O desempenho em campo do Flamengo de Jorge Jesus, campeão da Copa Libertadores e do Brasileirão de maneira quase simultânea com um futebol ofensivo, criativo e que valoriza a qualidade técnica, despertou nos últimos meses a previsível comparação com o lendário esquadrão que o clube formou em sua geração mais vitoriosa, no início dos anos 1980 – em especial pelo feito de repetir o título sul-americano após 38 anos.

Observando mais atentamente e ampliando um pouco mais o olhar para todo o impacto sobre o jogo no Brasil representado pela chegada – e sobretudo pelo sucesso quase imediato – do treinador português por aqui, ela evoca, talvez com mais propriedade, outra passagem um pouco mais distante da história rubro-negra: o período em que o técnico paraguaio Manuel Fleitas Solich esteve à frente do time, durante boa parte dos anos 1950 e início dos 1960.

Naquele momento, como hoje, havia um Flamengo com fome de conquistas, disposto a arriscar com um nome novo, trazido de fora, sem vícios do futebol brasileiro. E, da outra parte, um treinador também oriundo de outra cultura e ao mesmo tempo antenado com a vanguarda tática mundial daquele momento, apresentando ideias quase nunca vistas até então por aqui e que, em seu tempo, chegariam a refletir até na seleção brasileira.

A comparação expositiva de métodos, trabalho ou perfil entre os dois treinadores, no entanto, para por aqui. O foco deste texto incide basicamente sobre os principais aspectos da passagem de Solich pela Gávea. Porém, suas semelhanças e diferenças mais notáveis em relação a Jorge Jesus podem ser lidas nas entrelinhas – guardados, é claro, os devidos momentos no futebol brasileiro (e mundial) de então e de hoje.

Mudança necessária

No fim dos anos 1930, o Flamengo já ousara ao trazer da Europa o húngaro Dori Krüschner com o intuito de atualizar o time em conceitos táticos. O estrangeiro, porém, não foi visto com bons olhos pelo público e pela imprensa ao tentar implementar o WM em voga no Velho Continente. Em especial ao decidir recuar o classudo médio Fausto dos Santos (já sem fôlego em virtude da tuberculose que o mataria poucos anos depois) para o posto de zagueiro central.

VEJA TAMBÉM: Os 90 anos de Dequinha, o elegante capitão do segundo tri carioca do Flamengo

A segunda grande ousadia seria a contratação de Manuel Agustín Fleitas Solich, paraguaio com longa carreira de jogador e treinador no futebol de seu país e também no argentino. Solich havia dirigido a seleção guarani na Copa do Mundo de 1950 e nos Campeonatos Sul-Americanos (atual Copa América) de 1949 e 1953, em ambos com vitórias marcantes sobre o Brasil – no segundo deles, por duas vezes, em resultados que acabaram valendo o título.

O Flamengo naquela altura enfrentava uma fila que já passava dos oito anos sem conquistar o Campeonato Carioca – desde seu primeiro tri, entre 1942 e 1944. O técnico daqueles títulos, Flávio Costa, havia deixado o clube em 1946 seguindo para o Vasco, retornado em 1951 e agora, janeiro de 1953, pegava de novo o rumo de São Januário, deixando o time rubro-negro de modo interino nas mãos do ex-jogador (e capitão) Jayme de Almeida.

O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, conhecera e se impressionara com o trabalho de Solich já no ano anterior, e tinha seu nome em mente para fazer do Flamengo enfim uma máquina pronta para ganhar títulos. No Sul-Americano de Lima, a crônica esportiva brasileira também ficara bastante impactada com o alto nível de competitividade da seleção guarani. A resistência ao técnico, porém, estava dentro do Flamengo.

Por ironia, alguns dirigentes do clube faziam forte campanha por outro estrangeiro, o uruguaio Ondino Viera. Este, no entanto, já era um velho conhecido do futebol carioca desde o fim da década de 1930, com passagens por Fluminense, Vasco, Bangu e Botafogo, levantando títulos cariocas com os clubes de Laranjeiras e de São Januário. O velho Ondino, porém, era mais do mesmo para a época e não contava com a simpatia de Gilberto Cardoso.

Decidido, o presidente rubro-negro viajou a Lima para conversar com Solich durante o Sul-Americano. Depois, os dois se encontraram em Buenos Aires – onde o Fla disputava um torneio e também onde o treinador residia – e enfim o contrato foi assinado. Solich se juntava uma pequena colônia paraguaia na Gávea, formada pelo goleiro García, pelo atacante Benítez e pelo médio Modesto Bria, já em vias de trocar os gramados pela comissão técnica.

De início, o técnico preferiu apenas observar o time comandado por Jayme de Almeida, que acabaria conquistando o torneio citado, um quadrangular contra Botafogo, Boca Juniors e San Lorenzo. Mais tarde, ao assumir o controle do time, usou o Torneio Rio-São Paulo, que marcava aquele início de temporada, para que os jogadores se ambientassem às suas ideias. Quando o Carioca começou, em julho, o Flamengo já estava em ponto de bala.

Os fundamentos de Solich

Para se entender o tamanho da revolução colocada em prática por Fleitas Solich no Flamengo e no futebol carioca e brasileiro é preciso antes de tudo compreender o contexto. Naquele começo dos anos 1950, jogava-se aqui um futebol mais lento, cadenciado e sobretudo centrado no virtuose. Um jogo em que o craque ditava o ritmo e resolvia as partidas, com total liberdade para exibir sua técnica. O drible a mais era não só permitido como incensado.

VEJA TAMBÉM: Leandro, 60 anos: mestre da lateral, ídolo (e torcedor) gigante do Flamengo

Era também um futebol em que o velho sistema WM (numericamente, uma espécie de 3-2-2-3) ainda dominava – especialmente em sua variante criada aqui, a chamada “diagonal”, com o quarteto de médios e meias formando mais um losango que um quadrado. A bem da verdade, o WM ainda era o sistema dominante no mundo, mas já tinha seus dias contados – muito embora a imprensa daqui publicasse as escalações no ainda mais antigo 2-3-5.

No Brasil, diz-se que Martim Francisco havia sido o primeiro a adotar conscientemente o esquema 4-2-4 no Villa Nova campeão mineiro de 1951. No Rio, porém, o sistema só seria visto com a chegada de Solich. Especialmente quando ele passou a escalar o zagueiro Servílio como o que se conhecia então por médio direito, mas que, na prática, significava formar uma dupla de beques de área com o central Pavão. Aí já havia ficado claro.

Após uma goleada de 7 a 2 do Flamengo no Bangu na abertura do returno do Carioca, o jornalista Luiz Mendes (que se tornaria um dos comentaristas mais respeitados do Rio) escreveria na Esporte Ilustrado: “A introdução do jogador Servílio no posto que Jadir deixou vago e o recuo de Marinho para beque de extrema deu consistência nova e mais segura à defesa do clube da Gávea”, antes de explicar o então inusitado desenho tático da equipe de Solich.

“Aliás, o médio direito do Flamengo precisa ser meio zagueiro. Isso porque o sistema defensivo do clube rubro-negro coloca quatro homens atrás, formando uma primeira linha de defesa, dois no meio – Dequinha e Rubens – um pela esquerda e outro pela direita – ficando na frente quatro homens que sempre recebem a cooperação dos dois que ficam entre eles e os quatro da retaguarda”, observava Mendes. Era setembro de 1953.

Não foi, porém, apenas no desenho tático e no sistema praticamente inédito por aqui que Solich trouxe novidades. O estilo implementado pelo paraguaio também diferia enormemente do que era aplicado aqui. Na Gávea, a ordem era um jogo direto, vertical, veloz e solidário, com a defesa coberta por zona e os pontas recuando para fechar os espaços. Tudo isso ancorado numa excelente preparação física, exigência natural para a intensidade proposta.

VEJA TAMBÉM: Cláudio Coutinho, 80 anos: O legado de um dos técnicos mais inovadores do futebol brasileiro

Numa excelente entrevista à Manchete Esportiva em outubro de 1956, na qual explicava em detalhes como armava suas equipes, Solich era até mais radical quanto à nomenclatura do sistema de jogo que empregava: em vez de 4-2-4, segundo ele, “a fórmula certa seria mais 5-5” (ou seja, cinco homens atacando e cinco defendendo). Espantado, o célebre jornalista Albert Laurence indagou sobre o meio-campo, ao que o Feiticeiro respondeu:

“Podemos abandoná-lo. O meio do campo é só para mostrar jogo bonito. Praticamente não interessa. E ganha-se jogos defendendo sua área e contra-atacando de repente em grande velocidade, com um jogo direto, sem atrasar-se em jogadas bonitas no meio do campo. Acho, aliás, que o futebol direto do 5-5 pode tornar-se muito agradável como espetáculo, quando perfeitamente executado”, explicou o paraguaio.

Em outra frase sobre o mesmo tema e que se tornaria célebre, o Feiticeiro afirmava: “O meio-campo é por onde a bola passa, não onde ela fica”. Se para aqueles anos 1950, em que praticamente todos os clubes tinham um “solista” no setor, esse comentário parecia vindo de outro planeta, causava não menos estranhamento o hábito de Solich de parar os treinos com seu apito quando um jogador começava a driblar em excesso.

O paraguaio, no entanto, não era inimigo do drible: apenas considerava que ele só seria mais bem aplicado num caso em que não fosse possível passar a bola a um companheiro melhor colocado. Entusiasta do jogo de primeira, que tinha parentescos com a escola húngara contemporânea e o “push-and-run” inglês, o técnico proibia seus atletas de pararem e dominarem a bola quando sob marcação, já que nesse caso “é mais fácil destruir que construir”.

O Feiticeiro

Vale lembrar que esse estilo de jogo era aplicado em todas as categorias do futebol rubro-negro: Solich tomava contava do time de cima da mesma forma que orientava as equipes juvenil e de aspirantes. E tudo que era necessário para colocar em prática as ideias do treinador em campo – desde os pesados treinos físicos até o incessante trabalho de fundamentos para apurar passes, chutes e cabeceio – era feito com rigor e atenção já a partir da base.

VEJA TAMBÉM: Há 40 anos, o Deus da Raça provocava o big bang rubro-negro: Rondinelli e o gol que tudo mudou no Fla

As categorias inferiores recebiam toda essa atenção porque Solich era um grande revelador de talentos, ao estilo de Matt Busby. Não se furtava a promover jovens, até por dois fatores: em geral assimilavam com mais facilidade as ordens táticas e tinham mais fôlego para cumprir o que o time exigia em campo. E ainda podiam ser um fator surpresa, como ocorreu na partida que marcaria a estreia de Dida, um clássico diante do Vasco em outubro de 1954.

Benítez e Evaristo, pontas-de-lança, estavam lesionados e o veterano ponteiro Esquerdinha era dúvida. Para o primeiro caso, não restava opção que não recorrer ao mirrado garoto alagoano que vinha brilhando nos aspirantes. Para o segundo, em tese, entraria o reserva imediato, um certo Zagallo. Mas Solich surpreendeu: em vez deste, levou a campo outro garoto mirrado, Babá, também do time de aspirantes. Por um motivo simples: entrosamento.

A ideia era a de que a presença da dupla que formava a ala esquerda dos aspirantes seria benéfica a ambos, um ajudando o outro a se tranquilizar e se familiarizar. E de fato, eles cresceram para a ocasião: os dois garotos provocaram o caos na retaguarda cruzmaltina, sendo o destaque na vitória rubro-negra por 2 a 1. Mas nem por isso Zagallo perderia seu valor. Pelo contrário: pelas mãos do paraguaio, transformaria-se em outro jogador.

Vindo da base do America para a rubro-negra no início da década, Zagallo chegara à Gávea como um ponta rápido e driblador, mas nada além disso. E assim se mostrava quando começou a figurar no time de cima ainda sob o comando de Flávio Costa no fim de 1952. Com Solich, o jogador deixaria de lado as firulas e viraria um ponta armador, versátil e inteligente. Auxiliava a cobertura defensiva por aquele lado e puxava os contra-ataques.

A versatilidade, aliás, era outro trunfo com que contava aquele Flamengo, em especial no ataque. Índio podia jogar como centroavante ou ponta-de-lança. Paulinho foi ponta-direita e meia-direita antes de se sagrar artilheiro do Carioca de 1955 como centroavante. Evaristo tinha facilidade de jogar em todas as posições do quinteto ofensivo. As opções de elenco e possibilidades de formação eram inúmeras, e sempre escolhidas de acordo com o adversário.

Como se tudo isso ainda não bastasse, havia a característica que levara o treinador a receber o apelido de “Feiticeiro” no Brasil (ou “El Brujo” no Paraguai): a estupenda leitura tática dos jogos e a habilidade de mudar inteiramente o panorama deles mexendo apenas na posição das peças das quais dispunha em campo – lembremos: na época, as substituições não eram permitidas em competições nas quais vigoravam as regras oficiais, como o Campeonato Carioca.

Logo no início do certame de 1953 houve a emblemática partida na Rua Bariri contra o Olaria, na época dirigido pelo ex-zagueiro rubro-negro Domingos da Guia. Faltando cerca de dez minutos para o fim, os alvianis venciam por 1 a 0, e o Fla não ia bem, com o garoto Maurício sentindo o peso de substituir o ídolo Rubens na meia direita. Até que o Feiticeiro Solich decide entrar em ação e girar quase completamente o posicionamento de seu ataque.

VEJA TAMBÉM: Os 90 anos do “Doutor” Rubens: De fenômeno de massa a relíquia esquecida

Maurício é remanejado para a ponta-esquerda. Esquerdinha, por sua vez, troca de lado e vai para a ponta-direita. Joel, o dono desta posição, passa a meia-armador, centralizado, municiando Índio e Benítez. Em sete minutos, o Fla marca três vezes e decreta a virada. A mais célebre mudança radical feita por Solich na equipe, porém, viria antes da última partida da melhor-de-três que decidiu o Carioca de 1955 e que daria o tricampeonato aos rubro-negros.

O Flamengo, vencedor dos dois primeiros turnos, enfrentava o America, que levou o terceiro ao aproveitar o cansaço dos rubro-negros na reta final. No primeiro jogo da decisão, os comandados de Solich venceram por 1 a 0, gol de Evaristo no último minuto. No segundo, numa tarde de 1º de abril, os rubros aplicaram uma estrondosa goleada de 5 a 1. Três dias depois viria o desempate, para o qual o treinador tomaria decisões radicais.

Para conter o centroavante americano Leônidas “da Selva”, forte pelo alto e trombador, Servílio entraria na quarta zaga no lugar do titular Jadir. A outra mudança era no ataque: Paulinho, nada menos que o artilheiro do campeonato, era sacado do time para a entrada do garoto Dida, com Evaristo sendo remanejado da ponta de lança para o comando do ataque. E o Fla deu o troco numa final épica, vencendo por 4 a 1. Quatro gols de Dida.

Antes da partida, quando soube que estava fora da final, Jadir chorou. E Paulinho se revoltou. Mas ao fim dos 90 minutos, Solich pôde mostrar que tinha razão. Até porque para ele não era problema barrar quem quer que fosse. O antigo ídolo Rubens havia sentido isso. Meia de futebol filigranado e drible curto, mas com tendência a prender a bola um pouco mais, entrou em rota de colisão com o treinador e foi afastado, mesmo amado pela massa.

Os hábitos de beber e fumar, intoleráveis para o rigoroso Solich, também contribuíram muito para o afastamento do “Doutor Rúbis” do time, assim como o de outros jogadores. Do ponto de vista do preparo físico exigido para realizar o futebol intenso do time, fazia total sentido. Mas a barração revelava algo além: no Flamengo não havia espaço para vedetismos. Nenhum jogador poderia se considerar acima do time, por mais talentoso ou idolatrado que fosse.

Aquele Flamengo era certamente o melhor exemplo em seu tempo da predominância do coletivo sobre a individualidade. Não era o Flamengo de Dida, ou de Evaristo, ou de Rubens, ou de Joel, ou de Dequinha, ou de nenhum outro jogador. Era sobretudo o Flamengo de Solich. As digitais daquele time eram as do Feiticeiro. Seria ele o grande comandante da equipe que levantaria o primeiro tricampeonato carioca do recém-inaugurado Maracanã.

As conquistas

No primeiro título, o de 1953, a conquista veio com uma rodada de antecipação e 21 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas nas 27 partidas. O ataque foi o mais positivo do torneio: 77 gols. E o time-base foi bem definido: o paraguaio García no gol; Marinho e Jordan nas laterais; Servílio e Pavão na zaga; Dequinha e Rubens no meio; enquanto Joel, Índio, o também paraguaio Benítez e Esquerdinha formavam o quarteto ofensivo.

VEJA TAMBÉM: 20 jogos marcantes de clubes brasileiros em torneios amistosos no exterior

No segundo, mais uma vez vencido com uma rodada de antecedência, a campanha foi quase idêntica, apenas com uma vitória a menos e um empate a mais. Desta vez, o destaque foi a defesa, a menos vazada do certame (27 gols sofridos). O time-base, no entanto, foi alterado: o alagoano Tomires entrou na lateral-direita, Jadir retomou seu lugar na zaga ao lado de Pavão, enquanto Evaristo e Zagallo ganharam as vagas de Benítez e Esquerdinha.

O terceiro foi o mais longo de todos: a campanha começou em 7 de agosto de 1955 e só terminou em 4 de abril do ano seguinte, estendendo-se por 30 partidas, com 21 vitórias, dois empates e sete derrotas. Mais uma vez, o time ostentou o ataque mais letal: 87 gols marcados. O time outra vez foi alterado: o argentino Chamorro entrou no gol, Paulinho ganhou mesmo o lugar de Rubens, e Dida passou a se revezar com Evaristo na ponta-de-lança.

Nos anos seguintes, o título carioca não viria, mas o time andaria sempre perto. Em 1956, em um campeonato mais curto (o terceiro turno fora abolido), o Flamengo perdeu o tetra por diversos motivos: o cansaço, as lesões de nomes importantes (Dequinha, onipresente no tri, ficou várias rodadas de fora), uma certa dose de máscara em alguns jogos, além de erros de arbitragem em outros. A taça acabou ficando com o Vasco de Bellini e Vavá.

Em 1957, numa briga cabeça a cabeça com Fluminense e Botafogo, o caneco foi perdido com uma sequência de empates na reta final, deixando o time apenas dois pontos atrás do Alvinegro de Garrincha, Didi e Nilton Santos, treinado por João Saldanha. Curiosamente, o Fla não perderia para nenhum destes campeões: somou uma vitória (1 a 0) e um empate (1 a 1) contra o Vasco de 1956 e duas igualdades (3 a 3 e 1 a 1) contra o dono da taça no ano seguinte.

Também sob o comando de Solich naquelas temporadas, o Flamengo obteve triunfos expressivos, entre eles os 6 a 4 sobre o mítico Honvéd de Puskas, no Maracanã, no dia 19 de janeiro de 1957. Aquele seria o primeiro de uma série de cinco amistosos entre as duas equipes disputados no Rio e em Caracas, entre janeiro e fevereiro, que terminou com duas vitórias para cada lado e um empate, mas com os rubro-negros anotando um gol a mais (18 a 17).

O prestígio de Solich seguia intacto em 1958, a ponto de, no início daquele ano, ser seriamente considerado para o posto de técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suécia. Quanto mais porque, depois de ter revelado vários jogadores para o escrete canarinho e vendido mais de um ataque inteiro (Paulinho, Rubens, Duca, Índio, Evaristo, Benítez, Esquerdinha), o paraguaio havia conseguido formar na Gávea outra equipe tão forte quanto.

Na época, alegou-se que Solich não era diplomado, e que por isso havia sido preterido pela CBD. Típico argumento para escamotear o real motivo do veto ao treinador: sua nacionalidade. Em fevereiro daquele ano, a escolha surpreendente acabou recaindo sobre Vicente Feola, técnico duas vezes campeão paulista com o São Paulo nos anos 40, auxiliar de Flávio Costa na Copa do Mundo de 1950 e que vinha trabalhando como supervisor no Morumbi.

VEJA TAMBÉM: Nada mais seria como antes: os 60 anos da visita do Honvéd ao Brasil

No ano anterior, Feola havia trabalhado com o treinador húngaro Béla Guttmann no São Paulo e comenta-se que fora muito influenciado por ele ao adotar o 4-2-4 na Seleção. Solich, porém, militava no futebol brasileiro há mais tempo, e Feola tinha conhecimento de seu trabalho: naquele início de 1958, assistira às goleadas do Flamengo sobre o Botafogo (4 a 0) e o Palmeiras (6 a 2) pelo Torneio Rio-São Paulo e se mostrava muito impressionado.

Com efeito, o Flamengo seria o clube com maior número de jogadores chamados tanto na pré-lista, com os convocados para a fase de preparação, quanto na relação final dos 22 para o Mundial da Suécia. Joel, Moacir, Dida e Zagallo integrariam o escrete campeão mundial, enquanto Jadir só não fez companhia a eles por ter sido preterido de última hora pelo quarto-zagueiro vascaíno Orlando, mais acostumado a atuar pelo lado esquerdo da defesa.

Zagallo, aliás, corria por fora na disputa pela ponta-esquerda da Seleção, chegando à titularidade com as lesões de Canhoteiro (que acabaria cortado) e Pepe. Mas, na Suécia, faria toda a diferença na equipe do ponto de vista tático. Era quem dava o equilíbrio entre os três setores, permitia os avanços de Nilton Santos e auxiliava tanto na criação quanto na marcação. Era o símbolo do futebol moderno daquele time, cumprindo o que já fazia no Flamengo.

No segundo semestre, mesmo após negociar Joel e Zagallo, o Fla novamente chegaria bem perto do título carioca, perdido apenas no chamado “supersupercampeonato”, um segundo triangular extra com Botafogo e Vasco – que levou a taça. Mas no início de 1959, o time de Solich ainda levantaria a prestigiosa Gran Serie Suramericana de Clubs, um hexagonal em Lima contra Peñarol, River Plate, Colo Colo, Alianza e Universitario.

Em julho daquele ano, o treinador encerraria sua primeira passagem pelo clube ao ser chamado para substituir o argentino Luis Carniglia no comando do Real Madrid. Voltaria exatamente um ano depois, ficando até janeiro de 1962. Nessa segunda fase, conquistou em 1961 o Torneio Octogonal de Verão (em que os rubro-negros enfrentaram Vasco, São Paulo, Corinthians, Boca Juniors, River Plate, e os uruguaios Nacional e Cerro), e o Torneio Rio-São Paulo.

Também nesta passagem, revelou mais um punhado de excelentes jogadores, como o volante Carlinhos “Violino”, o meia Gérson (o “Canhotinha de Ouro”) e o ponta Germano, mais tarde vendido ao Milan. Anos depois, a eles se juntaria outro nome histórico rubro-negro, o qual Solich lançaria no time de cima em sua terceira e última passagem pela Gávea, no segundo semestre de 1971: um garoto franzino de apenas 18 anos chamado Zico.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.