. O encontro em Gerland despertava ansiedade e esperança, mas acabou marcado pela frustração.

O Lyon estava na condição de favorito à vitória e continuar como principal adversário do PSG na briga pela taça. O OL, porém, pouco fez para se impor. No primeiro tempo, os donos da casa preferiram adotar uma postura mais defensiva, esperando o OM atacar para dar o bote – algo que ficou apenas no plano das ideias, já que os marselheses souberam ocupar muito bem o meio-campo. Na etapa final, os anfitriões enfim partiram para cima, mas suas tentativas foram estéreis.

O OM conseguiu encurralar o OL nos primeiros 30 minutos de jogo. Joey Barton teve importância fundamental para esta pressão. Atento no combate, ajudou demais Romao, seu companheiro de setor. Seus desarmes facilitaram muito a criação de seguidas jogadas perigosas. O esquema montado por Elie Baup também deu certo por conta da evolução apresentada por Samuel Umtiti, cada vez mais uma opção confiável na armação de jogadas na lateral esquerda.

Do lado do Lyon, Rémi Garde optou por um meio-campo de maior força física em detrimento da qualidade no passe. Para isso, o treinador deixou Grenier no banco de reservas e escalou Fofana no onze titular. Com um meio-campo com deficiência na criação, o OL sofreu com o domínio territorial exercido pelo OM. Os donos da casa só saíram das cordas no segundo tempo, exatamente após a entrada de Grenier. Os lioneses adiantaram sua marcação e, desta forma, conquistaram terreno e fôlego para avançar.

Mesmo com a recuperação, o Lyon esbarrou em outro problema: a péssima jornada de Lisandro López. Quando mais precisava de seu finalizador, o OL sentiu que havia apenas uma sombra do argentino no gramado. O atacante estava com a cabeça em outro lugar bem longe de Gerland. Ghezzal, seu substituto, também falhou na tentativa de comandar as ações ofensivas do time. O 0 a 0 foi justo, apesar da grande frustração.

O PSG reforçou sua caminhada rumo ao título e teve Zlatan Ibrahimovic de novo como seu maior artífice. Os dois gols marcados nos 2 a 1 sobre o Nancy deixam o sueco com a incrível marca de 24 gols em 24 partidas na Ligue 1 e o deixam em posição confortável para pensar em superar a barreira dos 30 tentos em uma temporada. O último a conseguir tal façanha foi Jean-Pierre Papin, no longínquo período 1989-90. Se quiser sonhar mais alto, Ibra pode ainda tentar o recorde de artilharia do clube (pertencente a Carlos Bianchi e seus 37 gols em 1977/78), ou o recorde de 44 gols de Josip Skoblar em 1970/71, quando defendeu o Olympique de Marseille.

Por mais incrível que possa parecer, Ibrahimovic convive com boatos sobre sua saída do PSG mesmo com todo o sucesso no clube. Em entrevista ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport, o sueco achou estranha a cobrança excessiva por parte da torcida parisiense, “que não tinha nada antes” de sua chegada ao clube – segundo palavras do próprio sueco. As vaias (poucas, é verdade), incomodam-no de um jeito tal que ele reforça suas saudades da Itália e da paixão quase maluca dos torcedores de lá.

Oito meses após sua chegada ao PSG, Ibra ainda nem começou as aulas de francês. Pouco importa se isso o impede de ter um relacionamento mais próximo com seus colegas ou com a torcida. Em campo, ele tem correspondido com um caminhão de gols, apesar de seus momentos de parafuso solto na Liga dos Campeões. O futebol francês tem o péssimo costume de maltratar seus ídolos por muito pouco – em especial a torcida parisiense. Que o sueco não seja o próximo a aumentar esta triste lista de escorraçados.

Classificado, mas com risco

Após 18 anos, o Paris Saint-Germain volta à disputa das quartas de final da Liga dos Campeões. Trata-se de uma marca importante nesta nova era do clube, mas conquistada com menos pompa do que poderia. O empate por 1 a 1 com o Valencia no Parc des Princes foi mais uma vez uma exibição sem brilho dos parisienses, com uma feição completamente diferente daquela exibida no jogo de ida no Mestalla.

Claro que a vantagem construída na primeira partida com a vitória por 2 a 1 deixaria o PSG mais relaxado na busca pela classificação. No entanto, o que se viu foi um time bastante tímido, sobretudo em seus avanços ao ataque. Para piorar, o Valencia se sentiu à vontade em campo. Mesmo sem ser tão incisivo, o time espanhol teve maior posse de bola (59%) e 13 escanteios a favor. De certa forma, foi uma pressão à qual o PSG não deveria sofrer nem correr grandes riscos.

Não dá para colocar as ausências de Zlatan Ibrahimovic e Jérémy Ménez como justificativas para a eficiência reduzida do PSG. Carlo Ancelotti preferiu escalar uma formação mais cautelosa diante dos Ches. A esperada presença de Kevin Gameiro no comando do ataque titular foi frustrada. O técnico achou melhor reforçar a marcação no meio-campo com Chantôme pelo lado direito. A aposta na frente ficou por conta da dupla formada por Lucas e Lavezzi.

Contudo, o brasileiro teve atuação discreta, ao contrário de seu desempenho destacado no Mestalla. Não só Lucas, mas todo o time da casa esteve apagado. A situação esteve perto de se tornar crítica com o gol marcado por Jonas no começo do segundo tempo. Com o time se arrastando, Ancelotti fez aquilo que deveria desde o pontapé inicial: dar uma oportunidade para Gameiro.

O atacante correspondeu às expectativas e mudou completamente a cara do PSG. Gameiro criou espaços no ataque, movimentou-se muito bem e atraiu a marcação de seus adversários, permitindo maior liberdade de ação a Lavezzi. O gol de empate marcado pelo argentino fez o Parc des Princes soltar um suspiro de alívio, mas ainda ficar com o pé atrás quanto ao futuro do time na LC.

A volta da dupla de zaga formada por Alex e Thiago Silva transmitiu segurança, ainda mais com a proteção oferecida por Blaise Matuidi no meio-campo. Tudo seria perfeito se a única bobeada do setor defensivo não estivesse na origem do gol do Valencia, cujo ataque esteve longe de ser dos mais perigosos. Contra um Bayern de Munique ou um Real Madrid, velozes em suas ações, torna-se inadmissível qualquer tipo de vacilo como a indecisão de Chantôme e Matuidi diante de Jonas.

Por sua vez, Lucas parece sentir a pressão para fazer seu primeiro gol com a camisa do clube da capital. O ex-são-paulino sente nos ombros o peso cada vez maior desta expectativa e já não bastam as boas arrancadas e assistências. O tom mais elevado das cobranças já se reflete nas atuações do jovem, com dribles e escolhas equivocados na hora da definição. Contra o Valencia, Lucas cresceu quando foi realocado pelo lado direito do campo após a entrada de Gameiro – até mesmo com participação ativa na defesa. Se deixar se levar pelos comentários, Lucas terá cada vez mais dificuldades para repetir seus bons jogos iniciais pelo PSG.