A China se tornou um destino para lá de desejado dos jogadores por um grande motivo: os altos salários pagos pelos clubes do país. Só que a farra das grandes estrelas com salários entre os maiores do mundo está no fim. A temporada 2020 passa a ter um teto salarial para os estrangeiros que diminuirá muito a atratividade da liga do país asiático. Além disso, há novas regras para os jogadores sub-23 e sub-21, que iniciaram em 2017 para fortalecer a seleção chinesa. O fracasso no pré-olímpico, que fica fora de Tóquio-2020, teve um impacto nas mudanças que a Federação Chinesa de Futebol (CFA) decidiu fazer.

Entre as novas regras estão o uso de jogadores sub-23. A ideia era tentar fortalecer o time olímpico do país, mas a China teve o seu pior desempenho em pré-olímpicos e ficou em último no seu grupo. Está fora da Olimpíada de Tóquio-2020. A regra passou a ser ter apenas um jogador sub-23 em campo. Será preciso, porém, usar ao menos três jogadores sub-21 no elenco do jogo, sem que eles necessariamente precisem estar em campo.

O fracasso no pré-olímpico fez com que o governo chinês obrigasse os jogadores a escreverem de próprio punho, uma reflexão sobre o fracasso. E quando falamos de próprio punho, é literal: os jogadores tiveram que escrever à mão, para evitar que copiem qualquer coisa da internet. A CFA também terá que escrever justificando o fracasso em um documento de 30 mil palavras, segundo relata o Soccer News, da China. O Administrador Geral do Esporte terá que escrever 300 mil palavras detalhando tudo que foi feito e por que não funcionou.

Um dos problemas identificados pelos chineses é que muitos dos seus jogadores preferem ficar confortavelmente sentados no banco de reservas de outros jogadores nos clubes do país, porque os salários são muito altos. Jogar fora do país oferece o desafio esportivo, mas significa que eles precisam ganhar menos. O atacante Wu Lei, por exemplo, saiu do Shanghai SIPG para o Espanyol para ganhar praticamente metade do seu salário chinês. O jogador quis enfrentar o desafio, mas nem sempre isso acontece.

Até por isso, outra medida também foi anunciada: teto salarial. Os jogadores locais poderão receber até 10 milhões de yuans, ou € 1,3 milhão (US$ 1,45 milhão) por ano. O teto salarial para jogadores estrangeiros será de € 3 milhões anuais (US$ 3,3 milhões), um salário que não é atrativo para grandes estrelas do futebol mundial.

Só que há um porém nisso: os salários são limitados, mas os bônus não são. Ou seja: eles podem receber bônus por desempenho, como número de partidas, ou valores por gols ou número estabelecido de gols, ou por vitórias, ou por posição final na tabela, classificação a competições continentais e tudo mais.

Tudo isso pode aumentar o valor, mas dificilmente os valores serão tão grandes quanto atualmente, a ponto de ter alguns dos jogadores mais bem pagos do mundo. Salários acima de € 10 milhões de euros, por exemplo, serão difíceis, mesmo com os bônus. Neste momento, porém, isso é uma suposição. Veremos como os clubes irão lidar com essa questão e se a combinação de salários e bônus será atrativa para os jogadores. Talvez os astros da Europa fiquem distantes, mas os africanos e asiáticos continuem perto. Há uma boa relação de jogadores africanos que decidem por atuar na China.

“Nossos clubes queimaram muito dinheiro e nosso futebol profissional não foram geridas de uma forma sustentável”, afirmou Chen Xuyuan, presidente da Federação Chinesa de Futebol (CFA). “Se não tomarmos medidas rapidamente, temo que entrem em colapso”.

Além do limite salarial, há também um limite global de gastos por clube: 1,1 bilhão de yuans (US$ 159 milhões, € 143 milhões) por temporada. A folha salarial não poderá ultrapassar a marca de 60% do seu total de gastos.

Yang Nan, membro do conselho do Henan Jianye, afirmou que as novas políticas foram bem-vindas pelo clube. “Nenhum clube pode arcar repetidamente com bilhões de yuans de prejuízo, e não haverá mais investimentos constantes se isso não parar”, disse o dirigente. “Para garantir o desenvolvimento sustentável das nossas ligas, as regras da CFA devem ser rigorosamente aplicadas”.

As mudanças inicialmente fazem com que a China se torne menos atraente para superestrelas do futebol mundial. Para o Brasil, porém, ainda pode ser interessante. Alguns jogadores, do mais alto nível, recebem salários equivalentes ao teto salarial chinês – algo de pouco mais de R$ 1 milhão por mês.

Não são muitos os jogadores que estão nesse patamar no Brasil e, por isso, para os que não estão, a China pode ser atraente. Para outros, que estão perto, pode ser mais interessante ficar no Brasil e tentar ganhar isso de um clube brasileiro. Dudu, do Palmeiras, por exemplo, pode se sentir muito menos tentado a deixar o clube para uma aventura chinesa que não será assim tão maior quanto o que ele ganha por aqui. Outros, porém, que não estejam no mesmo patamar, podem querer ganhar algo que os clubes brasileiros não queiram pagar.

O número de estrangeiros permitidos também sofreu alterações. Agora, são permitidos até quatro estrangeiros em campo (antes eram três) e ainda um quinto que esteja no banco – para que ele entre, outro estrangeiro precisa sair. Isso, em tese, poderia aumentar o interesse dos chineses em jogadores estrangeiros. Se eles estiverem dispostos a ficarem dentro do teto salarial.

Por tudo isso, Jonathan White, colunista do South China Morning Post, acredita que as medidas podem fazer com que a liga volte muito no tempo. A atratividade da liga passará a ser para jogadores de um patamar técnico menor. As restrições da liga têm o objetivo de aumentar o nível do futebol do país, mas não parece um plano estruturado para ser, como a CFA sempre anunciou, uma potência asiática em termos de clubes. As medidas devem fazer com que o nível caia sensivelmente e a concorrência com mercados mais estabelecidos, com clubes financeiramente mais estáveis, como os do Japão, será ainda mais dura.