A vitória do Flamengo de forma emocionante na Libertadores no sábado parece ter iniciado uma festa que não tem hora para acabar. O título continental, segundo na história do clube, veio no sábado, 23 de novembro. O time voltou ao país neste domingo, 24, e estava na expectativa de mais um título sem nem precisar entrar em campo. E ele veio. O Palmeiras foi derrotado pelo Grêmio no Allianz Parque por 2 a 1. Assim, o Flamengo, com 13 pontos à frente dos alviverdes, com quatro rodadas a serem disputadas, é campeão brasileiro. Nem o empate salvaria o Palmeiras, porque o número de vitórias, primeiro critério de desempate, já tem o Flamengo com 25 e o Palmeiras, com 19, não teria como alcançar.

Ironicamente, foi o time de Renato Portaluppi que garantiu, em campo, que o título fosse comemorado antecipadamente pelo Flamengo. Logo ele, alvo de desejo dos rubro-negros no ano passado, antes da contratação de Abel Braga. Ele, que foi adversário do time carioca na semifinal da Libertadores e acabou por sofrer uma goleada por 5 a 0, naquela que é, provavelmente, a maior atuação da história rubro-negra na Libertadores.

Além do título, o Flamengo ainda pode ter o artilheiro do Campeonato Brasileiro. Gabriel Barbosa, o Gabigol, tem 22 gols até aqui – marca inclusive maior do que Zico, que fez 21 gols em 1980 e em 1982, primeira conquista deste campeonato do clube. Em 2009, último título do Flamengo nesta competição, o artilheiro foi Adriano, ídolo do Fla, com 19 (junto com Diego Tardelli, então no Atlético Mineiro).

O Flamengo já tem a melhor campanha da história dos pontos corridos com 20 clubes. Em termos de aproveitamento, o atual é o melhor de toda era dos pontos corridos, com 79,4%. O número de 25 vitórias é impressionante também. O time se tornou uma máquina de vencer jogos e avassaladora para os adversários.

É o sétimo título do Flamengo no Campeonato Brasileiro: 1980, 1982, 1983, 1987 (na controversa Copa União, da qual já falamos aqui), 1992, 2009 e 2019. Se iguala ao Corinthians em número de conquistas e fica atrás apenas do Palmeiras, que tem 10, e do Santos, que tem oito.

A campanha: o efeito Jorge Jesus

Jorge Jesus, do Flamengo (Getty Images)

A conquista do Campeonato Brasileiro está intimamente ligada à chegada de Jorge Jesus. O técnico acertou com o Flamengo no dia 1º de junho deste ano. O Palmeiras era o líder do Campeonato Brasileiro e Abel Braga tinha pedido demissão, se sentindo traído pela diretoria, que já procurava seu substituto antes de demiti-lo, segundo o técnico. Jesus chegou e teve todo o tempo da Copa América para trabalhar o time.

Sua estreia já foi no fogo. Contra o Athletico Paranaense, na Arena da Baixada, no dia 10 de julho, pela Copa do Brasil. Empatou por 1 a 1. No primeiro jogo no Campeonato Brasileiro, contra o Goiás, no Maracanã, venceu por 6 a 1, no dia 14 de julho. Foi quando começou uma série de jogos que colocaram o Flamengo no topo da tabela – algo que estava distante na época. Aquela era a 10ª rodada. Antes dela, o Flamengo tinha 17 pontos, oito pontos atrás do então líder, Palmeiras, que vinha em um ritmo muito forte com oito vitórias e um empate, nenhuma derrota até então.

Aquele 6 a 1 diante do Goiás mostrou um começo de encantamento, mas era pouco, diante de um adversário frágil que, naquela época, ainda parecia mais um candidato ao descenso. O que o Flamengo passou a fazer a partir dali seria marcante. Mas não sem percalços. No dia 17 de julho, o Flamengo disputou o jogo de volta contra o Athletico Paranaense na Copa do Brasil e, novamente, ficou no 1 a 1. O que significou que a vaga seria decidida nos pênaltis. O Flamengo perdeu do Furacão e aquele foi um primeiro revés, ainda no início de trabalho. E a sequência era dura.

Pelo Campeonato Brasileiro, na 11ª rodada, o adversário foi o Corinthians, em São Paulo. O empate por 1 a 1 mostrou um time que que era melhor, mas não conseguiu se impor para sair com o resultado. Em seguida, veio outro jogo duro: a ida das oitavas de final da Libertadores. A estreia do português pelo torneio continental. E mais problemas. A derrota por 2 a 0 foi dura e, pior ainda, perdeu o capitão Diego, que fraturou o tornozelo. Vieram vitórias no clássico contra o Botafogo, depois contra o Emelec, no jogo de volta, pelos mesmos 2 a 0. Se os pênaltis contra o Athletico Paranaense tiraram o time da disputa da Copa do Brasil, desta vez Diego Alves brilhou para manter o time na disputa da América.

O Flamengo ainda sofreria em um outro jogo, na 13ª rodada. Fora de casa, perdeu do Bahia por 3 a 0. Na classificação, o rubro-negro era o terceiro colocado com 24 pontos, atrás de Palmeiras (32 pontos) e Santos (28). Aquela seria a última derrota do time até a conquista do título. Porque dali em diante, o Flamengo embalou. Vieram três vitórias consecutivas (Grêmio, Vasco e Ceará). Foi ao final dessas três vitórias que o Flamengo assumiu, pela primeira vez, a liderança no Campeonato Brasileiro. Foi no dia 25 de agosto.

Embalaria mais cinco vitórias consecutivas, completando oito em sequência: Palmeiras, Avaí, Santos, Cruzeiro e Inter. Uma sequência em que enfrentou os dois principais concorrentes ao título e venceu, sempre jogando bem, melhor que o adversário, merecendo. Ao final daquela rodada, a 21ª, tinha três pontos de vantagem para o Palmeiras e já abrira 10 para o Santos. O time dirigido por Jorge Jesus já era claro favorito à conquista do título, não só pelos resultados, mas pelo futebol jogado.

O empate com o São Paulo, em um jogo que precisou preservar três jogadores, não arrefeceu o time. Inclusive, os três poupados entraram em campo e o time tentou vencer. Depois dessa rodada, emplacaria mais seis vitórias seguidas: Chapecoense, Atlético Mineiro, Athletico Paranaense, Fortaleza, Fluminense e CSA. Ao final dessa rodada, a 28ª, o Flamengo já tinha aberto 10 pontos do Palmeiras e outros 15 do Santos, terceiro colocado. A marcha em direção ao título parece inevitável.

Veio, então, mais um empate na 29ª rodada, contra o Goiás, fora de casa. Curiosamente, completando um turno com o técnico Jorge Jesus no comando. O ritmo do Flamengo seguia como de uma locomotiva. Venceu mais três jogos seguidos: Corinthians, Botafogo e Bahia. Pegou também o Vasco, no dia 13/11, antecipando um jogo da 34ª rodada. Por fim, antes da final da Libertadores, venceu o Grêmio, em Porto Alegre e ficou a um passo do título. Bastava uma vitória. Ou que o Palmeiras, segundo colocado, não vencesse o seu jogo seguinte.

O Grêmio de Renato Portaluppi foi o último a ser derrotado pelo Flamengo antes da comemoração da conquista. Que só veio porque o time de Renato venceu, fora de casa, o Palmeiras. E, assim, as últimas quatro rodadas do Campeonato Brasileiro serão meramente apoteóticas.

A começar pelo duelo com o Ceará, nesta quarta-feira, no Maracanã. Será lá que o Flamengo poderá receber a taça para celebrar o título. Ainda vai até São Paulo enfrentar o Palmeiras, no próximo fim de semana, dia 1º de dezembro. No dia 5 de dezembro, joga contra o rebaixado Avaí no seu último jogo no Maracanã, em uma quinta-feira. Termina a campanha contra o Santos, na Vila Belmiro. Curiosamente, o time que assumiu a segunda colocação e que também tem um técnico estrangeiro.

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Feito inédito desde o Santos de Pelé

Só uma vez na história um time brasileiro tinha conseguido conquistar o título do Campeonato Brasileiro (incluindo Taça Brasil e Roberto Gomes Pedrosa): o Santos, em 1962 e 1963, conquistou a Taça Brasil e a Libertadores nos dois anos. A Taça Brasil foi reconhecida como equivalente ao Campeonato Brasileiro em dezembro de 2010, em decisão da CBF. Na época, os torneios tinham menos jogos que atualmente, mas também tinham disputas bastante duras contra os melhores times de outros estados – e o mesmo vale na Libertadores.

Desde aquele fantástico time de Pelé, ninguém mais tinha conseguido conquistar os dois principais títulos possíveis para um clube brasileiro em um mesmo ano. Todos os campeões da Libertadores ficaram para trás no Campeonato Brasileiro. Desde que o Campeonato Brasileiro ficou mais longo com o formato de pontos corridos, a partir de 2003, só o Cruzeiro, naquele ano inaugural, ganhou dois grandes títulos no mesmo ano: Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Ninguém conseguiu levar a Libertadores e o Brasileiro.

Com muito mais jogos, muito mais desgastante do ponto de vista físico e emocional, conquistar ambos virou algo que não parecia uma ambição. E talvez esteja seja um dos aspectos mais importantes do atual Flamengo: ambição. Jorge Jesus desde o começo valorizou o Campeonato Brasileiro, uma competição que o Flamengo não levava para casa desde 2009. São 10 anos sem a taça, algo que incomodava porque o rubro-negro se organizou para ser o grande time que só agora está se vendo.