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“Se você quer oba-oba sobre a Copa do Mundo de 2014, veio ao lugar errado”, advertia a primeira linha do texto publicado na Trivela em setembro de 2009. Naquele momento, oba-oba sobre a Copa 2014 era só o que havia. O Brasil fora oficializado dois anos antes pela Fifa como sede da competição, o país passava por uma boa fase na economia e poucos queriam discutir os métodos, os meandros.

A Trivela foi, desde 2005, contra a Copa do Mundo no Brasil. “Você está louco, esqueceu o que foi 2014?” Claro que não, eu individualmente curti demais aquele mês. O problema é que eu jornalisticamente não posso curtir um mês na vida de um país sem parar pra pensar em como chegamos lá e principalmente, o que veio depois daquele mês.

Todo mundo sabia que ia ter sacanagem, roubalheira, abuso a direitos, gente despejada, sacanagem e roubalheira. E sacanagem, autoritarismo e roubalheira. Tudo assim mesmo, repetidamente. Era tão óbvio quanto dizer que escalar Bernard contra a Alemanha não podia dar certo.

Todo mundo sabia mas ninguém dizia. A Trivela dizia, não porque éramos, ou somos, melhores do que os outros, mas porque não tínhamos, como não temos, compromissos que nos impedem de dizer o que precisa ser dito. A primeira revista Trivela com o nome Trivela, depois das Copa’06, ao invés de ter na capa Zidane ou Ronaldinho tinha Lula pendurado em Ricardo Teixeira.

A Copa de 2014 foi um desastre para o Brasil em dimensões até hoje subestimadas. Se todos tivessem feito seu papel, porém, poderia não ter sido. Poderíamos ter tido aquele mês maravilhoso sem sacrificar as décadas seguintes e alguns anos anteriores. Infelizmente, se tem algo que continua igual no Brasil ao que era em 2009 é que a imprensa esportiva, mesmo a melhor delas, continua tendo compromissos que a impedem de dizer que o futebol é administrado majoritariamente por mafiosos e por gente que pensa primeiro em dinheiro, segundo em dinheiro e terceiro em dinheiro, e que se pudesse ganhar dinheiro com pornografia ou cocaína sem pegar mal nem ser preso, faria isso.

Se em 2005, quando ainda planejávamos viver de publicidade, a gente fazia isso, em 2019, quando já recebemos de vocês a mensagem de que podemos contar com vocês para tudo, não faria nenhum sentido mudar nada. A Trivela não é um site de fiscalização e não é por isso que as pessoas nos conhecem e nos visitam, mas isso é algo que esperam da gente: olho aberto e porrete na mão contra os mafiosos, os pornógrafos da bola. Era assim em 2005, 2007, 2009 e 2014. Em 2019 é ainda mais assim.

Obrigado por continuarem a nos dar a chance de mostrar que jornalismo esportivo é, antes de tudo, jornalismo.