O Flamengo entrou no Campeonato Brasileiro como principal candidato ao título. O elenco que possui e o desempenho na última campanha embasam as apostas sobre os rubro-negros. O Atlético Mineiro surgia também como uma potencial ameaça, não necessariamente por aquilo apresentado em campo, num ano conturbado pela pandemia e mesmo pela troca de treinador antes disso. Mas, num clube que se reforça e que confia em Jorge Sampaoli, a capacidade do Galo ficava clara. E isso se tornou expresso dentro do Maracanã, com uma vitória maiúscula dos atleticanos, se provando também na bola. O placar de 1 a 0 acabou determinado por um gol contra, mas os mineiros fizeram uma grande partida, com intensidade e muita entrega para anular os cariocas.

O Atlético estava um passo à frente na preparação. O Galo tinha a seu favor o ritmo de jogo durante a reta final do Campeonato Mineiro. Atuou no meio da semana, com uma vitória categórica sobre o América para se classificar à decisão. O Flamengo precisaria recuperar esse ritmo, semanas após o término do Carioca – quando já não apresentou uma intensidade tão grande quanto a vista de costume com Jorge Jesus. Além disso, Sampaoli leva mais tempo de trabalho do que Domènec Torrent. Natural que suas ideias estejam mais arraigadas e que o argentino também domine mais o elenco do Galo. Mas, pelos antecedentes e pela própria força do time, o Fla permanecia como favorito ao encontro.

Torrent não inventou em sua escalação e manteve o time-base do Flamengo, que vinha dando tão certo com Jorge Jesus. Não tinha motivos para mudar. Sampaoli, por sua vez, traçou sua própria estratégia. A quem já tinha entendido como vencer os rubro-negros no Brasileirão passado, e de maneira tão emblemática com o Santos, o treinador adaptou suas peças. Entrou com três zagueiros, liberou mais os alas, apostou em uma formação mais leve. E essas escolhas se mostrariam acertadas ao longo da tarde.

Foi uma partida disputada em alta voltagem, com o Flamengo tentando sair, mas encontrando um adversário que impedia a construção de seu jogo. O Atlético adiantava a marcação e o excelente trabalho do meio-campo no combate seria chave ao resultado final. Mesmo assim, a primeira chance clara seria do Fla, quando Bruno Henrique passou por Rafael e acertou o pé da trave, podendo ainda ter rolado a Gabigol. Um erro custoso, que traria outro desenho ao jogo com o tento. Antes dos 20, Éverton Ribeiro ainda forçaria uma boa defesa do goleiro Rafael.

Era uma exibição confiante e agressiva do Atlético Mineiro. Os alvinegros não aparentavam qualquer receio em encarar o Flamengo e atuavam numa velocidade até maior, com as mesmas armas que os rubro-negros – especialmente por sua pressão na marcação. E, mesmo sem criar tantas oportunidades logo de cara, o Galo chegou ao gol com 23 minutos. Guilherme Arana foi muito ativo pela esquerda durante toda a tarde, combinando-se com Marquinhos. Em uma dessas subidas, cruzou para o meio da área. Não tinha ninguém para completar, mas Filipe Luís se complicou sozinho ao marcar contra.

O Flamengo encontrava dificuldades e, para tentar empatar, precisava acelerar mais rumo ao ataque, explorando as costas da marcação. Quando Arrascaeta ficou de frente com Rafael, o goleiro salvou. Além disso, também a pressão na marcação seria essencial para tentar forçar os erros mais próximos da área do Atlético, sem que a zaga mineira saísse bem na construção. Gérson era importante neste sentido, mais adiantado. E quando o Fla mais insistia pelo empate, esses desarmes possibilitaram as melhores brechas. Faltou a aproveitar um pouco melhor, com a defesa do Galo se recuperando a tempo.

Em seu melhor momento na partida, a principal chance do Flamengo veio em uma roubada de bola no campo ofensivo. Everton Ribeiro rolou e Arrascaeta bateu colocado rente à trave. O Atlético até acertou um contra-ataque aos 37, quando Nathan passou para Savarino, mas Diego Alves fechou o ângulo. Com as dificuldades do time na transição, Sampaoli não se importou em queimar uma substituição antes do intervalo, com o volante Jair no lugar do zagueiro Gabriel. O dedo do treinador influenciava o tabuleiro.

O segundo tempo, apesar de um contragolpe perigoso de Gabigol anulado por impedimento logo de cara, veria um Atlético Mineiro ainda mais bem armado. Não tomava qualquer sufoco do Flamengo, matava as jogadas no meio-campo e tinha capacidade para incomodar bem mais no campo de ataque. Dava até a impressão de que o Galo poderia ampliar. Arana voltou a fazer Diego Alves trabalhar num chute de longe. Pouco depois, Nathan invadiu a área e deu um toque por cobertura para balançar as redes, mas estava impedido. O meia era outro em atuação bastante inspirada, e muito participativa pela intensidade que dava aos atleticanos sem a bola.

Se o Flamengo não conseguia ameaçar tanto o Atlético quanto no final do primeiro tempo, as escolhas de Torrent não ajudaram. Pedro e Michael entraram, o que poderia ser compreensível pela situação, mas para as saídas de Arrascaeta e Everton Ribeiro. Escolhas ruins, a um time que precisava de qualidade na organização. Já Sampaoli voltou aos três zagueiros com Bueno, além de renovar a energia no bloqueio mais à frente com as entradas de Marrony, Hyoran e Keno. A posse de bola era carioca, mas a situação permanecia sob o controle dos mineiros, muito mais firmes nas disputas e com mais escapes ao ataque.

O Flamengo não parecia pronto ao empate e, se chegasse ao gol, seria achado. Mal conseguiu tentar encontrá-lo. Os problemas para se aproximar da área eram evidentes e Rafael sequer precisou intervir. Além disso, a melhor condição física dos atleticanos se escancarou. Sampaoli também soube preservar esta alta rotação com as trocas bem feitas e, ao final, comemorou um grande resultado.

Um campeonato de pontos corridos depende de regularidade, sobretudo. E a exigência será maior com o calendário apertadíssimo da CBF. Neste sentido, o Atlético Mineiro pode se beneficiar pelas eliminações precoces na Copa Sul-Americana e na Copa do Brasil. Sampaoli deve ganhar mais alguns reforços e molda seu time, ainda precisando mostrar esse potencial contra diferentes tipos de adversários. Mas, neste momento, o argentino tem o antídoto para o Flamengo e mostrou como um treinador pode fazer toda a diferença. É só a primeira rodada e há muita água para rolar numa campanha cheia de incertezas, não só pelo futebol. De qualquer forma, se a ambição dos atleticanos se cumprir, estes três pontos podem se provar valiosíssimos desde já.