A Copa do Mundo Feminina acabou neste domingo com o título dos Estados Unidos na final contra a Holanda e uma exposição como nunca houve em edições anteriores. O Brasil caiu nas oitavas de final diante da anfitriã, França, encerrando uma participação que deu a sensação de poder ir mais longe. Um dos mais criticados pela forma do Brasil jogar é o técnico Vadão, que chegou à Copa com nove derrotas seguidas e, durante o torneio, apresentou problemas no seu jogo. As ex-jogadoras Francielle e Rosana, recém aposentadas do futebol, comentaram sobre o futebol feminino, a Seleção, a questão Emily Lima e a falta de reconhecimento. As duas se aposentaram da seleção depois da demissão da treinadora.

Francielle tem 29 anos e se aposentou recentemente. A meia decidiu encerrar a carreira e se preparar para trabalhar no futebol fora de campo, depois de jogar em oito clubes e defender a seleção brasileira por 11 anos. Ganhou a Libertadores pelo Santos, em 2009, e pelo São José, em 2013. Na Seleção, jogou a Copa do Mundo de 2011, jogou a Olimpíada de 2008, quando o time terminou com a prata, e também a Olimpíada de 2012, marcando um gol. Em outubro de 2017, ela foi uma das cinco jogadoras que decidiu se aposentar de vestir a camisa do Brasil depois da demissão da técnica Emily Lima.

Rosana, com 37 anos, teve uma carreira gloriosa. Jogou por 17 anos na seleção brasileira e jogou por 13 times em quatro países do exterior: Áustria, Estados Unidos, França e Noruega. Jogou quatro Copas do Mundo e quatro olimpíadas, sendo parte do time que ganhou a prata em 2004 e 2008. Jogou as Copas de 2003, 2007, 2011 e 2015. Conquistou diversos títulos, inclusive a Libertadores, além de ligas nacionais. Foi uma jogadora que marcou a história da seleção brasileira.

Carreiras

“Ter disputado quatro Copas do Mundo, quatro Olimpíadas, ter ganhado medalhas expressivas, Champions League, Libertadores, Mundial, o único que teve”, disse Rosana à Betway, em entrevista em Londres. “Eu me preparei na verdade para parar. Eu vinha estudando, fazendo cursos”, continuou. “Eu realmente já estava muito desgastada de estar ali dentro de campo, talvez de não brigar muito mais pelo futebol feminino como agora, que eu estou de fora”.

“Não me arrependo de nada. Vivi tudo que eu tinha para viver”, contou Francielle. “Falei que ia chegar aos 30 anos, parei nos 29”, conta Francielle sobre ter decidido se aposentar. “Foi uma questão mais psicológica mesmo”, diz a ex-meia. “Essa pressão psicológica que eu falo, no futebol feminino você sempre tem que procurar mais, sempre mais, ter que melhorar mais, e nem sempre o resultado é o que a gente espera”.

Igualdade de gênero

“Eu acho que estamos no caminho certo, mas acho que não vai acontecer”, afirmou Francielle. “Não que a gente queira receber o que os caras recebem, mas pelo menos ter 1% do que eles têm. Coisas simples. Vamos viajar? Vamos ficar viajando 20 horas, 30 horas, vamos viajar mais confortáveis, vamos viajar de primeira classe. Isso não é nada para eles”.

“Eu nem falo igualdade, eu falo equidade”, declarou Rosana. “Nós fazemos as mesmas coisas, nós treinamos como eles, óbvio que o apelo da mídia é muito maior e porque o mundo ainda é muito machista, isso vem melhorando, vem se transformando”.

CBF

“Uma instituição que vem mudando ao longo dos anos. Vem ajudando um pouco mais o futebol feminino, mas ainda peca em alguns momentos”, disse Rosana. “Eu espero mais sempre da CBF, o futebol feminino, em todos os aspectos”, afirmou Francielle quando perguntada, depois de dar uma boa risada.

Vadão

Quando a pergunta foi sobre o técnico Vadão, Francielle não mediu palavras. Ela riu da pergunta. “É muito complicado”, respondeu, rindo. “Eu não tenho nada contra o Vadão, nada, nada, nada”.

“As ideias do Vadão são ultrapassadas daquilo que a gente precisa. É a comissão técnica que mais teve tempo pra fazer o trabalho, e que menos fez”, disse Francielle ao ser perguntada sobre o treinador, que ficou no comando da Seleção de 2014 a 2016 e, depois, assumiu em 2017 e segue no comando do time.

Emily Lima

“Sim, eu estava vendo uma evolução. Era cedo para falar, era cedo, mas estava sendo feito um trabalho e ele foi interrompido”, disse Francielle. “A maior culpa das jogadoras é não se manifestar. É não se unir e se posicionar de forma inteligente”, afirmou Rosana.

A ex-jogadora comentou também sobre o protesto das jogadoras após a demissão de Emily Lima. “24 jogadoras da seleção assinaram a carta, mas a união não adianta, tem que ser todas. Se uma estiver fora, já não vale”, disse Rosana. “Eu fiquei até feliz, porque foi um dos únicos momentos que muitas meninas apoiaram aquela decisão e brigaram por alguma coisa. Só acho que deveríamos ter brigado um pouco mais. Não só por conta da demissão da Emily ou a entrada do Vadão, mas pelas exigências que estavam sendo feitas”.

Rosana, jogadora da seleção brasileira, em 2012 (Getty Images)

Copa na TV

Um dos pontos tratados na entrevista foi a maior exposição do futebol feminino, com a transmissão de mais jogos da Copa do Mundo Feminina. O SporTV transmitiu todos os jogos, na TV ou na internet, a Globo passou os jogos do Brasil e a final, assim como a Band transmitiu alguns jogos.

“Fico feliz de ver hoje uma Copa do Mundo, TV aberta transmitindo os jogos, jogadoras com patrocínios”, disse Francielle. “Desta vez eu estou um pouco mais esperançosa porque há um movimento diferente dos outros anos”, respondeu Rosana. “As pessoas começaram a captar recursos com o futebol feminino”, continuou.

“É uma progressão que não volta mais. Eu acho que o futebol feminino vai explodir e eu espero realmente que as próprias emissoras, a imprensa, continuem mobilizando o futebol feminino. As empresas grandes fazendo os comerciais, as propagandas com as meninas”, continuou Rosana.

Falta de reconhecimento

Rosana falou sobre a falta de reconhecimento depois de pendurar as chuteiras, aos 36 anos, em uma carreira de muitas glórias conquistadas.

“Pouquíssimo [reconhecimento]. Agora deixando um pouco a humildade de lado, pela representatividade que eu tenho, pelo que eu fiz pelo nosso país, não só dentro como fora de campo. Como eu falei, fui uma lutadora, combati muitas coisas, eu acho que eu merecia algo muito maior. Ter uma exposição muito maior, até para eu poder ajudar muito mais, não só o futebol feminino, mas outras pessoas com história de superação pessoal”.