Do Rio de Janeiro

O maior jogo da história do Flamengo em 38 anos acabou sendo, sim, a maior exibição do time nessa altura da Libertadores. Os 5 a 0 sobre o Grêmio mostraram um pouco do que é o Flamengo e como a cidade vive em dia de jogo daquele que é o seu clube com maior número de torcedores.

A Libertadores ter se tornado uma competição com a qual o Flamengo não tem intimidade, por todas as suas decepções recentes, serviu de palco à apoteose rubro-negra ao longo desta campanha. Desde 1981 o torcedor espera por este momento: o de voltar a uma final de Libertadores. Desde então, tudo mudou.

O Flamengo não é o mesmo (e basicamente nenhum dos grandes clubes também). A torcida não é a mesma. O Rio de Janeiro não é o mesmo. O Brasil tão pouco. Nem mesmo a Libertadores é a mesma. Tudo mudou. Até a forma de se relacionar com o time mudou. O que não muda é a paixão. Esta continua pulsando na cidade que vive dias de ansiedade.

Trem com pessoas sentadas e o corredor vazio
Trem no Rio de Janeiro (Foto: Fernando Martinho)

A escolha por começar essa história em Quintino não é casual. É um bairro sagrado aos rubro-negros, assim como Nazaré aos cristãos. De lá até o Maracanã, pegando o trem, poucos torcedores chegaram pelo Ramal Deodoro antes do último jogo do time em casa na Libertadores, diante do Grêmio. Em Quintino mesmo, a estação estava vazia duas horas e meia antes do jogo. Mas nas estações do Maracanã de metrô e trem que se integram, o barulho e a multidão vinham das composições metroviárias.

Era outra torcida que chegava ao estádio, se comparada àquelas imagens dos anos 80 – de torcedores descendo dos trens vindos da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro, assim como da Baixada Fluminense.

Foto da estação Maracanã (Foto: Fernando Martinho)
Foto da estação Maracanã (Foto: Fernando Martinho)

O clima no entorno do estádio era completamente diferente do vivido em 2017, na decisão da Copa Sul-Americana, a começar pelo operativo policial. Mas a empolgação e o desespero de 2017 eram proporcionais à carência e à necessidade de poder reafirmar a magnitude do que é ser rubro-negro. Um clube com uma torcida imensa, que viu vários rivais pelo país atingirem seu feito depois 1981, quando ter uma Copa Libertadores era privilégio de argentinos e uruguaios que só Santos e Cruzeiro também possuíam.

Naquela época, era um objeto de desejo que poucos tinham em casa. Depois, a taça passou a dar o direito de participar de outra competição que enchia de orgulho os rubro-negros: a Supercopa dos Campeões da Libertadores. O glamour massageava o ego dos torcedores e do clube, que se auto-enaltecia por ter colocado os ingleses na roda em 1981.

Com o tempo, o Flamengo se afastou da afinidade que acreditava ter com a Libertadores. A edição de 1984 tinha marcado a última semifinal  disputada pelo clube. Em 2017, a vontade era poder voltar a gritar a conquista de um título expressivo em âmbito continental.

As sucessivas frustrações na Libertadores, sobretudo a partir 2007, levaram a torcida à beira de um ataque de nervos seguido de depressão. Nem doeu tanto a eliminação nas oitavas para o Cruzeiro, já em 2018, após perder o primeiro jogo no Maracanã por 2 a 0. Parecia ter se tornado praxe.

O último título continental do clube foi o da Copa Mercosul em 1999 e, 20 anos mais tarde, o início de mais uma disputa da Libertadores nem gerava tantas expectativas, mesmo com contratações de peso no início do ano [Arrascaeta, Gabigol, Rodrigo Caio e Bruno Henrique]. Parecia que, primeiramente, o Flamengo deveria se impor em âmbito doméstico para depois buscar vôos internacionais.

Mais um ano se iniciava de maneira conturbada e com uma campanha questionada. Mas o time do Flamengo sofreria mudanças drásticas com as chegadas de um técnico estrangeiro e de jogadores com trajetórias internacionais, como Pablo Marí, Gérson, Filipe Luis e Rafinha.

As contratações aconteceram há pouco tempo, mas parece que já é um trabalho de longo prazo, dada a sinergia e resultados que surgiram tão imediatamente. O suficiente para inflar o ego do torcedor novamente.

Estação de trem vazia em Quintino, no Rio de Janeiro (Foto: Fernando Martinho)

O início, ainda assim, foi bem complicado e mostrou que o torcedor rubro-negro estava certo em manter as expectativas baixas. A sofrida e tão comemorada classificação contra o Emelec, nas oitavas de final, exemplifica bem isso. Era um feito que não acontecia desde 2010 e muitas outras frustrações, inclusive eliminações em fases de grupos, colocavam o clube num lugar muito desconfortável no patamar continental – e até em nível nacional,  pelas muitas vezes em que virou chacota.

Mesmo após a classificação às semifinais, quando o Flamengo eliminou o Internacional, os ânimos eram até brandos. Diferentemente de outros anos, não surgiram aqueles jargões como “deixaram o Flamengo chegar” ou “cheirinho”. Não à toa, mesmo após empatar fora de casa com o Grêmio, embora existisse uma confiança no trabalho de Jorge Jesus e no futebol apresentado pelo time, a eliminação para o Athletico Paranaense ainda estava fresca na memória. A parcimônia acabou sendo maior do que a empolgação desenfreada, como a do clima prévio à final da Copa Sul-Americana de 2017.

A torcida não chegou de trem. Chegava em peso de metrô, vinda da Zona Sul do Rio de Janeiro em sua maioria. O Flamengo conseguiu se alavancar não somente com receitas de TV ou patrocínios, mas também com a bilheteria – só no jogo contra o Grêmio, ultrapassou a marca de R$ 8 milhões (com 63.409 pagantes e 69.981 presentes) e no ano chegou a R$ 88,1 milhões, média de R$ 2.591.977 por partida, e ingresso médio de R$ 49, em dados levantados pelo Globoesporte.com. E isso se deve preponderantemente a uma mudança no perfil de quem frequenta o estádio em jogos, não só do Flamengo, não só do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil.

O Rubro-Negro não ficou alheio às mudanças e isso traz diferentes debates, mas a elitização traz maior receita que permite, assim, contratar jogadores do calibre do time que o Flamengo montou. Ao menos, essa é a tese daqueles que defendem que é necessário ou desejável, em algum aspecto.

Entrada do estádio Mário Filho, o Maracanã (Foto Fernando Martinho)

O clima era muito diferente não somente em termos do perfil da torcida presente no Maracanã, como também não havia tumultos generalizados no entorno do estádio, isolado e que só permitia o acesso de quem estivesse com ingresso na mão. O Flamengo vinha desempenhando um futebol tão convincente que até torcedores rivais declararam simpatizar com as vitórias, mesmo ainda torcendo contra. 

Torcedores rubro-negros em volta do Maracanã (Foto: Fernando Martinho)
Torcedores rubro-negros em volta do Maracanã (Foto: Fernando Martinho)

A euforia era quase controlada. Existia uma ansiedade, isso sim, muito maior no ambiente em torno ao Maracanã e na cidade. Durante o jogo, se via e se sentia isso muito bem. O Flamengo tem um aspecto que, talvez, seja o único clube capaz de proporcionar. Bares ficam lotados em toda a cidade.

Numa altura dessas, num campeonato tão importante como a Libertadores ou um final de Campeonato Brasileiro, o clima é muito similar ao de uma Copa do Mundo. Não exatamente para o torcedor do Flamengo, mas sobretudo para quem não torce pelo clube. A sensação é similar a de um estrangeiro no Brasil em plena Copa do Mundo.

Isso ficava explícito quando, a cada um dos cinco gols, os gritos explodiam das janelas dos prédios e ouvia-se à perfeição os berros da galeras reunidas nos bares com o sinal de TV atrasado. Era idêntico a uma Copa do Mundo. A Copa do Mundo é isso: algo difícil de tocar, que provoca tanta ansiedade a cada edição. E a Libertadores, para o Flamengo, é algo ainda mais distante.

Qualquer geração brasileira viva sabe o que é, no mínimo, chegar perto de uma conquista. Os nascidos pouco antes de 2002 talvez se lembrem vagamente do que é um título, só os muito jovens não sabem. Mas, entre os rubro-negros, quem tem menos de 40 anos, ou um pouco mais do que isso, não sabe o que é conquistar uma Libertadores. Essas pessoas criaram seus filhos, alguns com algo em torno de 20 anos de idade, contando histórias que seus pais, ou seja, que os avós desses meninos de 20 anos, contavam.

Os 5 a 0 sobre o Grêmio serviram para colocar pra fora quase 40 anos de frustração. Não foram poucas frustrações, afinal. O Flamengo surfou numa soberba megalomaníaca que não se sustentava mais. Agora, num outro momento do futebol, com outro perfil de time, sem nenhum jogador formado no clube entre os titulares, com uma torcida que não chega mais de trem, lotando um outro Maracanã, 38 anos depois, o Flamengo deixou de ser aquele Flamengo, se reinventou.

Tudo para chegar de volta a uma Libertadores que também não é mais a mesma, que não tem mais personagens como Mario Soto do Cobreloa que, com uma pedra na mão — alguns dizem que era um anel afiado —, abriu os supercílios de Adílio e Lico no segundo jogo da final daquela Libertadores em Santiago.

Agora o Flamengo irá para Lima e enfrenta, no mesmo dia que se consagrou campeão em 1981, o River Plate, mas numa final única, em estádio pré-definido (mas não muito antes, já que mudou de Santiago para Lima no dia 5 de novembro, 18 dias antes da decisão.

Não é a primeira vez que a Libertadores será decidida em campo neutro. Ao contrário, foram 14 edições dentre 28 finais, entre 1960 e 1987, que o terceiro jogo em um país alheio aconteceu. O Flamengo, próprio exemplo, ergueu a taça de 1981 em Montevidéu. Naquela época, não havia critérios de desempate. Se cada time vencesse um jogo, era necessário uma terceira partida para definir o campeão.

Se vencer o River Plate, o Flamengo pode vir a enfrentar o Liverpool, assim como em 1981. Mas, primeiro, vai precisar enfrentar um representante de outro continente, assim como o time inglês. O Mundial de Clubes, agora da Fifa, antes a Copa Intercontinental, era organizado pela Conmebol e Uefa.

Os ingleses não tinham nenhum jogador que não fosse britânico naquele time. Apesar da torcida do Flamengo tratar o Liverpool como um freguês histórico, o clube da cidade dos Beatles emitiu um comunicado explicando o que é o Mundial de Clubes. Nenhum torcedor do Liverpool com menos de 40 cresceu ouvindo seu pai lamentar aquela acachapante derrota de seu time para um fantástico Flamengo, que tinha vários jogadores formados em casa.

Se o Flamengo vencer o Liverpool, no entanto, em uma hipotética e sonhada final do Mundial, dificilmente algum torcedor do time inglês vai crescer chorando essa derrota. Mas ao que tudo indica, esse Flamengo pode virar lenda pras gerações futuras de rubro-negros. Hoje, quem tem menos de 40 anos vai contar pros seus filhos e netos como era o Flamengo de “Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Mari e Filipe Luis; Willian Arão, Gérson, Éverton Ribeiro e Arrascaeta; Bruno Henrique e Gabigol”, como quem tem mais de 40 anos contava pros filhos e netos a também decorada escalação de “Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico”.

*Fernando Martinho é editor da revista Corner e colaborador eventual da Trivela. Conheça a Corner, uma revista de futebol para quem, como todos nós, amamos futebol muito além das quatro linhas.