França

Sobre futebol, vida, cultura e até a famosa voadora: A excelente entrevista de Cantona

Eric Cantona está fora dos padrões no futebol. E não apenas pelo talento que tinha como jogador, muito acima da média. Também pela maneira de pensar, o francês se coloca como um ponto fora da curva. Alguém que costuma questionar o mundo a sua volta e não tem muitos problemas para se posicionar de maneira contrária. Em suma, autêntico. Nesta semana, a Four Four Two resgatou em seu site uma entrevista publicada em 2008, feita a partir de perguntas enviadas por leitores. Segue atual, especialmente em relação às visões gerais do ex-atacante. Abaixo, destacamos alguns pontos principais. É possível ler na íntegra (em inglês) através deste link.

Infância

“Eu era uma criança feliz. Nós tínhamos uma família unida, que dava a melhor educação que eu poderia ter. Éramos da classe trabalhadora e estávamos satisfeitos com as pequenas coisas da vida. Éramos polidos, sempre dizíamos por favor e obrigado. Éramos respeitosos com os outros e aproveitávamos a vida. Cantávamos, sorríamos e amávamos. Éramos imigrantes, pessoas do mediterrâneo. Meu pai veio da Itália, minha mãe de Barcelona. Eu era uma criança quando conheci meu avô. Tinha 10 anos e gostava muito dele. Veio para a França depois da Guerra Civil Espanhola. Ele não tinha permissão para voltar durante 15 anos do regime de Franco. Quando me aposentei, fui viver em Barcelona por três anos, para reviver estas memórias de infância. Ler e viver. Eu gostei de Barcelona. Agora, estou em Marselha, uma cidade do futebol onde o Olympique é como uma religião. É uma cidade cosmopolita, apaixonada e as pessoas vivem pelo futebol”.

As motivações como jogador

“Qual a diferença entre sucesso e glória? Eu penso que me aposentei tão cedo porque queria melhorar a cada momento, ser um jogador melhor. Por mim e para o time. Para ganhar títulos. Ter a sensação de melhorar. Quando pendurei as chuteiras, sentia que não podia melhorar mais. E perdi a paixão ao mesmo tempo. A paixão vem com a motivação de crescer. Se você perde a paixão, você perde a motivação. Dinheiro? Não. Se alguém te oferecesse para jogar a final da Copa da Inglaterra você jogaria, não? Então isso foi um sonho pra mim, porque não precisava pagar. Nós éramos pagos, mas eu poderia ter jogado por nada. Há muito dinheiro envolvido no futebol e os jogadores ficam mexidos com isso, é normal. Mas não é o dinheiro que motiva, e sim o sonho. A atmosfera é especial para os jogadores, porque nós podemos sentir que os torcedores fazem sacrifícios para estar no estádio. Nós podemos sentir que o futebol está no sangue dos torcedores”.

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A eliminação rumo à Copa de 94

“É uma péssima memória porque nós não tínhamos perdidos até os últimos três jogos. Primeiro,  fomos à Suécia e, se ganhássemos, estávamos classificados, mas empatamos depois de abrirmos 1 a 0 no placar. Então, tínhamos mais duas partidas. Batemos Israel, mas perdemos em casa para a Bulgária. Avançaríamos com um empate. Vencíamos por 1 a 0 e eu marquei um gol. Eles anotaram o gol da vitória nos últimos segundos. Suécia e Bulgária chegaram às semifinais da Copa. A França poderia ter ido tão bem quanto eles. Nós tínhamos o melhor time, mas não lidamos bem com a situação, apesar da experiência de nossos jogadores. Mas você aprende com isso para melhorar, no futebol e na vida”.

A saída do Leeds

“Eu tinha uma relação ruim com o técnico, não tínhamos visões parecidas. Sou mais como um jogador de Manchester. Em Leeds, o futebol era jogado da maneira antiga, kick and rush. Mas era muito importante jogar lá primeiro, porque aprendi muito. E tivemos sucesso. Mas não sentia um bom ambiente, não queria ficar lá. Eu preciso me sentir bem. Talvez seja porque eu tivesse problemas antes. Talvez porque a atmosfera do clube não fosse como eu sonhava. Eu precisava de tempo ou desistiria ou tentaria encontrar palavras para explicar o que queria. É como uma mulher. Às vezes você não pode encontrar o amor. Algumas você pode, mas segue sem ser certo. É bom estar apaixonado, mas você quer mais, você deseja dar e receber. Algumas vezes não acontece. Não estou certo se eu gostaria de estar com uma mulher como alguns dos presidentes que conheci. Eles não merecem ser amados”.

A cultura de Manchester

“Eu gostava de Oasis. E, dos outros, Stone Roses. Gostava de The Smiths até chegar à cidade. Gostava de Morrissey pelas coisas que ele fazia e pela maneira como fazia. Sinto falta de Manchester, muita. O United é tão forte que você pode sentir isso na cidade. Há muita energia no futebol de Manchester, na música, na cultura. Talvez seja pela chuva. Só vivi lá enquanto era jogador. Voltei recentemente por um mês. Algumas cidades têm coisas bonitas para ver e visitar. Em Manchester, eles têm energia. Eu podia sentir algo, a energia da história da cidade. As pessoas tentam encontrar coisas em Manchester, para criar”.

Cantona

A famosa voadora

“Eu não acertei meu pé no local onde vocês falam. Por isso eu tentei socá-lo de novo. Mas não acertei um soco tão forte. Eu deveria tê-lo acertado mais forte. Eu nunca vi aquela voadora, porque sabia de tudo. Todos os jornalistas estavam em volta da minha casa. Era tudo o que eu podia ver. Minha casa era pequena. Eles bloquearam a luz, mas eu atuei naquele momento. Era um drama e eu era um ator. Eu fiz coisas de maneira séria sem me levar a sério. Acho que a Nike percebeu este lado do meu caráter e usou isso muito bem. Mesmo quando eu chutei o torcedor, era porque não me levei a sério. Eu não acho que eu tinha responsabilidade por ser quem eu sou. Não, era apenas um jogador e um homem. Não me importo em ser algum tipo de pessoa superior. Eu apenas quis fazer qualquer coisa que quisesse. Se eu quiser chutar o torcedor, eu faço isso. Não sou o modelo ideal, um professor falando como se comportar. Eu penso que quanto mais você vê, mais você percebe que a vida é um circo”.

A carreira de ator

“Para mim, futebol e atuação são muito parecidos, porque são coisas apaixonantes. Você tem sentimentos parecidos em campo e no set de filmagens. Mas eles são mais fortes em campo. Quando eu perdi isso, parei de jogar. Como ator, eu trabalho duro para tentar e melhorar. Eu não gosto quando um técnico fala como você precisa jogar. Gosto de melhorar sozinho. Muitas vezes existem jogadores que só tem o futebol como maneira de se expressar e nunca desenvolvem outros interesses. E, quando não jogam mais, nunca mais fazem nada. Eles não existem mais, ou ao menos tem a sensação de não existir mais”.

Sobre seu temperamento

“Há uma linha tênue entre a liberdade e o caos. Até certo ponto sou um anarquista e tento fazer um tipo de anarquia. Mas esta é uma anarquia de pensamento, pode-se dizer, a libertação da mente quanto às formas tradicionais de ser e de fazer”.

O futebol como arte

“Futebol é arte e Best foi um artista. Toda arte é sobre tentar explicar a si mesmo. Todo mundo pode fazer isso, o homem por trás do balcão do bar, o homem varrendo as ruas. Até aqueles que estão assistindo a você para decidir se é bem sucedido na sua arte. Isso tudo é arte. Você é um artista se você se explicar com beleza, com particularidade. É sobre dar algo para as pessoas pensarem, não providenciar respostas. Gosto dos artistas que me fazem pensar. Eu não quero que me digam o que pensar. Eu gosto de ter minha própria interpretação. Se você tentar definir as coisas para mim, então a conversa acabou”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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