Flamengo saiu da angústia e fez do sonho realidade 88 minutos depois do nada: a Libertadores é rubro-negra

Diante de um River Plate imenso, que jogou demais, o Flamengo consegue uma virada épica para conquistar a segunda Libertadores da sua história

A Libertadores ganhou mais um épico na sua rica história. Em 23 de novembro de 1981, Zico fez os dois gols do título do Flamengo. Só que em 2019, a história parecia caminhar para um desfecho triste aos rubro-negros. Ao menos até os 88 minutos. Foi quando Gabigol fez dois gols, o primeiro aos 44 e o segundo aos 48, transformou o sofrimento em alegria e fez história. O Flamengo vira, vence o River Plate por 2 a 1 em Lima e conquista um título que faz toda uma nação explodir em alegria. A primeira final única da Libertadores foi tornada épica por um Flamengo que sofreu demais com um imenso River Plate, que fez tudo bem e parecia ter anulado o rival. Depois de 38 anos, porém, era outro gigante o destinado à taça. Era o Flamengo, de Gabigol, de Jorge Jesus, de 40 milhões de pessoas, de uma nação. Era o Flamengo bicampeão da América.

Nelson Rodrigues escrevia em seu tempo que o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. Era, naquela época, o grande clássico do Rio de Janeiro. Correndo o risco de uma heresia, parafraseio o escritor: o Flamengo conquistou o seu segundo título da Libertadores 88 minutos depois do nada. Haveria um desgosto profundo, mas isso se não existisse um Flamengo no mundo. Porque havia. E havia Gabigol. Havia também Diego Ribas, o capitão machucado nas oitavas de final que voltou nas semifinais para ser determinante em uma final agonizante.

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Festa estranha com gente esquisita

A primeira final única da Libertadores foi cheia de cerimônias, como era de se esperar. O estádio Monumental, em Lima, repleto, viu shows, algum papel picado e… Stormtroopers? Sim, foi isso mesmo. Por algum motivo que ainda não sabemos bem qual é, foram os soldados do Império, personagens de Star Wars, entraram em campo ao lado da taça. Se a tropa estava protegendo a taça e a taça é da Conmebol, seria a confederação sul-americana o Império? Fica o questionamento.

Na entrada em campo, os dois times vieram juntos e o atacante Gabriel Barbosa, vulgo Gabigol, tocou na taça – algo que normalmente não é permitido. Será que isso daria sorte ou azar? Tocar a taça antes de conquistá-la não é permitido em todos os grandes títulos do mundo: Libertadores, Champions League, Copa do Mundo. Em nenhum desses casos é permitido que os jogadores que não a conquistaram toquem nela. Claro que é só uma formalidade, mas é uma curiosidade também. Poderia ser uma maldição. Mas a taça parecia que já sabia para quem iria.

As escalações dos dois times foram dadas um dia antes, nas coletivas de imprensa dos dois técnicos. A dúvida era em relação ao posicionamento dos jogadores. O River trouxe a sua formação tradicional, com um 4-1-3-2. O Flamengo também, com muita movimentação dos jogadores de frente. Éverton Ribeiro, Giorgian de Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabriel se mexeram demais para tentar confundir a marcação.

Marcação pressão do River complica Flamengo

O Flamengo começou o jogo tentando pressionar muito na defesa do River. Foram alguns minutos tentando sufocar o time argentino, mas sem conseguir criar qualquer chance. Só que isso rapidamente aconteceu do outro lado. E se o River aguentou bem do seu lado, o Flamengo foi forçado a errar e errou. Os rubro-negros erraram passes na saída de bola e davam chances para o time argentino levar perigo. E levaram.

Aos 14 minutos do primeiro tempo, o River conseguiu uma boa jogada. Enzo Pérez trabalhou a bola, tentou o passe forçado na esquerda, a defesa cortou e a bola voltou para ele. O meio-campista, então, passou novamente para Ignacio Fernández. A bola foi um pouco longa, mas o meia se esforçou, se atirou e cruzou rasteiro. Gérson e Arão bobearam, um deixou para o outro, a bola passou entre os dois e sobrou para Rafael Borré, que bateu de pé direito, no cantinho: 1 a 0.

Depois do gol, o Flamengo sentiu. Passou a errar ainda mais. Em três lances, o River retomou a bola no campo de ataque e resolveu a jogada muito, muito rápido, com finalizações que levaram perigo.

O Flamengo naturalmente recuou um pouco as suas linhas, tentando aliviar a pressão que o River fazia e também pelos erros que eram cometidos na saída de jogo rubro-negra. O Flamengo tentava chegar ao ataque, mas tinha dificuldades para encontrar espaço para seus velozes jogadores. O River tirou a possibilidade de lançamentos em velocidade com um time bem posicionado, com linhas um pouco mais baixas, mas sem ficarem encostados atrás.

Aproveitando uma retomada de bola, o River explorou os espaços pelos lados do campo em contra-ataque e o meia Exequiel Palacios chutou de forma muito perigosa de fora da área. O time argentino passou a ditar mais o ritmo. Sem deixar que o Flamengo acelerasse o jogo como gosta. O River seguia forçando o erro e funcionou.

O apito final do primeiro tempo deixou até uma sensação de alívio aos rubro-negros, que nada fizeram para ter um gol a seu favor, mas poderiam ter saído em um prejuízo maior. Nos primeiros 45 minutos, foram 34 perdas de posse de bola, apenas uma finalização realizada, 83% de acerto de passes e só quatro desarmes certos, segundo o Footstats. Em toda Libertadores, o Flamengo normalmente tem números muito melhores: 29,5 perdas de bola em média, 11,3 finalizações, 91% de acerto de passes e 16,9 desarmes. O River conseguiu anular o jogo dos rubro-negros. Seria preciso algo diferente na segunda etapa para mudar o panorama.

Flamengo tenta a reação e cria chances

O River voltou fazendo o mesmo que no primeiro e tentando forçar erros na saída de bola pelos lados do campo. Só que o Flamengo, assim que saiu da pressão no primeiro lance, conseguiu um ataque rápido, Arrascaeta arrancou pelo meio depois de receber com liberdade, tocou em Gabigol que finalizou. A bola saiu fraca, sem problemas para o goleiro Franco Armani defender.

O Flamengo conseguiu uma grande chance de gol aos 11 minutos. Borré ficou no chão em um ataque do River e os jogadores do time argentino pediram para que o jogo fosse parado. O Flamengo não parou, como, aliás, é recomendável. Quando o lance é para ser parado, o árbitro deve fazer essa parada, justamente para evitar que o Fair Play seja usado para enrolar o jogo.

Na sequência do lance, Gabigol conseguiu tocar para Bruno Henrique que, enfim, teve espaço, foi até a linha de fundo, tocou para trás, a bola veio para Gabigol que chutou forte, a bola foi bloqueada pela marcação do River e ainda sobrou para Éverton Ribeiro. Ele chutou forte de pé direito, mas Armani fez a defesa. Uma grande chance do Flamengo na partida, a melhor até ali.

Aos 16 minutos, o Flamengo teve um problema. Gérson sentiu lesão e precisou sair. O jogador parecia muito decepcionado. Ele ainda ficou alguns minutos em campo, mas não aguentou continuar. Aos 20 minutos, foi substituído por Diego. O River plate também mudou pouco depois. Aos 23 minutos, saiu Ignacio Fernández e entrou em campo o jovem atacante Julian Álvarez, de 19 anos.

Bruno Henrique arrancou pela esquerda aos 25 minutos e foi derrubado. Falta que gerou um lance de perigo, com Diego cobrando para a área, mas ninguém conseguiu finalizar. A torcida do Flamengo aumentou o volume, gritando o “Vamos Flamengo”, o que atiçou a torcida argentina a também responder, gritando e se fazendo ser ouvida no estádio Monumental.

O nervosismo aumentava. O Flamengo sentia o jogo, estava tentando mais, mas ainda sofria muito com uma pressão imensa dos Millonarios. Não havia espaço. Qualquer lance nos pés dos rubros-negros significava muita pressão na bola. O tempo todo pressionando. Mas o Flamengo ao menos conseguia criar um pouco. E com uma bola que saiu dos pés de Diego, a bola foi para Gabigol, que não finalizou, Éverton Ribeiro recebeu e também não finalizou e cruzou para Arrascaeta, na segunda trave. Ele tentou uma finalização de voleio, não acertou em cheio. E o time perdeu a chance de uma finalização mais perigosa.

Gallardo fez outra mudança aos 28 minutos do segundo tempo. Tirou o atacante que tinha feito o gol do jogo até ali, Borré, e colocou Lucas Pratto. Em seguida, fez a sua última substituição: tirou o lateral esquerdo Milton Casco e colocou Paulo Díaz, um zagueiro, que passaria a atuar por ali.

O River recuou a sua linha defensiva, mas não diminuiu a pressão. O Flamengo acreditava e, com Diego outra vez, achou espaço para Gabigol correr pela esquerda. O camisa 9 foi até a linha de fundo, mas não acertou o cruzamento. A bola foi desviada e, assim, amenizada. O corte foi feito e nada de finalização perigosa, mais uma vez. O Flamengo parecia sentir falta de precisão no momento decisivo para, enfim, finalizar, levar perigo, exigir uma grande defesa ou, claro, fazer o gol.

Os 10 minutos finais tinham o Flamengo posicionado no campo de ataque, o River bem posicionado para defender e pressionar. O Flamengo arranjava alguns espaços que não tinha no primeiro tempo, mas eram rapidamente preenchidos. Faltava rapidez para definir a jogada antes dos jogadores Millonarios chegarem na bola, acabando com qualquer tranquilidade.

Jorge Jesus apostou: tudo ou nada

Jesus, então, decidiu arriscar aos 40 minutos. Willian Arão, que parecia sentir alguma lesão ao arrastar a perna, deixou o gramado. Entrou em campo Vitinho, um atacante. Um risco que o Flamengo, a essa altura, precisava correr.

O Flamengo lutava, brigava, tentava. Eram os 38 anos de jejum. O time seguia tentando, Diego, em campo, orientando. E veio o lance decisivo. Pratto perdeu a bola no ataque do River, Bruno Henrique tocou para Arrascaeta, que, dentro da área, rolou para o lado. Gabigol, livre, leve, solto, levou a massa à loucura. Empurrou para o gol vazio, abriu os braços, fez sua comemoração característica: fez o sinal de força, com os dois braços. Era o empate.

O River sentiu demais o gol. Sentindo o impacto, o Flamengo aproveitou para matar o jogo. Lançamento longo para Gabigol, que, no meio da área, ganhou a primeira do zagueiro Pinola, que o marcou incansavelmente, e, de pé esquerdo, fuzilou o goleiro Armani: 2 a 1, virada, loucura, aos 48 minutos.

Nada mais parecia estar no caminho rubro-negro. Os minutos finais foram só de confirmação. Ainda deu tempo de Exequiel Palacios agredir Bruno Henrique, que segurou a bola na ponta esquerda, sofreu a falta e o jogador do River o chutou no chão. O jogador do River foi expulso. Logo depois, Gabigol foi expulso também. Era só questão de tempo. A festa estava pronta. E o apito final do árbitro Roberto Tobar decretou o fim do jogo, mas não só isso. Decretou também o fim de um jejum. Decretou o início de uma festa de uma nação. A nação rubro-negra vive o transcendental.

Um time que soube lutar, soube vibrar e, mesmo com um River que fez tudo certo, conseguiu aproveitar, no final, as chances que teve para ter uma vitória cardíaca. Uma virada inacreditável. Nos acostumamos a ver esse time do Flamengo dominando os adversários de forma avassaladora, mas encontrou um adversário que não permitiu isso. Precisou arriscar. Buscou, no final, as forças para derrubar um gigante sul-americano, o melhor time do continente nos últimos cinco anos. Não era possível ser mais épico.

O Flamengo escreve uma história fantástica. Escreve uma história campeã. O River perde o jogo, mas sem perder a sua altivez. Mostrou sua força. Foi enorme, mas caiu diante de um outro gigante. Caiu diante de um Flamengo que tinha muita fome. Que sofreu, e sofreu muito, mas quando teve a chance, finalizou, decidiu, venceu.

O Flamengo é bicampeão da Libertadores. E depois de 1981, 2019 será um ano para nunca mais o rubro-negro esquecer na sua história. A geração que viu Zico, Adílio, Andrade, Júnior, Leandro, Nunes e tantos craques tem agora Gabigol, Bruno Henrique, Éverton Ribeiro e tantos outros. Uma nação que vibra um título com a cara, as cores e o estilo rubro-negro.