Quando a Suécia eliminou a Dinamarca na repescagem da Euro 2016, dependeu bastante dos gols de Zlatan Ibrahimovic. O artilheiro balançou as redes três vezes contra os rivais, protagonista na classificação à fase final da competição continental. No entanto, o caminho se abriu graças à participação de outro talento da seleção: Emil Forsberg anotou o primeiro gol na vitória por 2 a 1 em Solna. E a queda melancólica na fase de grupos da Eurocopa não guardou críticas apenas a Ibra, em sua despedida da equipe nacional. Forsberg também foi questionado por aquilo que não conseguiu entregar. O habilidoso meia, todavia, sempre soube tirar o seu melhor nos momentos de dúvidas e pressão. Dois anos depois, aconteceu sua maior resposta. Tornou-se o protagonista e o herói da Suécia que superou a Suíça, se classificando às quartas de final da Copa de 2018 – algo que não fazia desde 1994.

As cobranças sobre Forsberg vieram desde cedo. O meio-campista nasceu Sundsvall, uma cidade de 50 mil habitantes no norte da Suécia. Seu avô era Lennart Forsberg, que jogou no principal clube local e fez carreira nos anos 1950. Seu pai, Leif, foi um dos grandes ídolos do Sundsvall e marcou quase 150 gols pelo Campeonato Sueco, atacante de muita presença física. Havia grandes expectativas se Emil poderia fazer jus à herança genética. Mas, sem a mesma força do pai, até pensou em seguir por outros caminhos, jogando hóquei por um tempo.

Na adolescência, Forsberg foi recusado pelo projeto da federação sueca para formar novos talentos. Era muito pequeno, segundo os olheiros. O garoto ainda precisava lidar com a timidez. Mas viu sua postura mudar a partir dos 14 anos, quando conheceu Shanga Hussain. A garota, filha de imigrantes kurdos, era tão maluca por futebol quanto ele. Logo se apaixonaram e começaram a namorar. No entanto, mais expansiva, ela não se tornou apenas a maior torcedora do jovem talento. Ela virou sua maior crítica. Não à toa, o apelido do camisa 10 à atual esposa não é exatamente carinhoso: a chama de xerife.

“O único momento em que fico nervoso no futebol é depois que eu faço uma partida ruim. Quando chego em casa à noite, sei o que virá… um encontro com o xerife. E deixa eu dizer, isso pode ser brutal. O xerife sempre me dá uma dura. E se o xerife se aborrece, bem, você não quer estar na mesma sala. Acredite em mim, eu sei. Porque conheço o xerife melhor do que qualquer um. Afinal, o xerife é minha esposa”, contou, em carta escrita ao Players’ Tribune. “Você pode pensar que estou brincando, mas não estou. Suas análises são muito sérias e eu levo isso à risca. Na verdade, quase sempre concordo com suas visões. Claro, eu poderia respondê-la quando começa a me achincalhar. Mas, bem, isso é um casamento e você sabe que esses argumentos funcionam. Eu não tenho chance! Sério, ela assiste a mais futebol do que eu. Na verdade, ela me fez o jogador que sou hoje”.

Shanga também joga futebol profissionalmente. Segundo Forsberg, a companheira era melhor do que ele até os 18 anos, quando ela sofreu uma séria lesão no joelho. E, nesta época, com a ajuda primordial dela, o prodígio despontou no time principal do Sundsvall. Na terceira temporada, ajudou o clube de seu coração a conquistar o acesso à primeira divisão do Campeonato Sueco. Então, conheceu Hasan Cetinkaya, um dos principais empresários do futebol sueco, outro grande responsável por fazer a carreira do camisa 10 decolar – e por cobrá-lo. Depois da estreia na elite, apesar do rebaixamento, o armador se transferiu ao poderoso Malmö. Teve certas dificuldades para se afirmar, mas logo se tornou um dos destaques da equipe.

Forsberg ganhou sua primeira convocação em 2014, em seu melhor momento com o Malmö. Meses depois, seria bastante criticado no país. Decidiu deixar os celestes para assinar com o RB Leipzig. Um time que ele mesmo não conhecia, e só aceitou quando conheceu o projeto. Ainda assim, era acusado de ‘mercenário’ ao seguir à segunda divisão do Campeonato Alemão. “As pessoas dizem que não há tradição e se focam no fato de que estão tentando criar algo a partir do dinheiro. Mas se você tem dinheiro, pode comprar bons jogadores e escolher bons técnicos. Se você quiser ter sucesso, é a maneira que funciona no futebol moderno”, declarou na época. Em uma temporada e meia na Red Bull Arena, ajudou os Touros Vermelhos a chegarem à Bundesliga.

Até aquele momento, o ápice de Forsberg tinha vindo na repescagem da Euro 2016. E que as atuações ruins na competição continental tenham pesado contra, ele poderia dar um passo maior na temporada seguinte. O Liverpool fez uma proposta para contratá-lo, mas o jovem recusou. “Se as pessoas pensam que sou estúpido e que traí o futebol, então que pensem o que quiserem. Eu sou feliz aqui em Leipzig, amo futebol e sou titular. Eu tenho que me tornar um jogador melhor”, apontou na época. Também pesava o fato de que Shanga atuava profissionalmente no FFV Leipzig, equipe de futebol feminino. “Falamos sobre tudo e o fato de que ela está feliz aqui teve grande papel em nossa decisão de permanecer. É bom ter alguém por perto que entende de futebol”, complementou.

A resposta de Forsberg, afinal, veio na melhor temporada de sua carreira, em 2017/18. O meio-campista arrebentou na estreia do RB Leipzig na elite do Campeonato Alemão. Foi o líder de assistências da competição e encabeçou a classificação do time à Liga dos Campeões. Era a sua digna reação a tantas cobranças e pressões, agora indubitavelmente o maior talento da seleção sueca. Mesmo sem ser tão preponderante, teve sua importância na conquista da vaga à Copa do Mundo, a primeira desde 2006. Enfim, a chance de se afirmar definitivamente.

Forsberg não é brilhante nesta Copa do Mundo, em uma seleção sueca que não é brilhante por si. Entretanto, aparece em momentos importantes da campanha. Oferece qualidades diferentes à equipe, como a velocidade pelo lado esquerdo e a precisão nos passes. Já vinha crescendo na competição, com uma partida razoável contra o México. E seu melhor jogo aconteceu nesta terça, em São Petersburgo, contra a Suíça. Deu profundidade ao ataque, apareceu em lances agudos. Mais importante, teve papel decisivo, no ataque e na defesa. Não se nega a sua sorte ao marcar o gol, em bola que desviou em Manuel Akanji antes de entrar. Minutos depois, salvaria um tento dos suíços em cima da linha. Ficaria em campo até os 37 do segundo tempo, quando, desgastado fisicamente, saiu de campo como um herói.

Esta seleção da Suécia está distante de outros grandes times que o país teve. Contudo, conta com um enorme senso coletivo e organização, que explicam a campanha tão boa. Nomes como Andreas Granqvist e Ola Toivonen se tornam faces do time limitado, mas histórico. Forsberg é quem pode oferecer o toque de classe, sem dever tanto assim a estrelas do passado. O gol não veio da forma mais bela nesta terça. Ainda assim, marca seu nome. Aos 26 anos, tem mais a contribuir.


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