* Direto do Maracanã

Quando Gabriel Jesus recebeu o lançamento de Daniel Alves, aproveitando a desatenção de Miguel Trauco em sua marcação, o ruído no Maracanã se elevou. E o grito realmente romperia os ares quando o atacante, já acompanhado de perto pelo lateral, convidou-o para uma dança. Fez que ia de um lado, foi para o outro, trançou as pernas e, voilà, tinha a brecha necessária para o cruzamento. Os gritos atingiram o seu volume máximo no momento em que Éverton, livre na área, completou às redes. O mesmo Cebolinha que, aliás, atiçou diversas vezes os decibéis no Maraca. Suas arrancadas pelo lado esquerdo sempre eram motivo para que o torcedor se agarrasse na cadeira e se curvasse para frente, esperando um toque de magia. Uma magia que se repetiu tantas vezes ao longo desta Copa América.

O Brasil conquistou o título continental contando com uma equipe firme na defesa e eficiente em suas conclusões. Mas o caminho mais curto aos gols da Seleção durante do torneio veio mesmo graças aos dribles. Houve um toque repetido de ousadia, de confiança, de essência daquilo que se espera no futebol. Não foram as bolas paradas ou as trocas de passes que renderam as principais jogadas brasileiras. Foram os dribles, que mais uma vez se repetiram no Maracanã, seja para decidir, seja para trazer a torcida junto.

A adoração por Éverton no Maraca, ovacionado em diferentes momentos, tinha os seus motivos. Os aplausos intensos quando Daniel Alves recebeu o prêmio de melhor jogador da Copa América, também. Assim como o próprio reconhecimento a Gabriel Jesus, recuperado nesta reta final de competição para garantir a taça. Os três usaram constantemente o drible como recurso. Deram uma contribuição inegável a uma campanha que, se não foi brilhante a todo o tempo, teve os seus lampejos. Lampejos que resultaram em gols.

Foram 18 dribles por jogo do Brasil, segundo os números do WhoScored. Uma média alta. Para se ter uma ideia, a Nigéria foi a melhor no quesito durante a Copa de 2018, com 16 por partida. Já entre os clubes, ninguém na Champions League ou na Premier League alcançou os 12 dribles por aparição. Números frios que se comprovam o calor das pernas, evidente na campanha.

O drible ajudou nas vitórias contra Bolívia e Peru, ainda que não tenha sido suficiente para evitar o sufoco contra o Paraguai. Ante a Argentina, se tornou protagonista de ambos os tentos. E também viraria termômetro durante a decisão contra os peruanos. Quando a Albirroja estava melhor, a resposta do Brasil saiu em forma de malemolência, que inflou o peito do time e o ajudou a sair em vantagem. Ainda que este também seja um time empenhado na defesa, e foi isso, aliado com a inteligente movimentação dos atacantes, que garantiu o importantíssimo segundo gol.

O Maracanã começou animado. Cantou “Mil Gols” substituindo Maradona por Guerrero, alternou gritos entre entre os setores atrás dos gols, buscou abafar a barulhenta (mesmo que menor) torcida do Peru. Havia até espaço para músicas mais velha guarda, como o “Ê Le Le Ô, Brasil!”, que contou com notável adesão. Mas sem que houvesse o ritmo de um instrumento para guiar os cânticos, os dribles faziam este papel. Pernas que se transformavam em batuta para elevar a orquestra ao redor do gramado. Funcionou bem durante os 45 minutos iniciais.

O segundo tempo seria um pouco mais escasso, nos dribles brasileiros ou no som. Depois da explosão na saída para o intervalo, com o desempate de Gabriel Jesus, a torcida demorou um pouco mais a voltar e só pegou no tranco com a sequência de dribles de Coutinho. Também embalaria nas tentativas de Everton, que abriram o corredor ao contestável pênalti. Embora tenha precisado se erguer mesmo diante da desvantagem numérica, após a expulsão de Jesus. Que o volume não tenha sido constante, o terceiro tento resultou em um urro já aliviado, seguido pelo “olé”, pelo “campeão voltou” e por todo o pacote de clichês a quem ia à forra.

É difícil dizer o tamanho que esta Copa América representará à história da Seleção. Não teve o desafogo de 1989, não teve a imposição de 1997, não teve a recuperação de 1999, não teve o épico de 2004, não teve a gozação de 2007. Faltou empolgar um pouco mais, ainda que os estádios cheios nesta reta final esquentem uma relação que começou gelada. Mas se há uma lembrança para ficar nesta campanha, são os belos gols. Os lances em que o drible se tornou chave. Em que desbravou as defesas e, assim, reatou os laços com uma torcida que sempre aguarda esta faísca.