Formiga, a incansável: não existe Olimpíada sem ela

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast.

Em O Retrato de Dorian Gray, o escritor irlandês Oscar Wilde conta a história de um janota que via sua imagem pintada num quadro envelhecer enquanto continuava jovem e belo. Alguns atletas parecem ter encontrado tal fórmula mágica e foram exemplos de longevidade nos Jogos Olímpicos, como o cavaleiro canadense Ian Millar, que disputou quase todas as edições entre Munique-1972, quando tinha 25 anos, e Londres-2012, aos 64 – a exceção foi Moscou-1980, quando o Canadá acompanhou o boicote dos Estados Unidos. Millar só foi conseguir uma medalha em Pequim-2008, quando foi prata no salto por equipes, aos 61 anos.

Mais bem-sucedido foi o velejador dinamarquês Paul Elvstrom, que esteve em oito edições entre Londres-1948 e Seul-1988, e ganhou medalhas de ouro. Esgrima, remo e tiro são outros esportes que, com menor exigência física, permitem atletas mais velhos. Já no futebol, tal persistência é bem mais rara. E a lista é encabeçada por uma brasileira pequena no tamanho e gigantesca na relevância: Formiga, a única no futebol, seja masculino ou feminino, a ter disputado seis olimpíadas. 

A baiana Miraildes Maciel Mota ainda nem tinha idade para tirar carteira de habilitação quando foi chamada para seu primeiro grande compromisso com a Seleção: a Copa do Mundo de 1995, na Suécia. Passou boa parte do tempo no banco, e, quando teve a chance, mostrou como era fundamental ao time. No ano seguinte, quando o futebol estreou nos Jogos Olímpicos, em Atlanta, com 18 anos completados em março daquele 1996 e do alto do seu 1,60 m, já era dona de um lugar no meio-campo e atuou como titular em todas as partidas, sem ser substituída uma vez sequer pelo técnico Zé Duarte.

A Olimpíada de Barcelona-1992 foi a última sem a presença do futebol feminino, e foi marcada pela presença avassaladora do Dream Team no basquete. Ouça abaixo mais histórias daquela edição no nosso episódio 26.

Formiga em ação na Copa de 2019 (Foto: CBF)

Aquela Olimpíada marcou a primeira frustração olímpica para o Brasil no futebol feminino. Depois de arrancar um empate com a Noruega, então campeã mundial, a Seleção foi às semifinais, mas acabou sem medalha ao perder para a China por 3 a 2 e depois por 2 a 0 para a Noruega, na decisão da medalha de bronze.

Quatro anos depois, Formiga foi a Sydney, mas desta vez Zé Duarte lhe deu algum descanso – foi substituída por Roseli na derrota por 2 a 1 para a Alemanha, na primeira fase, e começou no banco na decisiva vitória por 2 a 1 sobre a Austrália, que garantiu de novo o Brasil nas semifinais, entrando no lugar de Raquel no segundo tempo. Mas a medalha de novo não veio: derrotas por 1 a 0 para os Estados Unidos, nas semifinais, e 2 a 0 para a Alemanha, na decisão do bronze.

Em Atenas-2004 o técnico era outro, Renê Simões, o Brasil sonhava alto depois do ouro no Pan de Santo Domingo, em 2003, e Formiga seguia como titular indispensável, com seu fôlego incansável. Pela primeira vez deixou seus golzinhos numa Olimpíada: dois de uma vez, na goleada por 5 a 0 sobre o México, nas quartas de final. O Brasil bateu a Suécia nas semifinais e chegou a sua primeira final, mas o sonho do ouro acabou na prorrogação contra os Estados Unidos, que venceram por 2 a 1.

Os Jogos de Pequim-2008 marcaram a primeira ausência de Formiga numa partida em Olimpíada. Titular na estreia, um 0 a 0 com a Alemanha, e na vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Norte, acabou poupada pelo técnico Jorge Barcelos porque levou um amarelo contra as asiáticas e o professor ficou com medo de perdê-la para os mata-matas. Era a 19ª partida da seleção brasileira nos Jogos, a primeira em que Formiga não apareceu.

Mas ela voltou ao time nas quartas, vitória por 2 a 1 sobre a Noruega, e nas semifinais fez seu único gol naquela edição, o primeiro da goleada por 4 a 1 sobre a Alemanha, uma espécie vingança pela derrota sofrida um ano antes na final da Copa. Na final, porém, a revanche fez do Brasil vítima: as norte-americanas, que tinham levado uma surra de 4 a 0 no ano anterior, venceram novamente a batalha pelo ouro: 1 a 0, de novo na prorrogação. Desta vez, porém, Formiga não ficou em campo até o fim – deu lugar a Francielli no começo do segundo tempo extra, quando a Seleção já estava atrás no placar.

Nessa época, Formiga já era uma estrela internacional. Na época dos Jogos defendia o time de Botucatu, mas colecionava passagens por Suécia e Estados Unidos nos anos anteriores e voltaria à terra do Tio Sam nos seguintes. Mas, em 2012, já estava de volta ao Brasil, jogando pelo São José, quando foi chamada por Barcelos para os Jogos de Londres. Já tinha 34 anos, mas não havia a menor hipótese de que uma das estrelas do time campeão da Libertadores no ano anterior ficasse de fora.

O gás ainda sobrava: Formiga foi titular nas vitórias sobre Camarões, 5 a 0, e Nova Zelândia, 1 a 0. Com a classificação assegurada, Barcelos novamente a poupou no último jogo da primeira fase, derrota por 1 a 0 para o Reino Unido. Voltou nas quartas, mas o time não se encontrou diante do Japão e foi derrotado por 2 a 0. Pela primeira vez, o Brasil não ficava entre os quatro primeiros de uma Olimpíada. 

A idade parecia não existir para Formiga nos anos seguintes, os mais vitoriosos da sua carreira. Com o time do Vale, ela ganhou mais duas Libertadores, um Mundial de clubes, três Paulistas, duas Copas do Brasil. Com a Seleção, uma Copa América e o terceiro ouro pan-americano. Aos 38 anos, não correu o menor risco de ficar de fora de sua sexta Olimpíada, ainda mais sendo em casa, no Brasil. Titular absoluta, só não participou de um jogo – de novo o último da primeira fase, contra a África do Sul – na campanha que terminou com mais um quarto lugar, após derrota por 2 a 1 para o Canadá na decisão da medalha de bronze, jogada em São Paulo. Das 32 vezes que a seleção feminina entrou em campo por uma Olimpíada, Formiga esteve presente em 29.

E, claro, ainda não acabou. Formiga chegou a anunciar sua aposentadoria da Seleção após um torneio disputado no Amazonas, no fim de 2016; no ano seguinte, foi jogar no Paris Saint-Germain – mas não resistiu aos apelos de Vadão para retornar à Seleção em 2018. No ano passado, foi titular em sua sétima Copa do Mundo. Pia Sundhage assumiu o cargo depois da competição, e continua contando com a veterana: na semana passada, convocou-a para os amistosos contra a Argentina, no fim deste mês, em São Paulo. 

Formiga terá 43 anos quando os Jogos de Tóquio começarem, em julho do ano que vem – e não há por que não imaginar que estará mais uma vez em campo de amarelo ou azul, correndo atrás de cada centímetro, marcando as adversárias de perto, distribuindo o jogo e mostrando seu talento que atravessa o tempo. Neste Dia da Consciência Negra, celebrar Formiga, nossa Dorian Gray de chuteiras e bom caráter, é um privilégio.