O clássico histórico entre Coreia do Norte e Coreia do Sul, pela primeira vez disputado de maneira oficial em Pyongyang, chama atenção muito mais por seu enredo do que pelo futebol em si. Afinal, as informações sobre o empate por 0 a 0 no Estádio Kim Il-sung eram mínimas, sem transmissão ao vivo e sem a presença da imprensa. Somente dois dias depois da partida, durante o desembarque em Seul, é que os membros da delegação sul-coreana expuseram suas impressões sobre o jogo. Segundo eles, um clima bélico prevaleceu durante os 90 minutos. Uma noção reforçada pelas primeiras imagens de bola rolando, enfim divulgadas.

“Essa partida foi como uma guerra. Nunca tinha visto algo assim antes no futebol. Os norte-coreanos nem sequer fizeram contato visual quando você falava com eles, sem mencionar a resposta. Eles erguiam os cotovelos e as mãos, além de usar os joelhos nas disputas pelo alto”, declarou o presidente da federação sul-coreana, Choi Young-il. O dirigente ainda comentou que a decisão de manter os portões fechados no Estádio Kim Il-sung os pegou de surpresa: “Esperávamos que 50 mil pessoas entrassem no estádio, mas isso não aconteceu”.

O presidente da federação sul-coreana apresentará uma reclamação junto à Fifa sobre o jogo. Segundo o dirigente, a delegação da Coreia do Sul ficou isolada no Koryo Hotel, que não tinha outros hóspedes. Eles não puderam estabelecer contato fora do local e seus celulares haviam ficado na embaixada da Coreia do Sul em Pequim, onde fizeram escala. Choi também questionará a decisão dos norte-coreanos em proibir a entrada de torcedores estrangeiros e de jornalistas na partida.

Já o capitão da Coreia do Sul, o astro Son Heung-min, comentou a rispidez que sua equipe encontrou dentro de campo: “A partida foi muito agressiva, a um ponto que acho uma grande conquista retornar sem que ninguém tenha se lesionado. Os jogadores norte-coreanos estavam com as emoções afloradas e eram muito duros. Em alguns momentos, houve trocas de palavras abusivas. Foi difícil se concentrar, porque você entra pensando em evitar contusões primeiro”.

As afirmações de Son são corroboradas pelo vídeo de melhores momentos divulgado pela federação da Coreia do Sul nesta quinta. A Coreia do Norte não permitiu a transmissão ao vivo, mas havia prometido um DVD com o jogo na íntegra. As imagens estavam em qualidade tão baixa que o canal KBS cancelou a exibição do tape, já que o material não era adequado aos serviços de alta definição. De fato, até mesmo no YouTube o vídeo apresenta uma qualidade inferior, dando a impressão de que foi gravado há duas décadas. A edição mostra uma porção de entradas duras. Foram poucas chances de gol, com os anfitriões levando mais perigo até o início do segundo tempo, antes que os visitantes botassem um pouco mais de pressão no final.

Ministro da Unificação na Coreia do Sul, Kim Yeon-chul falou sobre o jogo em uma sessão parlamentar em Seul nesta quinta-feira. O político classificou como “muito decepcionante” a maneira como a Coreia do Norte tratou a ocasião. Para ele, a partida refletiu o impasse nas relações entre as duas Coreias. Nos últimos meses, as aproximações foram congeladas diante da falta de diálogo dos norte-coreanos com os Estados Unidos sobre suas armas.

A decisão da Coreia do Norte em barrar jornalistas e torcedores do Sul é vista como uma expressão política de seu descontentamento, diante da proximidade dos sul-coreanos com os americanos. No entanto, segundo especialistas consultados pela Associated Press, a opção por fechar o estádio seria uma maneira de evitar questionamentos sobre um ambiente injusto aos visitantes. As expectativas eram de um clima hostil nas arquibancadas. Alguns analistas também apontam que os norte-coreanos estavam preocupados com a possibilidade de uma derrota em campo, o que seria visto como uma humilhação. O jogo de volta, possivelmente em Seul, acontecerá em maio de 2020.