França x Portugal remonta a passado de grandes duelos, mas o fim quase sempre é feliz aos Bleus

Em 24 confrontos com os portugueses, os franceses venceram 18, incluindo as duas semifinais nas conquistas da Euro em 1984 e 2000

Não será exagero dizer que França e Portugal farão uma decisão de inimigos íntimos na Euro 2016. Os laços são amplos, mesmo sem fronteiras: históricos, políticos, culturais, populacionais. E também no futebol. As duas seleções se enfrentaram 24 vezes nos últimos 90 anos, quase sempre em amistosos. Três destas partidas valeram de verdade. Alegria total dos franceses, que venceram as três, coincidentemente em semifinais. Batendo os lusitanos, os Bleus chegaram à decisão da Eurocopa em 1984 e 2000, além de se encaminharem ao vice-campeonato mundial em 2006. Supremacia de 18 a 5 para a França no geral, que dá uma pontinha de confiança para o encontro marcado no próximo domingo, no Stade de France.

O primeiro confronto entre França e Portugal aconteceu em 1926. Vitória dos Bleus por 4 a 2 no Estádio Municipal de Toulouse. Até 1930, os dois países disputaram um amistoso por ano, com equilíbrio nos resultados. Voltaram ao hábito na década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, começou a se desenhar o início da freguesia. Entre 1947 e 1959, enquanto os franceses montavam uma das melhores seleções de sua história, acumularam cinco vitórias consecutivas contra os lusitanos. Destaque para os 5 a 3 de 1959, quando nem a forte base do Benfica, incluindo a presença do craque Mario Coluna, conteve a fome de gols de Just Fontaine. O artilheiro do Mundial de 1958 balançou as redes três vezes no Estádio de Colombes.

Durante os anos 1960, a França deu sorte de não cruzar com a esquadra portuguesa. Já no início da década de 1970, Portugal conquistou as duas únicas vitórias seguidas. As duas últimas. Em 1973, o já veterano Eusébio marcou duas vezes e comandou a virada no amistoso disputado no Parc des Princes. Dois anos depois, sem o craque, a Seleção das Quinas fez 2 a 0 em Paris, com gols de Nenê e Marinho. Tempos de transição na França, sem uma grande geração. Contudo, o fortalecimento das últimas três décadas garantiu uma hegemonia impressionante diante dos tugas. Desde 1978, os Bleus registraram 10 vitórias em 10 partidas.

O primeiro jogo decisivo veio em 1984, nas semifinais da Eurocopa. Portugal surpreendia, passando por Polônia e União Soviética nas Eliminatórias, além de superar Alemanha Ocidental e Romênia na fase de grupos. O problema é que, do outro lado, a França voava, dentro de casa e recheada de craques. A semifinal é considerada por muitos como um dos maiores jogos da história da Euro. Domergue botou os franceses em vantagem e, contando com uma grande atuação do goleiro Manuel Bento, Rui Jordão buscou o empate no tempo regulamentar. O jogo seguiu para a prorrogação e Rui Jordão virou, embora Domergue tenha igualado novamente a seis minutos do fim. Até Michel Platini brilhar, quando os lusos já esperavam os penais. No último lance, Tigana fez grande jogada e o camisa 10 selou a classificação.

Em amistosos parelhos, a França reiterou a superioridade sobre Portugal nos anos seguintes por três vezes. Até o reencontro em uma semifinal de Eurocopa, em Bruxelas. Humberto Coelho treinava um excelente elenco, estrelado por Figo e Rui Costa. Do outro lado, Roger Lemerre tinha uma equipe ainda mais poderosa em mãos, com a base de 1998 reforçada pela afirmação de Vieira, Henry e Anelka. Os portugueses até saíram em vantagem, com Nuno Gomes, mas ficou difícil de segurar um adversário tão bom. Henry empatou no início do segundo tempo. Já na prorrogação, outra vez nos instantes finais, Zidane converteu o pênalti que valeu a classificação, com o gol de ouro. Uma das melhores exibições do camisa 10 na competição.

Em 2006, por fim, coube aos franceses negarem a primeira final de Copa do Mundo dos lusitanos. A confiança do time de Felipão era enorme, depois de derrubar Holanda e Inglaterra. Só que a França vinha de uma ascensão impressionante na competição, especialmente depois da atuação de gala contra o Brasil. Zidane, outra vez, foi o carrasco com um gol de pênalti. Mas os Bleus terminaram exaltados principalmente pelo que fez Lilian Thuram, um excepcional defensor que se transformou em monstro todas as vezes em que esteve na semifinal de um Mundial. O camisa 15 terminou eleito o melhor em campo, principal responsável por brecar o quarteto formado por Deco, Figo, Pauleta e Cristiano Ronaldo.

Já os dois últimos encontros aconteceram não faz muito tempo, em 2014 e 2015. No esquema bolado pela Uefa para as Eliminatórias, a França cairia no grupo de Portugal se não fosse anfitriã. Assim, os dois encontros tiveram caráter apenas amistoso. Duas vitórias francesas, no Stade de France e no José Alvalade, mas com dois protagonistas que hoje não são muito bem-vindos a Didier Deschamps: Karim Benzema e Mathieu Valbuena. Agora é ver como se portarão valendo como nunca. E com Portugal esperando repetir o fim das freguesias que alemães e franceses conseguiram nas fases anteriores da Euro 2016.