O Fluminense tem todo o direito de encher o peito e comemorar. O time demonstrou enorme competência para se sagrar como o primeiro campeão da Primeira Liga. Depois de passar em uma chave difícil na primeira fase, que contou com a eliminação do Cruzeiro, o Tricolor derrubou o Internacional nos pênaltis nas semifinais. Já na decisão, diante de 23 mil espectadores em Juiz de Fora, a equipe de Levir Culpi soube se impor na boa partida contra o Atlético Paranaense. A arrancada fulminante de Marcos Júnior garantiu o triunfo por 1 a 0 e permitiu a comemoração dos cariocas. A dúvida é se a Primeira Liga acabará como uma conquista esparsa no currículo do Flu ou se o Tricolor será apenas o primeiro em uma lista de campeões, caso a competição se consolide de verdade.

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Em diversos aspectos, a Primeira Liga teve êxito. Diante dos combalidos estaduais, aliás, não seria tão difícil apresentar números melhores. Segundo Rodrigo Mattos, em seu blog no UOL, a média de público foi o triplo dos estaduais, assim como houve boa audiência na televisão paga. Enquanto isso, 76% dos jogos foram rentáveis – ou seja, não causaram prejuízos a clubes e federações, como costuma ser praxe no primeiro semestre do futebol brasileiro. E o próprio interesse de grandes clubes do Sul e do Rio de Janeiro motivou o interesse dos torcedores, com partidas de bom nível técnico.

De qualquer forma, por todas as movimentações desde o ano passado, a Primeira Liga deixou uma impressão aquém das expectativas que gerou. O calendário esburacado e os poucos jogos prejudicaram uma maior mobilização em torno do torneio. Além disso, a ausência do Maracanã também diminuiu o apelo junto aos cariocas e nem todos os sulistas a trataram como prioridade. Por fim, a comercialização do torneio não cumpriu a sua meta, com um contrato de TV abaixo dos estaduais e parceiros comerciais que não alavancaram muito as receitas.

Embora tenha se lançado como alternativa lucrativa aos clubes, e até tenha garantido benefícios, a Primeira Liga pecou justamente por não ser tão organizada quanto se prometia. As brigas com a CBF e os próprios conflitos internos entre os seus dirigentes tirou o embalo. Resultou em uma competição que, independente dos atrativos, preencheu buracos e não diminuiu as atribuições dos clubes em seus estados – pelo contrário, em alguns casos até houve pressão pelo mau desempenho. Esteve longe de acompanhar o impacto da Copa do Nordeste, outro parâmetro de liga no Brasil, diante da representatividade e da estruturação.

Desta maneira, o maior entrave para o crescimento e o sucesso contínuo da Primeira Liga está nela mesma. Há mais tempo para acertar a próxima edição com a CBF, podendo apresentar argumentos fundamentados após a primeira experiência. Ainda assim, as brigas internas deixam dúvidas sobre o futuro, como relata Marcus Alves, no site da ESPN. As rusgas entre os cartolas atravancam a competição especialmente em seu desenvolvimento, sem deixar tão claros os seus objetivos. Não há consenso em temas como o número de datas, as cotas de cada clube, o número de representantes ou mesmo a relação com a CBF pensando em 2017. Se quer mesmo se consolidar como uma nova via no início do calendário, a Primeira Liga não pode sofrer com as velhas vaidades e joguetes políticos que há tanto tempo minam as capacidades do futebol brasileiro. Mais que prometer, cumprir é fundamental.