Ligue 1

Avassalador e irrepreensível: Monaco 2016/17, um campeão que ficará na memória

A espera durou 17 anos. E, se dependesse dos prognósticos antes do início do campeonato, demoraria mais. O Paris Saint-Germain era o franco favorito para o pentacampeonato da Ligue 1. Já o Monaco, por mais que aparecesse como o concorrente mais digno durante as quatro temporadas anteriores, não parecia contar com um elenco tão competitivo, se comparado com as estrelas do Parc des Princes. Uma grande história, porém, precisa de uma pitada de surpresa. De bons personagens, de um bom enredo. E, no futebol, tudo fica ainda melhor se o desempenho encher os olhos. Assim, o Monaco encerrou os 17 anos sem o título francês. Avassalador, o time de Leonardo Jardim não demorou a se encaixar. Contou com ressurgimentos, revelações e um coletivo potencializado por muito talento individual. Nesta quarta, ratificou a conquista merecida, com a vitória por 2 a 0 sobre o Saint-Étienne.

A partida desta noite cumpria o mero protocolo. Afinal, ninguém ousava pôr em dúvida o título do Monaco, que dependia apenas da matemática. Para deixar a taça escapar, os monegascos precisariam perder seus dois últimos jogos e ainda ver o PSG tirar uma diferença de 17 gols no saldo. Não ia acontecer. E melhor se o feito fosse concretizado diante da torcida alvirrubra, no Estádio Louis II. Com a festa preparada no principado, o time de Leonardo Jardim cumpriu o protocolo com um belo capítulo final para o roteiro.

O primeiro gol saiu aos 19 minutos, para tranquilizar os mais afoitos. Cortesia de dois protagonistas inegáveis da campanha. Radamel Falcao García era descartado por muitos. Depois da passagem frustrante pela Inglaterra e das seguidas lesões, parecia não mais capaz de atuar em alto nível. Afirmação desmentida com diversos gols e exibições decisivas nos últimos meses. Inclusive nesta quarta, com um lindo passe em profundidade para servir o seu genial companheiro, Kylian Mbappé. O garoto, aliás, se coloca como outro trunfo monegasco. Surgiu de repente e já se inclui entre os atacantes mais letais do planeta. Vive um 2017 inspiradíssimo. Que rendeu mais um gol, partindo em velocidade e driblando o goleiro, antes de emendar às redes. Estavam ali duas grandes virtudes, a frieza e a capacidade de definição. Aquelas que resultaram em 20 tentos desde fevereiro.

Dominando a partida, o Monaco teve um pouco de dificuldades para ampliar. Ainda assim, o resultado era mais do que suficiente para confirmar o título. Hora das homenagens. Nos minutos finais, Leonardo Jardim substituiu Falcao García e Mbappé, ambos ovacionados. Aproveitou para colocar em campo Andrea Raggi e Valère Germain, dois dos membros mais antigos do elenco, dos mais identificados com a torcida, dos mais raçudos. E coube ao centroavante fechar a conta no último lance. Justo ele, que chegou em 2011 e viveu o fracasso de não conseguir o acesso na Ligue 2. Completou na pequena área e correu para o abraço, para ser agarrado por todos os companheiros e celebrado pelos torcedores. Então, começou a aguardada a festa. Completa, como deve ser, com a gloriosa entrega da taça.

O Monaco chega aos 92 pontos na Ligue 1, podendo somar mais três na última rodada, quando visita o Rennes. Já é a melhor campanha da história do clube. A segunda melhor do campeonato, podendo ficar a apenas um ponto do PSG de 2015/16. E possui o terceiro melhor ataque já visto na Ligue 1. Ressaltar os números se torna algo pertinente quando alguns insistem a olhar o copo meio vazio. Não foi o Paris Saint-Germain que se saiu mal, ainda que tenha atravessado momentos desencontrados no início da campanha. Afinal, os parisienses somam atualmente 86 pontos, mais do que em duas das quatro campanhas vitoriosas nos últimos anos. Muito maior que qualquer falha do outro lado está a qualidade do Monaco, um campeão sem qualquer asterisco. Líder desde o início do segundo turno, venceu seus últimos 11 jogos e não perde há 19.

Leonardo Jardim se coloca como um dos melhores técnicos da Europa. O bom trabalho se referendou ainda mais, em diferentes aspectos. Soube aproveitar o potencial de jovens, motivar veteranos, tirar o melhor de seu elenco. Montou uma equipe coesa e fatal, especialmente por sua velocidade. A capacidade pelos lados do campo impressiona, assim como a sede incessante por gols. Não por menos, apenas Barcelona e Real Madrid possuem ataques tão produtivos na Europa durante a atual temporada. Em 19 das 37 partidas os monegascos balançaram as redes três vezes ou mais.

Já individualmente, são diversos nomes que merecem o devido reconhecimento. Danijel Subasic, Kamil Glik e Jemerson foram os esteios da defesa. Benjamin Mendy e Djibril Sidibé formaram uma dupla fenomenal nas laterais. Fabinho se redescobriu brilhantemente na cabeça de área, acompanhado pelos sempre regulares João Moutinho e Tiemoué Bakayoko. Bernardo Silva e Thomas Lemar não se cansaram de infernizar os marcadores, enquanto Falcao e Mbappé se encaixaram perfeitamente na reta final. Isso sem contar as outras peças que compuseram bem o grupo, como Germain, Raggi, Guido Carrillo e o lesionado Gabriel Boschilia.

Como complemento, a excelente jornada na Liga dos Campeões ressaltou o potencial do Monaco além das fronteiras. Agora, é ver como será a manutenção do elenco campeão para o próximo ano. Ninguém duvida que os alvirrubros podem crescer ainda mais, até pela baixa média de idade. Todavia, as tentações externas serão grandes, a começar pelo próprio Leonardo Jardim. Segurando o timaço que tem ou não, fato é que este Monaco se garante na história. Na sua própria história, como o primeiro time campeão desde 2000. E na história da Ligue 1, pelo futebol capaz de hipnotizar e que, assim, ficará impregnado na mente de quem o viu por muito tempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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