O nome de Patrick Vieira carrega um grande peso. Um dos expoentes dos Invincibles do Arsenal e símbolo da seleção francesa, o ex-jogador começou sua carreira como treinador já sob inúmeros holofotes graças ao que havia construído como atleta. Ao longo de aproximadamente dois anos e meio no Nice, seu primeiro grande trabalho, Vieira não conseguiu entregar aquilo que havia sido contratado para fazer: implementar um futebol vistoso e de resultados. A demissão, anunciada nesta sexta-feira (4), era um fim já antecipado.

Vieira encerrou sua carreira de jogador em 2011, atuando pelo Manchester City. Permaneceu dentro do clube para trabalhar nas categorias de base e, em 2013, assumiu o comando da equipe de reservas. O próximo passo seria se aventurar como treinador de um time principal, e o francês fez a mudança dentro do próprio City Football Group, mudando-se para os Estados Unidos para assumir o New York City FC a partir de 2016.

Depois de duas campanhas bem-sucedidas na franquia ainda nova, levando o time de um 17º lugar em 2015 para a quarta e a segunda colocações em 2016 e 2017, Vieira foi notado em seu país-natal. Em junho de 2018, acertou seu retorno para a Côte d’Azur, onde havia começado sua carreira como atleta no Cannes. Desta vez, seu desafio era dar sequência aos bons trabalhos técnicos do Nice.

Os Aiglons vinham de dois bons trabalhos, com crescimento progressivo, e o francês precisaria dar continuidade a isso. Entre 2012 e 2016, Claude Puel havia estabelecido as bases para a criação de um jogo coletivo atraente, e Lucien Favre havia sedimentado o projeto, alcançando um notável terceiro lugar em 2016/17, a melhor classificação desde o vice-campeonato em 1975/76, e levando a equipe à Champions League.

Em 2018, Favre partiu para o Borussia Dortmund, e, ao contratar Vieira, ao mesmo tempo em que tomava uma decisão esportiva, o Nice fazia uma escolha midiática, recrutando um nome forte para responder à altura as expectativas elevadas desde Puel e Favre.

Sua missão começou com dificuldades. O novo técnico viu as saídas de nomes importantes do elenco, Jean-Michael Séri e Alassane Pléa, e teve que lidar com um problemático Mario Balotelli. Vindo de uma temporada de sucesso, o atacante quis deixar o clube para se juntar ao Olympique de Marseille, a negociação fracassou, e o italiano se apresentou com atraso e fora de forma para a pré-temporada. Fora das primeiras partidas, não retomou sua melhor forma e terminou por deixar os Aiglons em janeiro, enfim assinando com o Marseille.

Ao longo de sua primeira temporada, Vieira não demorou para abraçar o pragmatismo, em busca de resultados magros que lhe dariam maior tranquilidade no cargo após um início errático de campanha. Ao fim de 2018/19, o sétimo lugar foi decepcionante, mas compreensível diante da turbulência interna que o clube vivia.

Como explica o L’Équipe em matéria desta sexta-feira, a diretoria que havia convencido Vieira a assinar, mais especificamente o presidente Jean-Pierre Rivère e o diretor de futebol Julien Fournier, deixou o clube na metade da temporada diante de desavenças com o proprietário chinês Chien Lee por falta de investimentos. Buscando arrumar a casa internamente, Vieira se acerta com Lee e passa a trabalhar em conjunto com o novo presidente, Gauthier Ganaye. Para o posto de diretor, Vieira traz um velho conhecido, Gilles Grimandi, com quem havia jogado no Arsenal.

A relação estreita logo seria desmanchada. Lee vende o Nice para Jim Ratcliffe, bilionário inglês dono da Ineos, e Rivère e Fournier retornam ao clube, forçando a saída de Ganaye e Grimandi. Como se essa dança das cadeiras nos cargos elevados não fosse o bastante, a transação atrasa e prejudica o planejamento da equipe, com as contratações sendo feitas tarde demais para que houvesse uma devida preparação.

A temporada 2019/20 vira, então, uma época de transição, o que acabaria por dar a Vieira uma sobrevida. Mais uma vez, o desempenho é insatisfatório, mas, graças ao fim antecipado da Ligue 1, o Nice termina no quinto lugar, classificado para a Liga Europa.

A essa altura, as reclamações da torcida já eram mais constantes. Diferentemente da temporada anterior, no entanto, o mercado de 2020/21 foi bem planejado, com a Ineos oferecendo suporte ao projeto esportivo pensado para o clube. Os reforços chegam cedo, em bom número e com bons nomes: Robson Bambu, Rony Lopes, Morgan Schneiderlin, Hassane Kamara, Jeff Reine-Adélaïde, Amine Gouiri… Não havia mais para onde correr, Vieira precisava entregar algo melhor.

Em vez disso, não houve evolução. Entre o que pensava Vieira para a equipe e o que ela conseguia aplicar em campo, havia um abismo, como destacado pelo jornalista Renato Gomes Rodrigues. As ideias não se traduziam para o campo, ao mesmo tempo em que os jogadores pareciam perder sua capacidade de inventividade.

O início irregular por fim se transformou em uma sequência insustentável. Combalido pela lesão do brasileiro Dante, o Nice acabou derrotado em seus últimos cinco jogos, com o revés para o Bayer Leverkusen nesta quinta-feira (3), e a consequente eliminação da Liga Europa ainda na fase de grupos, sendo a gota d’água que fez transbordar o copo.

Com o nome que tem, Vieira terá outras oportunidades no futebol de alto nível, mas precisará tomar nota dos aprendizados desta passagem fracassada. A seu favor, devemos constatar que esta foi sua primeira grande experiência no cargo, com o trabalho no New York City FC servindo mais como estágio. Além do mais, os problemas internos do Nice podem ter tido peso significativo no insucesso.

Os Aiglons, por sua vez, seguem em frente com motivos para esperança. Desde a chegada da Ineos, o projeto esportivo do clube tem sido destacado como um dos mais ambiciosos do futebol francês, e há material humano, além de vontade diretiva, para se alcançar o patamar de equipe que briga sempre pelas posições de ponta da tabela.

Por ora, quem assume o comando técnico da equipe é Adrian Ursea. O romeno foi assistente de Lucien Favre no próprio Nice entre 2016 e 2018 e, inicialmente fora da comissão de Vieira, voltou ao clube e ganhou protagonismo na equipe como assistente também do francês. Uma grande incógnita, Ursea, de 53 anos, tem uma boa oportunidade de se fazer conhecido no cenário europeu no comando de um time com um teto de potencial elevado.