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A saída de Bielsa do Olympique de Marseille é a história de uma paixão arruinada

Quase toda paixão começa assim, de repente. A empatia imediata, de quem observa no amado o próprio ideal desejada. Assim aconteceu entre Marcelo Bielsa e o Olympique de Marseille. No Vélodrome, o argentino via o ambiente propício para a sua filosofia. Um clube de torcida apaixonada e conceitos particulares, que se abria para as particularidades do técnico. Da mesma forma, os marselheses se encantaram com o novo comandante. O galanteio de Bielsa está em sua essência: na contracultura que representa e na beleza do jogo que promete. A relação durou um pouco mais de um ano, mas terminou de forma abrupta. A paixão ainda existe, especialmente entre o técnico e a torcida. No entanto, sempre se torna insustentável sem confiança. Neste final de semana, Bielsa anunciou a sua demissão.

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Foram muitos os momentos felizes vividos entre Bielsa e o Marseille. Os títulos não vieram, o que não importava diante de tudo o que construíram. O jogo bonito prometido pelo treinador estava lá, patente. Gerou algumas derrotas sentidas, é verdade, mas levou um time muito além de suas expectativas no Campeonato Francês. Chegou a mirar o topo da tabela durante o início da campanha e caiu de rendimento, deixando escapar também a vaga na Champions League. Independente disso, aqueles eram apenas os primeiros meses. E o que são os percalços do início de uma relação quando se pretende escrever a história de uma vida juntos?

Mais bela ainda eram as provas de paixão que vinham da arquibancada. Afinal, o Marseille não é só o clube de uma torcida apaixonada. Ele representa muito mais. É a principal bandeira de uma região particular, a Provença, que possui todo o seu orgulho local em relação ao resto da França. Bielsa serviu de chama para reavivar todo esse ardor. E as homenagens ao amado não foram poucas dentro do Vélodrome. Em dezembro, nas comemorações natalinas, os marselheses produziram até mesmo um mosaico ao argentino, como seu singelo presente na primeira data juntos. E também se tornaram muito mais assíduos nas arquibancadas. A média de público no reformado estádio saltou de 38 mil para 52 mil em um ano. Além disso, o total de espectadores passou de um milhão, batendo o recorde histórico do clube.

Todavia, como em todo relacionamento, o desgaste é natural. E não seria diferente em Marselha, ainda mais considerando a personalidade de Bielsa. O treinador é genioso, muitas vezes até teimoso. Durante a temporada, já tinha arrumado briga com seus próprios jogadores. Nem mesmo o amor o faz abandonar os seus ideais. A filosofia que conduz a sua vida desde muito antes de conhecer os marselheses, e que pauta todos os seus times. Por mais que seja lembrado com carinho no Newell’s, na Argentina, no Chile, no Athletic Bilbao, o comandante quase sempre deixou seus trabalhos com feridas abertas. O que já começava a se evidenciar no Vélodrome.

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As juras de amor continuaram após o primeiro ano de relação. Bielsa seguiria no clube, mesmo não desfrutando do ambiente ideal. O Marseille perdeu alguns de seus principais jogadores e não se reforçou a altura. Nenhum problema para o argentino, que conseguiu alguns nomes que pediu, poderia trabalhar ainda mais com jovens promessas e seguiria com a liberdade para sustentar o seu ideal de jogo ofensivo. De certa maneira, o próprio clube se escorava na competência do treinador, diante da transformação profunda que passara. Porém, depois de toda a pré-temporada juntos, bastou a estreia na temporada para que tudo se arruinasse.

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A surpreendente derrota para o Caen na estreia da Ligue 1, diante de 60 mil apaixonados no Vélodrome, acabou sendo o ponto final, mas não o último ato de Bielsa em Marselha. A saída já tinha sido determinada na semana anterior, quando ambas as partes foram fechar o contrato que renovaria a permanência do técnico. As negociações se arrastavam durante os últimos meses e já estavam praticamente acertadas. O problema é que, quando faltava apenas a assinatura para selar o casamento, Bielsa se irritou com a mudança de alguns pontos. Considerou aquilo como uma quebra de confiança por parte da diretoria. Já não dava mais para ter o papel passado da relação se a reciprocidade não existe mais.

E, assim como geralmente acontece no fim dos namoros, ambas as partes possuem as suas queixas. “Como vocês já sabem, recusei várias ofertas importantes, pois o meu desejo era seguir no Marseille. Não me arrependo do que foi feito, porque fiz com bastante entusiasmo. Estava bastante atraído por esse projeto. Eu me adaptei nos últimos tempos às mudanças constantes do projeto esportivo, mas depois de três meses de discussão e com dois dias para o início das competições oficiais, eu não posso aceitar a situação de instabilidade que foi provocada pela mudança nos termos do contrato”, escreveu Bielsa, em sua última carta ao clube. Já a resposta veio em nome do presidente Vincent Labrune, dizendo que não dava para seguir com alguém que coloca os interesses acima da instituição. Os egos arruinaram tudo.

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Bielsa possui os seus claros defeitos. Não larga por nada o que pensa, mesmo que isso não renda tantos títulos e coloque em risco o próprio resultado em alguns jogos. Mas os motivos da paixão que se criou entre ele e o Marseille são plenamente compreensíveis. As promessas eram lindas, assim como o clima que se criava. O que não durou muito. Nos próximos meses, o técnico deverá se fechar em seu sítio no interior da Argentina, onde pensará mais uma vez a relação destruída. Enquanto isso, os marselheses já procuram um novo técnico a quem amar. A diretoria precisa logo de um nome, já que a temporada começou. Enquanto isso, os torcedores, órfãos e inocentes em meio à briga, sonham com uma nova paixão. Um nome especulado é o de Jürgen Klopp. Outro romântico inveterado, capaz de fazerem esquecer Bielsa mais rápido do que se pensa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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