Flávio Migliaccio estava entre os rostos mais conhecidos da dramaturgia brasileira. O ator começou a aparecer em cena ainda na década de 1950, em teatros amadores de São Paulo. A partir de então, acumulou diversos trabalhos também na televisão e no cinema. E o talento de Migliaccio ajudou a transportar o universo do futebol aos palcos e telas algumas vezes. Falecido nesta segunda-feira, aos 85 anos, o paulista participou de produções marcantes em que o esporte foi o tema principal.

Torcedor do Vasco, Migliaccio costumava participar das peladas entre atores e apresentava qualidade com a bola nos pés. Segundo suas próprias palavras, em entrevista ao Jundiaí Agora, “era um jogador com algum talento”. Ainda assim, muito maior era o seu talento para a atuação, e isso se notaria em inúmeros papéis. O futebol, desta maneira, se tornou um passatempo. Se suas primeiras memórias da televisão eram as transmissões de partidas, antes mesmo das novelas, também manteria o hobby por muitos anos. “Quando quero me esquecer do trabalho, vou assistir a qualquer jogo de futebol onde esteja um Neymar, um Messi…”, confessaria.

Mas o futebol também representou trabalho a Flávio Migliaccio. Ele era o protagonista de ‘Chapetuba Futebol Clube’, primeira grande peça de teatro do Brasil a falar sobre o esporte – e ainda hoje tratada como a principal delas. Escrita por Oduvaldo Vianna Filho, a obra foi encenada pela primeira vez em 1959, no Teatro de Arena em São Paulo. Milton Gonçalves e Nélson Xavier engrossavam o excelente elenco, dirigido por Augusto Boal. Mais tarde, o texto viraria uma fotonovela nas páginas da revista Placar e, de tão marcante, voltaria aos palcos em seu aniversário de 50 anos.

Na peça original, Migliaccio era Maranhão, o goleiro de uma equipe interiorana que buscava seu estrelato nas competições. O texto de ‘Chapetuba Futebol Clube’ fala sobre a paixão ao redor da modalidade, mas também sobre as trapaças e a corrupção que rondam os bastidores. De qualquer maneira, o futebol servia mais como um trampolim à discussão sobre questões sociais. O ambiente do clube era, na verdade, um recorte do cotidiano e da sociedade como um todo.

Já no cinema, Flávio Migliaccio viveu um torcedor de futebol entre seus muitos papéis no filme ‘Como vai, vai bem?’, comédia em que atuava ao lado de Paulo José – seu grande parceiro na série infantojuvenil ‘Shazan, Xerife e Companhia’, talvez a mais marcante de sua carreira. No entanto, suas maiores contribuições às telonas futebolísticas vieram em ‘Boleiros’. O paulista esteve presente nos dois longas dirigidos por Ugo Giorgetti.

Migliaccio era Naldinho, um ex-jogador do Corinthians e um dos condutores das histórias recontadas em ‘Boleiros’. O veterano ajudava a relembrar na mesa do bar os causos do campo, mas também vivia uma das cenas mais emocionantes do filme. Já nos minutos finais do longa, Naldinho não escondia sua dor ao encarar a velhice e os efeitos do tempo sobre o corpo, após os anos gloriosos como atleta.

“Sabe, às vezes olho essas fotografias na parede e penso assim: ‘Será que sou eu mesmo?’. Às vezes penso que foi com outra pessoa que aconteceu tudo isso”, dizia Naldinho, durante a cena. “Sabe, às vezes eu vou num restaurante ou em algum lugar com minha filha e meu genro, e sempre chega alguém assim que diz: ‘Você é o Naldinho do Corinthians, né? Você foi um craque’. E vinha um mais velho, que dizia assim: ‘Ô, esse aí eu vi jogar! Isso que era jogador’. E eu fico com vergonha. Eu não sabia por que, e eu descobri. É porque eu sinto vergonha de ser assim como fiquei”.

Para homenagear Migliaccio, sua vida e sua grande carreira, fica a lembrança do momento final de ‘Boleiros’. Alguns minutos que transmitem todo o talento do ator e, por tabela, sua contribuição a ver o lado mais humano dos jogadores.