Campinense, ASA de Arapiraca, Central de Caruaru e América de Natal, clubes com experiência em divisões superiores do futebol brasileiro, ficaram para trás. O Jacuipense precisou superar todos eles para chegar às quartas de final da Série D. O duelo decisivo foi contra o cearense Floresta. Após o empate por 2 a 2 fora de casa, a vitória pelo placar mínimo na Arena Valfredão, em Riachão do Jacuípe, valeu o acesso inédito ao clube que tem como foco a formação de jogadores.

O Esporte Clube Jacuipense foi fundado em 1965, na cidade de Riachão do Jacuípe, região metropolitana de Feira de Santana, a aproximadamente 200 quilômetros de Salvador. O IBGE estimou sua população em 33 mil pessoas ano passado. O clube teve algumas participações modestas na primeira divisão do Campeonato Baiano na década de noventa e disputa a elite do torneio estadual sem pausas desde 2013. A vaga na quarta divisão deste ano foi conquistada por meio do sexto lugar no Baianão de 2018.

A novidade dessa fase do Jacuipense é a parceria com a empresa do ramo de entretenimento Salvador Produções, responsável por festivais de música na capital baiana e com artistas como Léo Santana e Parangolé em seus quadros. Em dezembro de 2018, o diretor executivo da Salvador Produções, Gegê Magalhães, assumiu a presidência do clube no lugar Felipe Sales, atual presidente do Conselho Deliberativo e que foi o manda-chuva durante nove anos. “Na parte da base, temos uma parceria longa, há mais ou menos cinco anos”, afirma em entrevista exclusiva à Trivela o atual presidente do clube e diretor executivo da Salvador Produções, Gegê Magalhães. “Na parte profissional, estamos atuando há dois anos”.

O interesse da Salvador Produções no Jacuipense foi a formação de atletas. Prospectar jovens e vendê-los para outros times. Gegê Magalhães tem na ponta da língua a lista de grandes do futebol brasileiro que beberam da sua fonte. O Palmeiras, por exemplo, contratou Railam, de 14 anos, em setembro do ano passado. Ele também cita Vitória e Bahia, além do Athletico Paranaense, com quem o clube baiano firmou uma parceria mais profunda em 2016.

“Temos um trabalho muito forte com a base. Estamos tentando ter o que há de mais moderno em termos de formação de atleta, toda a parte fisiológica e psicológica desde o início”, diz. Naturalmente, a maior parte do time do Jacuipense é formado em casa, como Wesley Machado de Oliveira, o Popó, autor do gol do acesso à terceira divisão, mas ninguém nega a importância da experiência. Atletas rodadas como Marcelo Nicácio, Ueliton e Danilo Rios forneceram a casca que o time precisou para navegar pelas dificuldades da Série D.

E o Jacuipense sabe muito bem quais elas são. Em 2015, precisou abrir mão da disputa da quarta divisão por falta de dinheiro. Atualmente, o clube sobrevive graças aos aportes da Salvador Produções, mais de 70% o orçamento, segundo Gegê Magalhães. “Como todo clube que está na Série D e até na própria C, não vivemos de receitas do clube. A parte empresarial é que alimenta a parte financeira. Estamos fazendo um investimento. Não voltou 100%, mas está voltando devido aos jogadores que estão sendo vendidos. Estamos tranquilos. Sabemos que o investimento para a Série C é maior e vamos buscar uma reformulação agora, de investimento, patrocinadores e parceiros”, conta.

Ainda há uma escassez de estrutura no Jacuipense. O time principal passa a maior parte do tempo em Salvador, onde treina na Universidade Federal da Bahia, no bairro de Ondina, no Fazendão ou no Vitória, “um grande parceiro”, segundo Magalhães. Às vezes, nas suas próprias instalações de categoria de base, mas essa opção não é a ideal. Por contarem com campo sintético, oferecem condições diferentes às encontradas no jogo. Há o desejo de fazer um centro de treinamento em Riachão, onde Magalhães promete que o time ficará mais tempo durante a Série C.

Magalhães reconhece que a parte financeira do clube ainda não é 100% profissional. “Eu não tenho sede própria, não tenho Centro de Treinamento. Tenho para a base, mas não para o profissional. Preciso de um investimento muito alto para profissionalizar o time a ponto de brigar. Já estou entre os 60 maiores times do Brasil, mas, para brigar pela Série B e A, precisamos realmente contar com um trabalho muito forte da nossa base porque não vou ter contratações de peso, nem orçamento para disputar de igual para igual essas séries. Vamos buscando o crescimento, sem muita pressa. Não temos pressa”, diz.

O estádio é outro ponto importante. O Valfredão tem capacidade para apenas 5 mil pessoas. Segundo o boletim financeiro da CBF, 3.000 estiveram presentes para o jogo decisivo contra o Floresta, a R$ 15 por cabeça – o documento registra todos os ingressos como meia-entrada. Na última temporada, a entidade administradora do futebol brasileiro exigiu palcos para pelo menos 10 mil pessoas a partir da segunda fase da Série C. “Já começamos uma conversa com a prefeitura de Jacuípe (liderada por Zé Filho, do PSD, desde 2016). Eles prometeram melhorias para atender tudo que a CBF exige para jogos da Série C. Não depende apenas de nós, mas a cidade estava toda envolvida com esse jogo”, argumenta Magalhães, lembrando que o Valfredão é um estádio municipal. O estádio foi um alçapão: o Jacuipense ganhou os seis jogos em casa, sofrendo apenas um gol, do Central.

O acesso nesta temporada afugentou um breve histórico de bater na trave. A primeira participação do Jacuipense na Série C, em 2014, terminou bem nas quartas de final, com derrota para o Confiança, por 2 a 0. Quatro anos depois, conseguiu ser o 16º melhor colocado –os 15 melhores vices passavam ao mata-mata. Desta vez, não houve quem o parasse. Superou o grupo com cinco vitórias e uma derrota contra Campinense, ASA e Vitória-PE. Despachou o Central nos pênaltis e ganhou do América por 1 a 0 no agregado, antes de enfrentar o Floresta. Pega o Manaus na semifinal.

O que foi diferente desta vez? “Eu não participei das últimas gestões”, alerta Magalhães. “Acredito que foi essa evolução do profissionalismo com o qual a gente vem tratando o futebol do Jacuipense. Estamos buscando dar uma estrutura boa para nossos jogadores, um suporte na parte de fisioterapia, médicos, clínicas de recuperação. Acho que a questão mesmo, sem desmerecer as outras campanhas, é que este ano entramos focados, com mais profissionalismo. O que estamos dando de melhor para a base estamos dando para o profissional também”.

Ele afirma que a base do time está junta há quase dois anos, sendo treinada por Jonilson Veloso. “É um grande treinador, extremamente estudioso, estuda os adversários, o que tem de inovação no futebol, uma pessoa calma, que conversa com os atletas, busca realmente tirar o melhor dos atletas. Para nosso perfil de formar jogadores, não poderia haver um profissional melhor do que o Jonilson”, opina.

Agora na Série C, o Jacuipense tem o sonho de todo clube pequeno do Brasil: um calendário fixo. Salvo rebaixamento, sabe que disputará o Campeonato Baiano e a terceira divisão, o que facilita muito o planejamento e o trabalho de Gegê Magalhães, acostumado a lidar com artistas da música e, agora, também da bola. “Não é muito diferente. Eu vejo mais uma sinergia entre as duas coisas. O que me choca talvez seja a exigência e o medo da exigência do público. No futebol, eu tenho que entregar o melhor espetáculo que posso, mas o resultado às vezes não vem, e a cobrança é muito maior. No entretenimento, o que vai acontecer é um ou outro não gostar do show, mas não tem a cobrança que o futebol pode vir a ter”, encerra.

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