A atuação de Iniesta contra o Sevilla, na final da Copa do Rei, teve ares de despedida. Com o Barcelona fora da Champions e com o título espanhol praticamente garantido, foi provavelmente a última apresentação de um jogador gigantesco, indubitavelmente um dos melhores da última década. Pela concorrência, sua qualidade nunca foi reconhecida pelos prêmios individuais do futebol mundial, fato que, para ser sincero, não deve tirar um segundo de sono de um jogador com tanto espírito coletivo como este. 

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De qualquer maneira, a France Football, promotora da Bola de Ouro, aproveitou a ocasião para se desculpar. Nem quando Iniesta marcou o gol do título mundial da Espanha, em 2010, o prêmio foi lhe foi concedido. Naquela ocasião, ele foi segundo colocado. Dois anos depois, foi terceiro. Foram as únicas vezes que ele apareceu entre os finalistas, durante a época em que o prêmio era concedido em parceria com a Fifa.

Em um editorial, que o autor Pascal Ferré, redator chefe da revista, alerta não ser exatamente um editorial, mas um ato de lealdade, a France Football pede desculpas a Iniesta por tê-lo negligenciado durante tanto tempo. Faz uma ode a um jogador inteligente, altruísta, generoso, um dos poucos que simplifica o jogo em vez de complicá-lo. E espera que a sua participação na Copa do Mundo da Rússia seja boa o suficiente para “reparar essa anomalia democrática”. 

Desculpe, Iniesta*

O que se segue não é (exatamente) um editorial. Nós deixamos isso claro logo de início para evitar qualquer mal entendido. É um ato de lealdade. Definitivamente assumido. Sábado passado, por ocasião da Copa do Rei, Iniesta sem dúvidas disputou a última final com seu time de sempre, antes de oficializar sua partida para a China. Nos resta então, no máximo uma dúzia de partidas oficiais nessa temporada, Copa do Mundo inclusa, para apreciar a graça do maior facilitador de todos os tempos. Não é um jogador, é O jogador, uma exceção ecumênica que força o respeito, mesmo de seus “rivais” dos jornais AS e Marca, que lhe foram prestar homenagem nesse fim de semana. É muito pouco, esse pacote grosseiro de um milhão de minutos, para nos consolar da perda desse absurdo cuja elegância só iguala sua generosidade. Quando a maior parte de seus contemporâneos passa o tempo complicando a vida e a vista, ele passou quinze anos se divertindo ao simplificar. Sem qualquer pensamento vaidoso escondido, é assim, como hedonista desgarrado, que ele faz viver o jogo. Sem ele, Messi com certeza se cansaria mais rápido do Barça. Com ele, o Barça extenuou todos os adversários possíveis. Intuitivo, hábil e iconoclasta, com seu gabarito de jogador vintage entre os bárbaros do entre-jogo, Iniesta provou que o cérebro é certamente o músculo essencial dos campeões sem igual. Seu talento é o de inventar os outros. Um altruísmo inescapável que certamente o privou de um reconhecimento ainda mais majestoso. Como o Ballon d’Or que lhe escapou em 2010 (segundo), mais do que em 2012 (terceiro), pela culpa de uma concorrência in utero (com Xavi) fatal. Não importa. Entre as grandes ausências dos laureados da Bola de Ouro, a sua nos é dolorosa. A menos que uma oportuna campanha russa lhe permita reparar essa anomalia democrática.

*Tradução de Isadora Sinay