À medida em que cresceu a distância econômica e técnica entre o futebol sul-americano e o europeu, particularmente desde o começo do século, os confrontos do Mundial de Clubes entre os representantes desses continentes tiveram dois roteiros: ou europeu passeou ou o sul-americano encontrou um gol, resistiu à pressão e venceu um título épico. O Flamengo apresentou uma terceira via, que não víamos há muito tempo. Neste sábado, atuou de igual para igual contra o Liverpool. Chegou a dominar o jogo, manter a posse de bola e, em que pese não ter criado muitas chances, foi melhor durante longos períodos da partida. No fim, a questão física acabou pesando em um time que atuava pela 74ª vez em duelos oficiais este ano, e o Liverpool, na prorrogação, marcou com Roberto Firmino o gol do seu primeiro título mundial: 1 a 0 em Doha.

O Liverpool não fez um grande torneio. Em nenhum dos jogos, atingiu velocidade máxima. Não é que não deu bola para as partidas, ou as encarou como amistosos, mas pareceu dosar a sua energia de acordo com o que o jogo pedia. Tanto que intensificou um pouco o ritmo na reta final do segundo tempo, quando o adversário começou a minguar. E nessa abordagem, correu riscos. Poderia ter perdido tanto a semifinal quanto a decisão. O Flamengo não tem nada a ver com isso, e tanto faz o quanto os ingleses queriam estar no Catar. Fez o seu jogo, colocou a bola no chão e correspondeu ao que seu torcedor esperava no duelo teoricamente mais desigual da temporada.

O Flamengo levou alguns sustos nos primeiros minutos. A bola longa do Liverpool pegou a defesa adiantada e gerou duas grandes chances. Firmino ficou cara a cara, embora pressionado por Rodrigo Caio, e isolou. Keita também pegou embaixo demais da bola, depois do ótimo trabalho de pivô de Salah. Trent Alexander-Arnold soltou um chute cruzado e firme da entrada da área, bem perto da trave de Diego Alves.

E foi mais ou menos isso o que o Liverpool conseguiu fazer no primeiro tempo. O Flamengo foi pouco a pouco impondo o seu jogo e mantendo a posse de bola – 57%. Aproveitou que os ingleses, fora de sua característica, não marcaram pressão à saída de bola. Posicionaram-se entre o círculo central e a intermediária e permitiram a troca de passes.

Pode ter sido estratégia para atrair o Flamengo e acionar seus rápidos atacantes nas costas da defesa, como fez nos primeiros cinco minutos. Se foi, falhou, porque não houve nenhuma jogada desse tipo, especialmente porque os rubro-negros venceram na intensidade e ganharam quase todas as divididas no campo de ataque. O Liverpool teve dificuldade para sair jogando tanto tocando curto quanto tocando longo.

O mapa da mina não era um segredo para quem estudasse o Liverpool, o que Jorge Jesus certamente fez. O ponto mais frágil do sistema inglês está nas costas de Alexander-Arnold, excelente lateral direito quando chega à frente e com muito espaço para melhora na questão defensiva. Bruno Henrique deitou e rolou por ali e criou a principal chance dos brasileiros, mas, na hora certa, Joe Gomez apareceu para travar.

Ao mesmo tempo em que foi muito superior na etapa inicial a um adversário mais uma vez apático, faltou isso ao Flamengo: criar mais oportunidades claras de gol. Alisson não precisou fazer nenhuma defesa difícil. Na reta final do primeiro tempo, o Liverpool começou a conseguir passar da primeira linha de marcação do Flamengo e ter algum campo e espaço para avançar, mas também não conseguiu encaixar nenhuma boa troca de passes e pecou na escolha das jogadas.

O segundo tempo começou parecido ao primeiro. De cara, o Liverpool teve a grande chance de abrir o placar e, de novo, Firmino perdeu. Desta vez, pelo menos, todos os méritos vão para ele pela linda jogada em que deu um chapeuzinho em Rodrigo Caio antes de finalizar de perna esquerda, direto para o chão. A bola explodiu na trave. Logo na sequência, Arnold cruzou rasteiro da direita, e Salah chegou batendo, para fora.

E também como na etapa anterior, o Flamengo suportou a pressão inicial e conseguiu se assentar na partida. Impressionou demais a maneira como marcou o Liverpool. Complicou demais a saída de bola, o tempo inteiro pressionando Alisson, os zagueiros e os laterais, encaixotou o trio de ataque, não deu espaços e cometeu poucos erros. Em um desses movimentos, os ingleses erraram. Gabigol recebeu na entrada da área e bateu cruzado para ótima defesa de Alisson.

Gabigol ainda teve mais algumas finalizações, uma dela em uma meia bicicleta, sem problemas para Alisson, mas o Flamengo foi sentindo um pouco o físico na reta final do segundo tempo, e o Liverpool se impôs. Salah chegou a marcar, mas em posição clara de impedimento, e Henderson chegou batendo de primeira, com muita direção, obrigando Diego Alves a voar ao ângulo para espalmar a escanteio com uma ótima defesa.

Quando já corriam os minutos da prorrogação, o torcedor do Flamengo levou um susto daqueles. Firmino lançou Mané para dentro da área, mas o senegalês não conseguiu finalizar direito. O árbitro imediatamente marcou pênalti de Rafinha, mas foi alertado pelo assistente de vídeo que a infração poderia ter ocorrido fora da área. Depois de uma longa checagem, voltou atrás e sequer marcou a falta – que provavelmente acarretaria a expulsão do lateral direito. O replay mostrou um toque de Rafinha em Mané, mas foi um lance muito difícil, tanto em relação à existência ou não da infração, quanto da sua localidade.

E o jogo foi para a prorrogação. Os sinais de cansaço que o Flamengo demonstrava na reta final do tempo normal se intensificaram. O Liverpool passou a ter mais controle e a atuar de maneira mais confortável e, aos nove minutos, tirou o zero do placar. O lance começou em uma tomada de decisão errada de Gabigol no campo de ataque. Encontrou o cruzamento na segunda trave e cabeceou ao vazio, direto para Henderson, em vez de tentar finalizar ou achar um companheiro.

A primeira tentativa foi com Salah. A bola voltou para o capitão inglês, que desta vez acertou o lançamento para Mané. Rodrigo Caio tentou cortar e ficou no meio do caminho. Mané ficou com a bola na entrada da área, marcado por Rafinha, e Firmino projetou-se no espaço vazio. Recebeu o passe na marca do pênalti. Ao cortar para o meio, tirou Rodrigo Caio, que se recuperou muito bem, e também Diego Alves. E fez o gol.

Logo na sequência, o Liverpool poderia ter ampliado, mas Diego Alves impediu. Primeiro, defendeu um chute de fora da área de Salah e, na sequência, uma bomba de Van Dijk de dentro da área – o auxiliar levantou a bandeira para marcar impedimento, mas o árbitro ignorou e deu vantagem (?) para o Flamengo. Na etapa final da prorrogação, o Liverpool administrava, enquanto o Flamengo tentava pressionar, mais no coração do que na organização, e teve a chance de ouro de levar a partida para os pênaltis.

Era quase o fim. Faltava um minuto. Vitinho tentou dois cruzamentos rasteiros da direita. O primeiro bateu na defesa e voltou. O segundo encontrou Lincoln, livre. O garoto pegou de primeira, mas não conseguiu direcionar o chute. Isolou, por cima do travessão, a última oportunidade de manter vivo o sonho do bicampeonato mundial.

Não aconteceu. O nível principalmente físico do Flamengo caiu a partir da metade do segundo tempo, mais ou menos quando Jesus fez suas primeiras alterações, não necessariamente por causa delas. Desta vez, Diego não deu o passe decisivo, Gabigol e Bruno Henrique não conseguiram o milagre. Nada que tire o brilho da temporada do Flamengo. Nada que tire o brilho de uma atuação corajosa e de muito valor, de igual para igual com um campeão europeu – e um grande campeão europeu. Mais um motivo para o torcedor do Flamengo se orgulhar, mesmo que a viagem ao Catar não tenha virado música como a do Japão.

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