O debate ressurge com frequência, à medida em que o mercado de transferências fica cada vez mais inflacionado. Somas vultuosas de dinheiro, aquelas que eram reservadas apenas aos craques, são gastas em jogadas meramente ótimos, ou de segundo e terceiro patamar. Isso deve acontecer mais uma vez com a ida Alisson para o Liverpool. Com apenas uma temporada excelente no futebol europeu, a última com a camisa da Roma, o brasileiro tornou-se o goleiro mais caro da história do futebol.

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Não que Alisson não tenha talento. Tem bastante, como demonstrou no Internacional, na Roma e na Seleção, embora não tenha tido muita oportunidade para mostrar trabalho na Copa do Mundo da Rússia. Deve resolver o antigo problema da camisa 1 do Liverpool e ser titular incontestável. Mas ainda não é o melhor jogador do mundo na posição, nem está entre os maiores da história. Então, por que custou mais do que qualquer outro?

A resposta está dentro de um pacote de circunstâncias. O mercado mais inflacionado do que nunca é um dos fatores. O fato de todos saberem que os clubes ingleses têm mais dinheiro que o resto da Europa é outro.  Também conta a posição de força da Roma nas negociações. O clube italiano não precisava vender o seu goleiro. Não passa por problemas financeiros e ainda tinha três anos de contrato com o jogador. Além disso, havia o interesse do Real Madrid e, com a possível saída de Courtois, do Chelsea. A concorrência aumenta o preço.

É sempre uma boa estratégia não se mostrar desesperado ao entrar em uma negociação e, por mais que o Liverpool pudesse negar que estava, esse barco zarpou na final da Champions League, quando Loris Karius cometeu duas falhas graves na derrota inglesa para o Real Madrid. O clube, com a ajuda de um hospital dos Estados Unidos, diagnosticou uma concussão no alemão durante aquela partida, mas, durante a pré-temporada, Karius voltou a falhar em um amistoso contra o Tranmere Rovers e mostrou que, com ou sem concussão, a sua confiança havia desaparecido.

Monchi, diretor da Roma, tinha todas as cartas na mão e determinou o preço que faria valer a pena se desfazer de um dos seus melhores jogadores. Quem tinha que responder se valia a pena pagá-lo era o Liverpool. Querendo disputar para valer os títulos na próxima temporada, não dava para adiar a contratação de um goleiro confiável e decisivo. O preço tão alto é o castigo por ter negligenciado a posição por tantos anos, desde que Pepe Reina foi embora. Simon Mignolet teve bons momentos, mas nunca se mostrou consistente. Karius foi uma aposta que não deu certo.

A primeira pedida da Roma, porém, foi alta demais. Segundo o Liverpool Echo, no primeiro contato, em maio, Monchi pediu € 100 milhões pelo jogador. Não houve negócio. Mês passado, o valor caiu para aproximadamente € 83 milhões. Ainda considerado alto demais pelos Reds e pelo Real Madrid, que sondou Alisson, mas se afastou porque não estava preparado para pagar tanto em um goleiro. Os merengues, ao contrário dos ingleses, têm em Keylor Navas um arqueiro absolutamente seguro.

Semana passada, com Alisson decidido a se transferir para o Liverpool, a Roma sinalizou que aceitaria menos, e o negócio foi fechado por volta de € 75 milhões. São € 62,5 milhões à vista, mais € 10 milhões de variáveis e € 2,5 milhões para o Internacional, clube formador. Mais do que o bastante para superar as transferências de Ederson (€ 39 milhões) e Buffon (€ 36 milhões) – há uma discussão sobre qual dos dois era o detentor do recorde porque, embora o Manchester City tenha pagado, em libras, mais do que a Juventus, em euros o valor do italiano é maior por causa da cotação da época.

“Em certo momento das últimas semanas, apareceu a oportunidade de contratar um dos melhores goleiros do mundo, e não tivemos que pensar muito, para ser honesto”, disse Jürgen Klopp. “Precisamos apenas conversar um pouco com os donos. Eles ficaram animados. Eu acho que era algo que precisávamos fazer. Ele não tem nada a ver com o preço, nós não temos nada a ver com o preço, é o mercado, é o que é, e não vamos pensar muito nisso. Mostra o valor dos goleiros, claro, neste momento. Vai acontecer muito nas próximas semanas. Estamos muito felizes”.

Alisson teve uma grande temporada pela Roma. Teve participação decisiva na caminhada do clube às semifinais e atuações incríveis em grandes jogos do Campeonato Italiano, como Internazionale e Juventus. Na virada do ano, quando o time teve uma queda de rendimento, a equipe seguia conseguindo bons resultados graças a ele e ao atacante Cengiz Ünder. Ele foi o quarto goleiro da Serie A com mais defesas de arremates de dentro da área (66) e o oitavo no total (107), de acordo com o Who Scored.

O Liverpool vai resolvendo seus principais problemas. Tinha um grande ataque, mas era fraco na defesa e não tinha um goleiro confiável. Virgil Van Dijk chegou, em janeiro, para melhorar a retaguarda. Fabinho e Naby Keita reforçaram o meio-campo. E, agora, Alisson foi contratado para ser o arqueiro que a equipe estava precisando. Com 25 anos, pode defender as metas vermelhas por muitos anos.