Há quem diga que futebol é um jogo. Alguns o descrevem como um esporte. Nós costumamos dizer que é muito mais do que isso. Algo que vai além de uma relação simples entre quem faz mais gols, muito maior do que uma disputa entre dois times. Já vimos situações suficientes para ter a certeza que o futebol é alma, coração, é algo que vai muito além de tudo. Quantas histórias já ouvimos sobre o futebol que nos emocionam? Bom, esta é mais uma.

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O relato que você lê abaixo é uma demonstração do poder do futebol em uma pessoa. O post está no Facebook e nós pedimos autorização do autor para publicá-lo por aqui.

Por Vitor Soares Tardelli*

Em pequenas alegrias cotidianas, a gente reconhece a enormidade do Futebol. Perdão pelo tamanho do texto.

Faço residência em psiquiatria, e tô no momento passando pelo CAPS, onde, basicamente, pacientes graves e/ou crônicos passam os dias em atividades que tentam enriquecer seus cotidianos.

Pois bem. Tem um paciente aqui portador de esquizofrenia paranoide, com um delírio de perseguição bem grave com quase todo mundo. Ele dificilmente sai de casa por conta disso, e se sente vigiado por câmeras escondidas até dentro do seu quarto. Não conversa com pessoas desconhecidas e desconfia de suas irmãs.

Recebi a informação, antes de conhecê-lo, hoje, de que torcemos pelo mesmo time e de que ele gosta de futebol, mas nunca teve a oportunidade de ter isso explorado pelo serviço, já que o pessoal aqui não é muito fã do ludopédio. Me senti no DEVER MORAL de fazer essa abordagem.

Não foi difícil. O paciente é xará do irmão famoso do Sr. Waldemar, e torcemos pelo último time da zona oeste paulistana pelo qual passou esse senhor.

“O xará do senhor foi técnico do meu time. O senhor gosta de futebol?”

Ignorando a pergunta, responde: “Esse Oliveira é melhor, né? Hoje é contra o Avaí às 9? Você já foi ao estádio novo?”

E a conversa desenrola, como havia anos que não desenrolava. Com um completo desconhecido. Falou de Copa América, de Castrilli, de São Marcos, comparou Velloso e Gilmar Rinaldi, enalteceu Edmundo, lavou a alma com a prisão do Marin, debochou de rivais, sorriu, riu, se divertiu. Pela primeira vez em anos, possivelmente décadas, ele não quis ir embora de onde estava. Parecia ter tomado a poção da humanização.

Na hora de ir embora, que eu tive que promover, ele manda a frase que ganhou meu dia: “mesmo horário semana que vem?”.

É só um esporte, eles disseram.

*Vitor Soares Tardelli tem 24 anos, é palmeirense e amante incondicional do futebol. Nas horas vagas, é médico e faz residência em psiquiatria na Universidade Federal de São Paulo.