O planeta se prepara novamente para se curvar a um torneio de 64 partidas que, apesar de durar um mês e envolver pouco mais de 700 jogadores, chancela, influencia ou condena eternamente a privilegiada classe de boleiros convidada a participar desse encontro que completará 900 jogos em quase 90 anos. E o resto? O resto é o tudo. É o futebol de todos, para além das rotinas ou vínculos terceiros, que não escolhe campeonato porque gruda na pele e não solta, carregado na vida. ‘Várzea’, livro-fotográfico de Simon di Principe, viaja o Brasil para nos lembrar deste futebol, de estética, tal qual o título, à margem dos rios das milionárias ligas profissionais vendidas ao mundo pela TV em alta definição.

Em 2016, o inglês lançou sua primeira obra de ensaios relacionados ao futebol, ‘Grassroots’, uma série de retratos no Hackney Marshes, um gigantesco complexo de campos para amadores em Londres com mais de 80 canchas. Lá, desde os anos 1940, os peladeiros tocam uma grande liga independente, num lugar que acaba por significar um grande encontro internacional de gente cuja amizade e relação é mediada pela bola – assim como o pai de Simon, um italiano que emigrou para a capital inglesa e jogou no Mancini Garibaldi, o maior vencedor do futebol ali no Hackney Marshes.

Depois, entre 2016 e 2017, Simon desembarcou no Brasil. Encontrou nos campos de terra em São Paulo, Belo Horizonte e Manaus aquela mesma energia dos campos londrinos, personagens que desfrutam da vida em comunidade, de suas paixões pelas camisas que vestem e seus visíveis exageros em tons de masculinidade, agressividade e, por que não, até de transformar um retângulo de chão batido num cenário de guerra.

Feito tantas outras apropriações tardias, se várzea pode ser usado como a referência a uma situação ou ambiente bagunçado, rusticamente improvisado e até rejeitado por sua precaridade, aqui várzea é identidade. Da adversidade se faz a força, e dos buracos do campo de terra Simon di Principe reconhece um dos mais bonitos e íntimos afetos que o Brasil tem para mostrar. Golaço.

Bate-papo sobre outros futebóis possíveis

Aira Bonfim (pesquisadora Museu do Futebol)
Marcelo Mendez (jornalista, escritor)
Roberta Pereira (assistente sosical)
Mais representantes do Movimento de Luta pela Preservanção dos Campos de Futebol de Várzea do Campo de Marte
E lançamento do livro ‘Várzea’, com presença de Simon di Principe

Quarta-feira, 6 de junho, 19h-22h, Taperá Taperá (Av. São Luiz, 187, loja 29, Galeria Metrópole – ao lado do Metrô República), São Paulo-SP