Dedicar quase toda sua trajetória de vida no futebol a uma camisa, um país, um propósito e um sonho é para poucos. Formiga se insere nesse número restrito de atletas. Neste domingo, a camisa 8 da seleção brasileira feminina encerrou uma passagem de 22 anos com a amarelinha. Vinte e dois anos. Não foram 22 meses entre uma convocação ali, outra aqui. Foram mais de duas décadas em que seu futebol pautado pela regularidade, pela técnica, pela entrega e pelo compromisso não permitia que alguém tomasse seu lugar. Afinal, nem mesmo agora que ela se despede da Seleção será provável que haja uma substituta à sua altura em todos os sentidos. Formiga é única, e foi com a excepcionalidade da jogadora magnífica que foi ao longo destes 22 anos que ela entrou e deixou o campo com a camisa do Brasil pela última vez.

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Seu adeus já estava programado. Depois das Olimpíadas, a camisa 8 informou que este seria seu último ano jogando pela Seleção. Após a frustração do sonho do ouro olímpico, em frente às câmeras, chorando, dava para sentir que aquilo doía muito mais nela. Formiga esteve presente em todas as edições dos Jogos Olímpicos desde que o futebol feminino foi inserido no evento esportivo. Por seis vezes, ela esteve lá, firme e forte, em busca da medalha que ainda é a maior aspiração da modalidade no país, e que com certeza ainda brilhará no peito das atletas brasileiras. Em suma, a meio-campista afirmou que seu ciclo estava rumando ao fim. E confirmou, posteriormente, que a conclusão dele seria na Copa Caixa Internacional de Futebol Feminino, realizada em Manaus pela primeira vez desde que o torneio teve início, em 2009.

O formato da competição é simples. São quatro seleções, contando sempre com a brasileira, disputando uma taça. Taça esta que quase sempre esteve nas mãos do Brasil, o anfitrião e detentor de agora sete dos oito títulos pleiteados. Então, cada equipe se enfrenta uma vez. São três jogos. E aí vai para a final os times que tiverem melhor aproveitamento, sem segredo. Até encarar a Itália, a terceira adversária, a seleção brasileira feminina passou pela Rússia e Costa Rica sem muitos problemas. Fruto de um trabalho de pouco tempo de Emily Lima, mas que já rende resultados visíveis em campo. O Brasil, agora, é um time bem mais organizado do que era com Vadão, e foi por isso que encarou a Itália já sabendo que estava na final, assim como as italianas. O confronto só aconteceu mesmo para saber se alguma das equipes teria vantagem na decisão, e foi o que aconteceu com o Brasil, que por ter feito 2 a 1, chegou à final precisando apenas de um empate.

Mas quem disse que as brasileiras queriam empatar? Em um jogo de oito gols, Gabi, Bia, Andressinha (duas vezes) e Debinha deixaram suas marcas na seleção de Emily e homenageavam a veterana que se despedia com os tentos e dando o status de campeão ao Brasil. Mesmo com o ataque funcionando perfeitamente bem, o time parecer ter tomado um bronca no intervalo. Afinal, foram cinco gols marcados, mas três tomados. As italianas falharam bastante no setor defensivo, e as brasileiras também. Ainda assim, era notável a evolução da equipe feminina do Brasil, que contou com muitas caras novas para competição, tendo a maioria delas disputado a final da Copa do Brasil de Futebol Feminino pelo Audax/Corinthians ou São José, time que Emily comandou antes de ser chamada pela CBF.

E foi dessa maneira que Formiga disse adeus à sua caminhada com a canarinho. Com uma taça. Com o êxito da magnífica jogadora que sempre foi ao longo de seu trajeto. Como a campeã que sempre foi, mesmo não tendo alcançado seu maior objetivo enquanto jogadora de futebol da seleção brasileira. O ouro pouco importava a cada jogada aguerrida no campo de ataque ou no de defesa. A cada lance em que ela deixava transparecer o que estava em sua alma: que vestir aquela camisa era motivo de orgulho. Que aquilo não era só mais um jogo, e sim mais uma batalha pela prosperidade do futebol feminino no país. E é por sempre ter lutado pela modalidade que seria legal que sua contribuição não terminasse com sua aposentadoria em campo. Formiga é muito especial para não continuar trilhando em busca de mais reconhecimento para o futebol feminino. Seja como dirigente, como ativista ou qualquer outro papel. A modalidade precisa de mulheres, e mulheres como ela.

Seis participações em Olimpíadas e duas medalhas de prata. Seis presenças confirmadas em edições da Copa do Mundo, sendo a maior recordista nesse quesito. Seis atuações em Jogos Pan-Americanos e três medalhas de ouro. Cento e sessenta aparições com a amarelinha, o maior número de jogos que um(a) jogador(a), entre o futebol masculino e o feminino, já fez pelo Brasil. Vinte e dois anos de amor, dedicação, compromisso e luta pela modalidade que se tornou um pedaço dela. Aos 38 anos, mas em plena forma física para uma atleta de sua idade, ela deixa vaga a camisa 8 da Seleção. Mas jamais a lacuna no esporte brasileiro que só o nome Miraildes Maciel Mota pode preencher.