A Espanha viveu no limite em diversos momentos de sua campanha na Copa do Mundo de 2010. A equipe de Vicente del Bosque tinha qualidade técnica de sobra, mas encontrava dificuldades de resolver os jogos no ataque e se sustentava graças às vitórias mínimas. Dos riscos que a Roja experimentou na África do Sul, nenhum supera aquele das quartas de final contra o Paraguai. Foi um drama completo no Ellis Park, em vitória por 1 a 0 dos ibéricos, mas com doses incalculáveis de sofrimento. A Albirroja teve o triunfo a seu alcance, mas faltou competência para aproveitar a chance. O pênalti desperdiçado por Óscar Cardozo ainda gera lamentos entre os paraguaios e alívio aos espanhóis, num outro duelo agonizante que chegou aos seus dez anos nesta sexta-feira.

O favoritismo da Espanha na Copa era colocado em xeque pela falta de um futebol convincente. Depois da derrota ante a Suíça na estreia, a Roja se reergueu com duas vitórias, mas também penou contra Portugal nas oitavas – avançando graças a um gol polêmico de David Villa. Do outro lado, o Paraguai podia não ser o adversário mais badalado, mas liderou o grupo da Itália e avançou nas oitavas graças aos pênaltis contra o Japão. Era uma equipe bem montada por Tata Martino, sem tantas estrelas, mas com boas opções no ataque e uma defesa fortíssima.

Para as quartas de final, Martino deu ainda mais ênfase à marcação de sua equipe. Tirou Lucas Barrios e Roque Santa Cruz da linha de frente, para reforçar o meio-campo e deixar apenas Óscar Cardozo como homem de referência, além de Nelson Haedo Valdez se aproximando no apoio. As trincheiras armadas pelo Paraguai contiveram a Espanha, com toda a sua burocracia de girar a bola, mas quase nenhuma penetração. E não era que os paraguaios se fechassem atrás: a marcação alta dos sul-americanos forçava os espanhóis a apelarem aos lançamentos, como não estavam acostumados. Fernando Torres, mal na Copa, seguia sem se encontrar.

As chances de gol haviam sido escassas no primeiro tempo, sem que os espanhóis achassem tantas brechas na muralha albirroja. A melhor oportunidade da equipe veio com Xavi, numa bomba da intermediária que quase encobriu o goleiro Justo Villar. O Paraguai, aliás, incomodou mais no ataque. A estratégia de buscar os cruzamentos e as bolas longas dava certo. Poderia até ter rendido o primeiro gol, não fosse a arbitragem. Aos 41, Valdez superou Iker Casillas, em tento que acabaria anulado por interferência do impedido Óscar Cardozo. Os guaranis contestaram, mas sem ter o que fazer. Tudo isso aumentava a tensão rumo aos 45 minutos finais. Qualquer bola poderia ser fatal.

A agonia do Ellis Park se desencadeou mesmo no segundo tempo. Aos 13 minutos, o árbitro guatemalteco Carlos Batres apontou a marca da cal pela primeira vez, em pênalti de Gerard Piqué sobre Cardozo. O próprio centroavante partiu para a bola, depois de ter definido a classificação contra o Japão na fase anterior, mas facilitou a Casillas. O goleiro acertou o canto e, numa batida na altura de seu rosto, nem deu rebote. O capitão oferecia motivos para ser ainda mais idolatrado. Méritos também a Pepe Reina, que, meses antes, havia tomado dois gols de pênalti de Cardozo no Liverpool x Benfica das quartas de final da Liga Europa. O reserva se lembrou como foram as cobranças e passou a dica ao companheiro antes do jogo.

Melhor com a entrada de Cesc Fàbregas no lugar de Torres, a Espanha pressionou depois de se safar e também ganhou um pênalti em questão de minutos, graças a uma falta de Antolín Alcaraz sobre David Villa. Xabi Alonso converteu com categoria. O árbitro, contudo, flagrou uma invasão da área e mandou voltar. Na nova tentativa, Justo Villar acertou o canto e pegou o chute do meio-campista. Após o rebote, o goleiro ainda derrubaria Fàbregas, mas a revolta dos ibéricos não adiantou nada e o árbitro ignoraria a marcação de uma nova penalidade. O lance ainda teve uma bola salva em cima da linha por Paulo da Silva, impedindo o gol de Sergio Ramos. A Roja seguiria em frente em seu sofrimento, enquanto o Paraguai alimentava suas esperanças. Classificar-se pela primeira vez a uma semifinal de Copa estava ao alcance.

A partida no Ellis Park viu as duas equipes se lançarem em busca do gol, num jogo bem mais frenético e aberto. A Espanha, de qualquer forma, tinha mais time. E a entrada do talismã Pedro na vaga de Xabi Alonso teria sua influência no resultado final. O melhor em campo era Andrés Iniesta. O craque atormentava os marcadores no mano a mano e fazia boas jogadas pela esquerda. Primeiro forçou uma ótima defesa de Villar. Já aos 37 minutos, ele assinou a jogadaça que determinou a classificação espanhola.

Iniesta arrancou pelo meio e fez fila. Passou entre dois marcadores, deixando ambos no chão. Na entrada da área, três paraguaios vieram cercá-lo e isso permitiu que Pedro ficasse livre na direita. O maestro rolou para o jovem, que chutou com consciência, no momento em que Villar saía para abafar. A bola carimbou a trave e sobrou com Villa, que bateu colocado para escapar dos defensores à sua frente. Com um leve desvio, o chute resvalou nas duas traves antes de morrer dentro da meta. Apesar da insistência do Paraguai em não se entregar, os guaranis acabariam sucumbindo. Na última chance, após dar rebote, Casillas realizou uma defesaça para evitar o empate de Santa Cruz. A Roja respirava feliz. Pela primeira vez desde 1950 se punha entre os quatro melhores de um Mundial.

“A partida foi muito dura. O Paraguai se comportou como uma equipe excelente, que não nos deixou jogar. Nós nos sentimos mais incomodados com a bola do que nunca. Fiz as mudanças no time porque não estávamos bem com a bola e precisava refrescar os jogadores. Queria acumular gente no meio-campo para aumentar o domínio”, analisou Vicente del Bosque, depois da partida no Ellis Park.

Já Casillas recebia os elogios como salvador, não apenas pelo pênalti que agarrou, mas também pelo milagre no apagar das luzes. Avaliaria, na saída de campo: “Foi uma partida de infarto. Não foi nosso melhor encontro no Mundial, mas é assim mesmo, muito difícil. O Paraguai te põe no seu lugar e tivemos que ganhar com um gol de sorte total. Não é fácil jogar uma Copa, falamos antes de vir aqui. Ser os primeiros no Ranking da Fifa ou ter ganhado a Eurocopa não te garante na final. A prudência é o principal”.

Villa também merece uma lembrança especial. O atacante era o artilheiro isolado da Copa do Mundo até aquele momento, com cinco gols. Se o ataque da Espanha não funcionava tão bem, a culpa não era do camisa 7, que só não havia anotado um dos seis tentos assinalados pelos ibéricos até então – cortesia de Iniesta contra o Chile. O atacante não marcaria mais durante o restante do Mundial, mas sua contribuição é inquestionável.

E a Espanha campeã do mundo, em partes, precisa até mesmo agradecer ao Paraguai. Foi aquela partida dificílima que motivou mudanças no time para a sequência da Copa do Mundo. Vicente del Bosque alterou peças e mudou a tática, o que fez o desempenho melhorar contra a Alemanha, numa vitória gigantesca ao futebol espanhol. O 4-4-2 utilizado até ali se transformou num 4-2-3-1 bem mais funcional. Pedro entrou no lugar de Fernando Torres, o que levou Xavi a atuar numa posição mais centralizada. O craque comandou o triunfo ante os alemães, até que Iniesta entrasse para a história diante da Holanda.

“Não sei se aqueles cinco minutos entre os pênaltis contra o Paraguai foram os mais loucos da história da seleção ou daquela época da seleção. Mas foram de muito descontrole. Nós gostávamos de ter as partidas controladas e ali aconteceu um intercâmbio de golpes, os dois pênaltis, o erro de Xabi no segundo, o pênalti claríssimo no rebote que o árbitro não se atreveu a apitar… Foi um pouco de loucura, sem dúvida, que não podíamos ter no roteiro”, relembrou Villa, em entrevista à ESPN latina, nesta semana. “Nem esperava o rebote no chute de Pedro e tive a sorte que a bola veio no meu pé. Acertei um chute tão ajustado. Trave, trave e gol”. Um gol essencial à Espanha campeã.