“Nesses momentos, é até difícil ter palavras. Foi uma notícia que me impactou muito. Porém, sabendo de tudo exatamente como o doutor explicou, estou triste, mas também estou muito tranquilo, ciente dos dias que virão pela frente. Sei que será só mais uma batalha em minha vida. Estou muito tranquilo para enfrentar isso tudo com o apoio da minha família e tenho certeza que vencerei. Seguirei firme para voltar o quanto antes a fazer o que mais gosto, que é jogar futebol”.

As palavras de Ederson ressaltam sua confiança, apesar da preocupação inescapável. Nesta terça, o meio-campista de 31 anos anunciou que se afastará temporariamente do futebol, para tratar de um tumor nos testículos. O jogador do Flamengo descobriu a doença por causa de uma alteração em seu exame antidoping e será submetido a uma cirurgia na próxima segunda. O tumor será retirado e passará por uma biópsia, indicando o tratamento posterior. Então, o rubro-negro terá uma noção maior do que precisará superar nos próximos meses.

O caso de Ederson está longe de ser inédito. Ao longo das últimas décadas, vários esportistas profissionais foram diagnosticados com tumor nos testículos e voltaram a atuar em alto nível após vencerem a enfermidade. Marco Russ, capitão do Eintracht Frankfurt, é o exemplo mais recente. O defensor também descobriu sua doença durante um exame antidoping, ao final da temporada 2015/16, passando por cirurgia e quimioterapia. Voltou a campo 285 dias depois. Em maio, participou da final da Copa da Alemanha contra o Borussia Dortmund.

Como Russ, há outros tantos nomes célebres que escreveram grandes histórias de superação. Arjen Robben voltou para estourar no Chelsea, antes de passar pelo Real Madrid e viver seus melhores momentos com o Bayern de Munique. Jonás Gutiérrez salvou o Newcastle do rebaixamento meses depois de seu tratamento, por mais que tenha sofrido com o descaso do clube. Joël Bats ascendeu rumo à conquista da Eurocopa de 1984. José Francisco Molina se manteve como um dos maiores ídolos do Deportivo de La Coruña. Ebbe Sand seria artilheiro da Bundesliga, bem como capitão do Schalke 04. E os casos se estendem por Carlos Roa, John Hartson, Magrão, Lyuboslav Penev, Douglas Friedrich, Alan Stubbs, entre tantos outros.

O enredo recorrente evidencia a alta incidência do câncer nos testículos, tipo de câncer mais comum nos homens até 45 anos de idade. No entanto, a recuperação de tanta gente também demonstra as boas chances de cura, especialmente se o tratamento for iniciado durante as etapas iniciais da doença. Um apoio psicológico não só para Ederson, como também para Yeray Álvarez, jogador de 22 anos do Athletic Bilbao, que recebeu o mesmo diagnóstico e passou cirurgia, além de quimioterapia. Entretanto, a luta dos dois jogadores pode servir de motivação para milhares de outras pessoas que encaram situações parecidas e buscam a saúde plena.

Dentre estes episódios, talvez não haja um mais emblemático que o de Bobby Moore. O pesadelo de um dos maiores zagueiros da história é pouco conhecido, por mais que tenha acontecido em seu auge. Surge como enorme exemplo.

bobby moore

Bobby Moore viveu sua grande temporada de afirmação em 1963/64. O zagueiro de 23 anos recém-completados já era titular absoluto do West Ham desde 1960, assim como vestia a braçadeira de capitão. Além disso, aparecia regularmente nas convocações da seleção inglesa havia dois anos. Em 4 de maio, faturou o seu primeiro grande título como profissional, diante de 100 mil pessoas em Wembley. Uma decisão emocionante, em que os Hammers viraram o placar contra o Preston North End aos 45 do segundo tempo e conquistaram a Copa da Inglaterra. O jovem craque não apenas teve a honra de receber o troféu da competição oficial mais antiga do mundo, como também terminou aquela temporada eleito o melhor jogador do futebol inglês.

Meses depois, o que era o sonho da glória se transformou em pesadelo para Bobby Moore. O zagueiro relutava em consultar os médicos, mas um de seus testículos apareceu visivelmente inchado e as dores persistiam. Sua esposa, Tina, estava grávida de seis meses e convivia com os gritos de dor do marido. Era preciso enfrentar a realidade. E ela veio da maneira mais dura possível: em novembro de 1964, o craque foi diagnosticado com um tumor. O que parecia uma lesão temporária, causada por um chute, o levou à mesa de cirurgia para a retirada do testículo.

“De muitas formas, isso foi bastante devastador. Nesta época, o câncer era algo que você simplesmente não mencionava, uma palavra tratada com tabu, uma perspectiva amedrontadora. Tudo o que eu podia pensar era que ele tinha apenas 23 anos e recebera a sua sentença de morte. O que aconteceu abalou os seus sustentos, sua masculinidade, sua própria existência no planeta”, conta Tina Moore, em sua autobiografia.

Afinal, a nebulosidade em torno do câncer há cinco décadas era tão grande que Bobby Moore sequer abriu o jogo com os companheiros sobre a sua luta. Apenas Tina, os médicos e as enfermeiras sabiam exatamente o que se passara. Por mais que os tratamentos evoluíssem e os índices de cura chegassem a 75% na época, o defensor temia pela própria vida, e o retorno aos gramados era um assunto tão incerto quanto. Era preciso ser muito forte para dar a volta por cima.

A recuperação de Bobby Moore durou apenas três meses, passando por sessões de radioterapia ao longo de três semanas. Para a imprensa, ele voltava de uma lesão muscular na virilha. Já o elenco do West Ham sabia que algo havia acontecido, após notarem o inchaço antes da operação. Para eles, contudo, aquilo ainda tinha sido causado por um chute ou uma bolada. Eram outros tempos, e respeitaram a privacidade do companheiro. Apenas o capitão sabia o tamanho da tormenta que enfrentava. Conhecido por sua seriedade, o defensor se tornou mais reservado. Escondia, inclusive, as marcas azuis no local onde foi realizada a radioterapia, assinaladas na altura dos rins, que carregou por semanas depois do tratamento.

Bobby Moore também se preocupou com sua própria virilidade. Temia que as pessoas percebessem algo diferente em seus calções. Atormentava-se com a possibilidade de não poder ter mais filhos. “Ele precisava provar que ainda era um homem. Isso era muito importante para ele. Embora os médicos tenham dito que não existiam sequelas, ele precisava se provar a si mesmo”, explica Tina. A primeira filha, Roberta, nasceu em janeiro de 1965, durante o tratamento. Pouco depois, a esposa engravidou, mas perdeu a criança. O segundo filho do zagueiro, Dean, foi concebido três anos depois. A ansiedade ainda agravou sua insônia, com o capitão atravessando madrugadas em claro, assim como passou a beber com maior frequência. E havia o risco de que o câncer pudesse voltar. Precisou realizar exames periódicos durante cinco anos. Cada pequena dor o levava de volta às incertezas.

bobby

Neste intervalo, porém, Bobby Moore superou seus temores e se erigiu como uma das maiores figuras do futebol mundial. Como um dos maiores exemplos. Em 19 de maio de 1965, apenas seis meses depois de retirar o tumor e três depois de sua volta, o capitão ergueu mais uma taça. Comandou o West Ham na conquista da Recopa Europeia, batendo o Munique 1860 na final disputada em Wembley. Aquela era mesmo a sua casa. E, em 30 de julho de 1966, menos de dois anos depois de todas as incertezas, ele se sagrava campeão do mundo com a Inglaterra. Recebeu a Jules Rimet das mãos da Rainha Elizabeth II. Foi carregado nos braços de seus companheiros. Eternizou-se como uma lenda do futebol local. Mas apenas Tina Moore tinha real noção do que o homem forte e altivo de 25 anos havia encarado. A Copa do Mundo, no fim das contas, era uma celebração à vida. Em agradecimento, ele enviou uma de suas camisas ao médico que acompanhou seu tratamento.

O drama particular moldou ainda mais a personalidade exemplar de Bobby Moore – leal, profissional, avesso aos deslumbramentos. Era o ídolo das crianças e o cavaleiro da Rainha. Disputaria 644 partidas pelo West Ham, além de passar pelo Fulham no final da carreira. Acumularia 108 partidas pela seleção inglesa, participando ainda da Eurocopa de 1968 e da Copa do Mundo de 1970. Recebeu dezenas de prêmios e condecorações. Figurou em diversas listas dos melhores da história. E mal demonstrou qualquer consequência do tumor, ao menos publicamente, ao longo de sua vida. Todavia, por sua privacidade, também preferiu não se colocar como exemplo.

Ainda assim, Bobby Moore faleceu de maneira um tanto quanto precoce. Tinha 51 anos quando sucumbiu em 1993, vitimado por um câncer no intestino – que, suspeita-se, pode ter sido ocasionado por alguma célula não curada daquele antigo episódio, por conta dos métodos de tratamento pouco precisos dos anos 1960. Só então a história do tumor nos testículos veio à tona. Só então realmente pôde se medir o tamanho de seus feitos em Wembley, embora as dificuldades do dia a dia. Uma vitória silenciosa, mas epitomizada com a Jules Rimet em mãos.